*por Vitor Antunes
O avanço da informalidade no mercado de trabalho brasileiro já não causa mais surpresa, mas continua a exigir reflexão. O fenômeno da “uberização” — termo que sintetiza a perda de vínculos formais e a precarização das relações laborais — atravessa profissões, classes sociais e, agora, também a ficção televisiva. Em Vale Tudo, remake da novela clássica de Gilberto Braga, a personagem Marieta (Cacá Ottoni) exemplifica essa instabilidade crescente: começou a trama como uma das secretárias da agência de conteúdo mais influente do país, mas se vê, de repente, sem lugar, sem função. A solução foi recorrer ao bar do Vasco (Thiago Martins), onde pede emprego como recepcionista.
Entre a crítica social e a sensibilidade afetiva, a nova versão de Vale Tudo também se abre para discussões contemporâneas ainda pouco exploradas na teledramaturgia — entre elas, a assexualidade. Tal como Poliana, vivido por Matheus Nachtergaele, Marieta é uma personagem assexual. A abordagem é inédita dentro da trama original e exige, segundo Cacá, delicadeza e aprofundamento. “Dentro da sigla LGBTQIA+, a letra A — da assexualidade — era que eu menos tinha informações a respeito. E acredito que grande parte da população também. Dentro de uma sociedade tão hipersexualizada, é comum que gere estranhamento, até porque é um tema pouco abordado. A Marieta e o Poliana são ‘assexuais românticos’, eles se relacionam afetivamente, mas sem atração sexual. A parceria não passa pela prática sexual. A assexualidade nos anos 80 chegou a ser vista como uma possível depressão. A partir de então, começaram a entender sob uma perspectiva de orientação sexual mesmo, de maneira de existir. E eu acho muito importante falar sobre isso. Acho que a novela tem esse papel, de levantar questões para o grande público”.
“Estamos vivendo a uberização do mercado de trabalho. Todo mundo sem nenhum vínculo empregatício. Eu mesma vivo uma montanha-russa na minha vida que talvez pudesse ser vista como algo que não fosse crível. Mesmo estando numa novela das 9, tô dando aula, fazendo oficina, editando vídeos, andando de ônibus, de metrô. Há uma ideia dentro do imaginário da população que não condiz com a realidade. Profissionais autônomos vivem essa instabilidade cada vez mais, inclusive por conta desses vínculos cada vez mais terceirizados de trabalho. Todo mundo precisa pagar conta, todo mundo precisa comer, pagar aluguel e gerir a própria vida. Mas essa ainda é uma realidade do ator no Brasil – Cacá Ottoni
Esse desequilíbrio entre prestígio simbólico e insegurança material é, inclusive, um dos temas que Cacá Ottoni pretende levar aos palcos. “Eu tô com uma peça no Teatro Ziembinski, que estreia dia 2 de setembro, chamada Antena. Texto e direção do Ian Calvet, que fala da precarização do trabalho. Eu acho que levantar esse debate é importantíssimo, porque de fato a gente vive uma situação alarmante em relação ao desemprego no Brasil, não só agora, mas é uma situação recorrente. O trabalho cada vez mais precarizado. Então, quantas pessoas eu não vejo trabalhando com carro de aplicativo que são advogados, médicos formados… Escolheram uma profissão inicial e que estão ali lutando pela sobrevivência”.

Cacá Ottoni observa um processo de Uberização acontecendo atualmente (Foto: Sérgio Baia)
Eu acho que ainda tem uma dimensão muito política nessa discussão, porque a nossa sociedade hipersexualizada, ela é determinada pela heteronormatividade. E esse termo heteronormatividade se relaciona justamente com essa norma que é a heterossexual. Tudo que não está dentro da família de comercial de margarina escandaliza. É como se a regra fosse a heterossexualidade – Cacá Ottoni
ASSEXUALIDADE
O relacionamento entre Poliana (Matheus Nachtergaele) e Marieta (Cacá Ottoni) em Vale Tudo carrega um valor simbólico que transcende a trama romântica. A união dos dois personagens permite à novela explorar um tema raramente abordado na televisão aberta — a assexualidade —, e ainda introduz um recorte geracional que amplia a discussão. A abordagem, que tangencia debates iniciados timidamente em Travessia (2022), agora ganha corpo e complexidade.
“O Poliana e a Marieta também têm uma coisa interessante nesse encontro, que é uma questão geracional. Enquanto o Poliana passou a vida inteira — já na idade adulta — para descobrir que existia esse termo, que existia esse grupo de pessoas para se compreender, a Marieta descobriu no início da adolescência. O autoconhecimento, que é visto como privilégio, deveria ser uma condição, um direito nosso. Ele é transformador, porque é muito diferente a experiência de vida de uma pessoa que cedo consegue se compreender no mundo e entender que ela faz parte. Porque todas as nossas experiências são coletivas. Eu acredito nisso. É muito difícil você ter, de fato, uma experiência que seja exclusivamente sua. E como é mais fácil para uma pessoa que tem essa percepção jovem, que tem acesso ao autoconhecimento desde cedo — como é mais fácil para ela existir do que para alguém que viveu esse desconforto, essa angústia de não se compreender, de se sentir equivocado a vida inteira”, afirma.

Assexualidade: “Angústia de não se compreender, de se sentir equivocado a vida inteira” (Foto: Sergio Baia)
O depoimento da atriz revela não apenas a densidade emocional de sua personagem, mas também a urgência de discutir temas que ainda provocam silêncios ou distorções. A assexualidade, por exemplo, segue sendo alvo de incompreensão mesmo em espaços que deveriam acolher com ética e respeito:
É muito interessante ouvir os relatos das pessoas assexuais constrangidas ao ir ao ginecologista pelo julgamento diante das perguntas: ‘Ah, a primeira relação sexual?’ ou ‘Constância sexual?’. Não que essas perguntas não tenham que existir — elas precisam existir —, mas o julgamento médico é algo muito grave – Cacá Ottoni
ENTRE AS VILÃS E A NECESSIDADE DE NOMEAR
Maria de Fátima (Bella Campos) e Odete (Débora Bloch) têm monopolizado a atenção do público em Vale Tudo. Mas o que explica esse fascínio persistente pelas vilãs? Para Cacá Ottoni, que interpreta Marieta, a resposta é direta: “Eu acho que as vilãs são sempre fascinantes. As vilãs são fascinantes. Sempre fascinaram mais do que as mocinhas. Acho que ao longo da história da dramaturgia, as vilãs marcam mais. Posso estar errada, é uma opinião muito pessoal. Eu sempre fui fascinada pelas vilãs. E não acho que isso seja uma apologia ao mal ou à vilania. Eu acho que é desse jogo, o de quebrar as regras, de alguém que tenha uma postura histórica, tudo que a gente busca e acredita numa perspectiva evolutiva. As vilãs também trazem outras camadas, para que você as entenda, para que elas não sejam simplesmente pessoas más gratuitamente. Por outro lado, ainda tem o outro lado da moeda, que é a Raquel — também uma personagem extremamente carismática, com grande aceitação do público, e que gera identificação, que é a Taís Araújo”, diz, deixando no ar a admiração pela colega de elenco.
A atriz também aponta um problema estrutural na televisão aberta: a ausência de programação voltada ao público infantil e adolescente, que no passado ajudava a formar espectadores fiéis. “Como é que você forma um espectador sem ter uma programação voltada para infância e para adolescência. Eu fui formada como espectadora da TV Globo, entendendo aquela linguagem e acompanhando a trajetória daqueles atores. E aí eu tô vendo agora minha filha ter acesso a isso com a novela”.

Cacá Ottoni sobre a falta de programação infantil na Tv: “Como é que você forma um espectador sem ter uma programação voltada para infância e para adolescência?” (Foto: Sérgio Baía)
Em paralelo à novela, Cacá e o ator e roteirista João Miller têm feito sucesso no Instagram com vídeos que satirizam a atual tendência de “nomear” tudo — muitas vezes com expressões em inglês —, mesmo quando o fenômeno é simples ou até casual. “Claro que existe a importância do nome, para que as coisas existam, mas existe um excesso de dar nome às coisas e esse excesso de expressões em inglês também, porque todas essas expressões atuais são em inglês. E aí a gente começou a brincar com isso: de walk block, quando alguém está bloqueando a sua passagem, até o ‘trocando de biquíni sem pararing’, que são pessoas que reescrevem músicas”.
Antes da notoriedade na TV, Cacá Ottoni viveu uma experiência que moldou não apenas a artista, mas também a pessoa que é hoje: o trabalho como palhaça no projeto Enfermaria do Riso, em hospitais públicos. “O palhaço é a única coisa que o paciente pode negar. Ele não pode negar tratamento, cuidado, remédios, banhos, mas o palhaço, sim. Isso me ensinou muito. O fato de chegar com ele e ouvir: ‘Não’, e me retirar como palhaça, já era algo que potencializava a escolha dele. O direito de escolha ali, naquele ambiente hostil e difícil que é um hospital público. A gente trabalhava em hospitais públicos, no Hospital da Lagoa e no Gafrée e Guinle. Trabalhei como palhaça até os oito meses de gestação. Quando eu ia grávida para o hospital, a minha coordenadora falava: ‘Cacá, acho que agora, se você quiser parar, já pode’. Eu respondia: ‘Não quero, não quero’. Eu tive ainda uma hérnia umbilical, meu umbigo ficou totalmente para fora, aí eu pintava de vermelho, colocava o nariz de palhaço no meu rosto e outro na barriga, e às vezes levantava a blusa para mostrar meu ‘outro nariz’, que era da minha filha”.
O vínculo com a palhaçaria continua presente em sua vida. “Eu tenho uma sobrinha que fez um ano no ano passado, e a minha irmã me chamou para fazer um número de palhaço no aniversário. Eu fiz junto com a Malu, minha filha, Malu de palhaço também. Foi um dos projetos mais importantes da minha vida. Eu morro de vontade de voltar para a palhaçaria”.

Cacá Ottoni trabalhou como palhaça em hospitais antes do trabalho em TV (Foto: Sérgio Baía)
O Brasil vive um tempo em que o trabalho se tornou um território instável, onde o chão parece sempre prestes a ceder. A “uberização” atravessa ruas, escritórios e telas de televisão, transformando profissões em estações de passagem e carreiras em trajetos improvisados. Em Vale Tudo, Marieta — antes secretária de uma agência poderosa — descobre-se, de súbito, sem cadeira, sem mesa, sem função. A novela não inventa o drama, apenas o reflete: o mesmo desequilíbrio que Cacá Ottoni, sua intérprete, enfrenta fora de cena, dividindo-se entre a exposição da TV e o anonimato das contas a pagar. Há um descompasso entre o brilho e o bolso, entre o reconhecimento e o recibo, que revela como até o prestígio pode ser um contrato de prazo incerto. É um retrato de um país onde cada vez mais gente vive do improviso, mas improvisa para sobreviver, não para criar.
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