*Por Brunna Condini
Caco Ciocler chega ao segundo semestre de 2026 multiplicando-se entre o cinema e o teatro, mas também fazendo do momento profissional um ponto de partida para refletir sobre o tempo em que vivemos, e sobre o seu próprio tempo. Aos 54 anos e com mais de três décadas de carreira, o ator lança, em 23 de julho, o premiado longa nacional ‘Pequenas Criaturas’ e, poucos dias depois, dia 31, estreia nos palcos em ‘Inter Alia’, novo texto da dramaturga australiana Suzie Miller, autora do fenômeno internacional ‘Prima Facie’, ao lado de Drica Moraes e Caio Cesar Passos, sob direção de Rodrigo Portella. Em conversa com o site, Caco parte desses novos trabalhos para falar sobre presente, futuro, polarização, os caminhos da arte e envelhecimento. “A maior transformação que tenho vivido, assim como todo mundo, é envelhecer. Há muito tempo estou envelhecendo, né? Acho que essa é a maior transformação que já vivi. Chega uma fase da vida em que você começa a se perguntar: ‘Como projeto 10, 20 anos para frente? O que realmente importa? O que preciso carregar por mais 10, 20 anos e o que não quero mais carregar?’. A gente vai soltando um pouco as coisas, tentando ficar mais leve, carregar menos”, reflete.
Ao envelhecer vamos nos conectando com o essencial, com o que vai sobrando, e vai sobrando cada vez menos coisa. Tem uma beleza nisso. Você vai vendo que vive, e vive bem, com menos – Caco Ciocler
Se o passar dos anos parece ter aproximado Caco de um olhar mais essencial para a própria existência, sua percepção sobre o tempo coletivo é menos otimista. ‘Pequenas Criaturas’, estrelado por Carolina Dieckmann, se passa em 1986, quando o Brasil dava os primeiros passos de sua redemocratização, e revisitar aquele período levou o ator a identificar uma diferença significativa entre aquela geração e a atual: a capacidade de projetar um futuro melhor. Para ele, havia naquele momento uma confiança maior não apenas no país, mas na própria humanidade e na força do coletivo. “Talvez seja porque eu fosse mais jovem, mas acho que não. Tenho a sensação de que naquela época existia uma crença maior no futuro. O Brasil estava aprendendo a viver na democracia. Lembro que a gente projetava um grande país, um grande planeta, uma comunidade internacional integrada. Acreditávamos que estávamos caminhando para algo melhor”, analisa.
Quatro décadas depois, o ator enxerga uma sociedade mais individualizada, amedrontada e menos disposta a acreditar em projetos coletivos. Uma mudança que, para ele, alcança inclusive as gerações mais jovens.
Sinto que a gente ficou mais descrente. Acho que é uma geração mais amedrontada, menos crente no futuro, nas utopias, no coletivo. Acho que a gente se individualizou. Essa é uma transformação bem triste – Caco Ciocler
A arte nas brechas das certezas
Em um país atravessado pela polarização e em um ano de eleições, Caco acredita que a arte ainda pode funcionar como um espaço de encontro justamente porque sua natureza, em sua visão, é incompatível com verdades absolutas. Se boa parte do debate contemporâneo parece partir da necessidade de estar certo e enquadrar o outro em posições definitivas, ele encontra na criação artística a possibilidade oposta: provocar dúvidas. “A arte é o lugar para isso. Porque ela não tem nada a ver com certeza. A arte nasce nas brechas das certezas. Quando as certezas racham e você é obrigado a olhar para o mundo de uma maneira nova, justamente porque elas racharam, aí nasce a arte. A arte não tem a ver com conforto, não tem a ver com certeza. Muito pelo contrário, acho que não existe arte na certeza”.

Caco Ciocler ensaia ‘Inter Alia’, novo texto da dramaturga australiana Suzie Miller (Reprodução/Instagram)
A dúvida, afinal, não aparece apenas na maneira como Caco pensa a arte, mas também na forma como exerce seu ofício. Conhecido por construir personagens complexos, ele atribui essa característica menos aos papéis que recebe e mais à maneira como escolhe enxergá-los. “Eu tenho muita dúvida, tenho muita dúvida de tudo. E acho que isso me alimenta, acho que isso tridimensionaliza a mim e aos personagens. Simplesmente não consigo olhar para um personagem e ter certeza absoluta sobre ele. Sempre vejo milhões de contradições”.

“A arte não tem nada a ver com certeza. A arte nasce nas brechas das certezas” (Reprodução/Instagram)
‘Pequenas Criaturas’ e as vidas que deixamos de viver
Em ‘Pequenas Criaturas’, ambientado em Brasília, em 1986, Caco interpreta Carlos, um dos encontros na trajetória de Helena (Carolina Dieckmann), mulher que se vê sozinha com os filhos em uma cidade desconhecida. Para o ator, seu personagem representa aquelas pessoas que nos fazem vislumbrar outros caminhos, mas que, por alguma razão, deixamos passar. “O Carlos representa essas pessoas, esses encontros que a gente teve e não seguiu, não bancou, não apostou, não arriscou, deixou passar. E que ficam na nossa vida como uma possibilidade não vivida. ‘Será que, se eu tivesse vivido aquilo, onde estaria hoje? Será que estaria mais feliz, menos feliz?’. Acho que essa é a função do personagem. Todos nós temos histórias assim, que abrem possibilidades para vidas que a gente não viveu”.

Carolina Dieckmmann, Caco Ciocler, Anne Pinheiro Guimarães, Vania Catani, Théo Medon e Lorenzo Mello (Foto: Divulgação)
Um masculino que “precisa morrer”
Poucos dias após o lançamento de ‘Pequenas Criaturas’, Caco volta aos palcos com ‘Inter Alia’. Na montagem protagonizada por Drica Moraes, ele interpreta o marido da personagem central. “O que me encantou nesse projeto foram várias coisas. Poder estar ao lado da Drica, que é uma atriz que sempre admirei. Estar ao lado dela no teatro, que é sempre mais potente. Me interessava muito acompanhar seu processo de criação. Sou realmente muito fã”.
Além da parceria com Drica e do encontro com Portella, Caco destaca a força do texto e a oportunidade de discutir em cena modelos de masculinidade que considera ultrapassados. “Fiquei muito apaixonado pelo texto. É muito potente. E tem a possibilidade de fazer uma figura masculina desconstruída”. E conclui:
Esse masculino está morrendo, já morreu, precisa morrer. É um contraponto muito bonito para essa discussão que a peça traz – Caco Ciocler

Drica Moraes e Caco Ciocler estreiam ‘Inter Alia’ nos palcos brasileiros (Foto: Divulgação)
A carreira segue abrindo novos territórios. No segundo semestre, Caco estará em ‘Overman’, adaptação da obra de Laerte. “Fiz um super-herói torto brasileiro”, diverte-se. E apesar a longa e frutífera trajetória, existe um gênero no qual o ator gostaria de se aventurar: “Talvez falte uma ficção científica, uma coisa no espaço, extraterrestres. Esse universo eu não fiz ainda e adoraria fazer”. Ele também aguarda a estreia de ‘Resta Um’, de Fernando Ceylão, além de novos projetos atrás das câmeras. “Têm três filmes que dirigi e devem chegar juntos ao streaming. Vai ser legal porque eles conversam entre si. E planejo dirigir outro longa e uma peça com Gero Camilo“.
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