“Guerreiros do Sol” é uma novela que carrega, em sua essência, um elenco majoritariamente nordestino – o que, por si só, já a distancia de outras produções que retratam o Nordeste sem, necessariamente, pertencer a ele. “’Guerreiros’ tem um elenco majoritariamente nordestino, em que o Nordeste ocupa um lugar de propriedade maior do que em outros trabalhos. Outras novelas também se passavam na região, mas traziam atores do Sudeste e, com isso, uma perspectiva um pouco mais estrangeira. Era, sim, uma visão externa”.
O ator prossegue explicando seu compromisso com a construção responsável de personagens: “Eu tento, em todos os trabalhos, fazer esse exercício de respeito à história do lugar e da época que estou representando – qualquer que seja o território. E, diante de toda essa complexidade que você mesmo mencionou na pergunta – esse estereótipo que nos acostumamos a ver, em que personagens nordestinos são frequentemente interpretados por atores do Sudeste – a gente precisa estar atento. O sotaque, nesses casos, muitas vezes soa estranho, artificial. Em “Guerreiros”, percebo uma preocupação diferente. E, pessoalmente, eu mesmo me policio muito. Assisto ao meu próprio sotaque. Todo trabalho, todo personagem, merece um olhar respeitoso. Se você está interpretando um personagem de São Paulo, por exemplo, é necessário respeitar São Paulo – sua gente, sua fala, sua língua. Fiz o máximo que pude para não desrespeitar, para não cair numa tentativa caricata, estereotipada de representar alguém”.

Cadu Libonati e Alinne Moraes são mãe e filho em “Guerreiros” (Foto: Divulgação/Globo)
Há uma consciência nítida em sua fala, especialmente quando ele rejeita as armadilhas do lugar-comum na representação da cultura nordestina: “Quis muito evitar isso – mas também não queria que esse receio me impedisse de representar. O esforço é para não estereotipar, para não recorrer a clichês como forma de retratar o Nordeste. Tive muito auxílio, muito estudo, e encontrei no elenco pessoas maravilhosas. Me deixei aberto para ouvir – sobretudo aqueles que dominavam melhor o sotaque que eu estava buscando: o do interior de Pernambuco, que é muito específico. Afinal, o Nordeste é imenso, e temos milhões de jeitos de falar”.
Se, em algum momento, ofendi alguém do Nordeste, mil perdões. Mas acredito que a grande busca é essa: trabalhar com o máximo respeito – e, principalmente, com escuta. Porque o trabalho do ator é, antes de tudo, escuta – Cadu Libonati
Quanto à forma como o projeto é rotulado – novela, série, supersérie – Cadu não se mostra preocupado. Pelo contrário, vê nisso uma virtude do formato híbrido: “Está no streaming, mas também está na plataforma da TV por assinatura. É uma coisa bem moderna. Algumas pessoas chamam de série, outras de novela, ou ainda de supersérie. Acho isso muito positivo. O fato de as pessoas não conseguirem rotular com precisão é, para mim, uma qualidade. “Guerreiros” não se prende a um padrão estético rígido. Ela não se limita a um rótulo – ‘é novela’, ‘é série’, ‘é da Globoplay’. Acho isso incrível. É um grande mérito do Rogério Gomes (Papinha) e de toda a equipe de edição e produção. Eles conseguiram ajustar a história de um jeito que o rótulo deixa de importar – mesmo que a gente, por hábito, continue buscando nomes”.
Na percepção dele, esse cenário híbrido reflete o momento de transição do próprio mercado audiovisual: “A gente está vivendo um tempo em que tudo é híbrido. O mercado muda a cada semana. Tenho apenas dez anos de audiovisual e quinze de teatro. A estética mudou quinze mil vezes. Hoje em dia, eu me sinto perdido, de verdade. Às vezes, parece que só nos resta sentar e esperar que alguém decida qual vai ser o próximo modelo – de streaming, de filme, de série, de novela…”.
Tem muita coisa boa sendo feita, sim – e isso é ótimo. O meu medo é só que a gente perca tudo. Tudo mesmo: a criação, a interpretação e o modo de consumo. Meu medo é que tudo isso se torne raso demais – Cadu Libonati
Eu adoro a loucura. Eu acho que o trabalho do ator é instigar, investigar a loucura – Cadu Libonati

Cadu Libonati e Luan Vieira são irmãos em “Guerreiros” (Foto: Divulgação/Globo)
No seu podcast, “Salvando Cadu“, o ator encontrou uma nova via de expressão – e uma alternativa às dinâmicas muitas vezes exaustivas das redes sociais. “O podcast também é um lugar de me libertar um pouco das redes sociais. Eu sempre dei muita opinião ali e comecei a entender que isso talvez pudesse me prejudicar. Enfim, esses cálculos que a gente tem que fazer na carreira. Eu gosto de podcast desde sempre. Até brinquei que seria ‘mais um rapaz branco, hétero, sem gênero, fazendo um podcast, falando o que pensa, conversando com gente que ele acha interessantíssima’. E o podcast transita nisso. Eu não tenho muito um julgamento do que é certo e errado para quem estou conversando. Mas eu sou muito fiel e convicto às minhas ideias. E também convido muita gente que eu acho incrível, como a Alice Carvalho, a Alice Wegmann, a Bella Campos… ou a minha avó, Irene Ravache“.
Crescer cercado por artistas foi, para ele, uma escola. A resposta à inevitável pergunta sobre sua linhagem artística vem com a clareza de quem reconhece o privilégio – e a responsabilidade – dessa herança: “O fato de eu crescer ao lado da minha avó, que é a Irene Ravache, e do meu tio – eu sou praticamente afilhado do Marco Nanini – me fez entender muito do ofício. Eu acho que isso é um privilégio absurdo. Tenho uma gama de experiência e vivência de teatro desde criança, e isso já coloca muita gente à frente, porque, quando você começa a trabalhar, vê que a experiência, a vivência daquele lugar, vai te calcificando. E muitas vezes, quando você tem essa bagagem e outras pessoas não, você está um pouco à frente”.

Avó e neto: Irene Ravache e Cadu Libonati (Foto: Divulgação/Globo)
A formação de Cadu, no entanto, não se deu apenas no palco. Ela se nutriu também dos bastidores e da intimidade familiar, em suas complexidades e aprendizados. “Esse privilégio de poder crescer ao lado da minha avó, vendo ela fazer as coisas, me fez aos poucos gostar muito disso e ficar muito encantado pela forma como ela faz. E também por estar ao lado do meu pai, que era designer de luz, se arriscava a dirigir, e é um vitorioso – pois passou por problemas de adicção nos anos 90 e hoje em dia é psicólogo formado, tem projetos incríveis, como um podcast chamado “Fala Comigo”, que é muito legal. Família é um pouco esse liquidificador do que é bom e ruim”.
Ainda que o medo de voar – de avião – nunca o tenha impedido de decolar, Cadu segue sendo um homem original, que não pousa onde já se espera. Para ele, o mais bonito da arte está no voo: decolar para, só então, aterrissar. Traçar um grande trajeto, muito além da dor. Enquanto voa – mesmo com medo – entre universos distintos, o ator parece decidido a fazer de sua trajetória algo que vá além dos laços herdados. Se há um legado, ele o honra. Mas também inventa, sem pressa, um caminho com assinatura própria.

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