Bruno Fagundes dá start à peça e filme na Alemanha com temática LGBT e não teme ser rotulado: “Não faria diferente”


Bruno Fagundes construiu sua trajetória artística com coragem, coerência e propósito. Após assumir publicamente sua sexualidade, passou a se dedicar mais intensamente a projetos que discutem temas LGBTQIA+, como a peça Selvagem e um curta que será gravado na Alemanha. Ele valoriza a liberdade de ser quem é e acredita no poder transformador da arte como ferramenta política. Filho de Antonio Fagundes e Mara Carvalho, buscou reconhecimento pelo próprio mérito, recusando atalhos. Aos 36 anos, reflete sobre representar narrativas silenciadas: “Prefiro isso a me silenciar ou ser silenciado por medo. Tenho muito interesse em desenvolver essas narrativas e, cada vez mais, tentar ampliá-las. Afinal, estou falando apenas de um recorte — homens gays da minha faixa etária. Mas há muitos outros recortes, de todas as letras da sigla, que também merecem espaço e visibilidade”

*por Vítor Antunes

O mundo se encarregou por diversas vezes de questioná-lo – por ser bonito, por ser filho de atores famosos (Mara Carvalho e Antônio Fagundes) – e no entanto ele está aí, dando a cara a tapa e fazendo sua arte e seus projetos, com toda a força e urgência que lhe é permitida. Bruno Fagundes acabou de sair de seu trabalho mais recente na televisão, a novela “Volta por Cima“, e se prepara para lançar mais dos desafios: gravar um curta-metragem na Alemanha e, também lá, montar uma peça. Ambas guiadas pela diretriz de abordar e discutir a pauta LGBT. E Bruno tem se dedicado a isso, com ainda mais afinco depois de seu outing, em 2023. “É fundamental que não deixemos de falar sobre essas questões – e que falemos cada vez mais –, especialmente em tempos tão hostis e violentos, como os que estamos vivendo. Parece que damos um passo à frente e dois para trás. Gosto de lembrar que nossos direitos não estão escritos em pedra; precisamos lutar por eles continuamente. E compreendo que essa luta faz parte da minha função como artista. É exatamente levantar essas discussões e, às vezes, de forma artística, poética, ficcional, tocar em assuntos espinhosos para que possamos, de alguma forma, mudar a realidade ao nosso redor, nem que seja minimamente, nem que seja para nossa pequena bolha. Acredito nisso. Acho que essa é a razão pela qual faço o que faço”.

De uns tempos para cá, comecei a entender o quanto determinadas experiências da minha adolescência e pré-adolescência abriram caminho para que pessoas mais jovens hoje consigam lidar com a sexualidade de forma talvez não mais fácil, mas certamente mais livre. Ou, ao menos, de maneira mais elaborada, com um vocabulário mais acessível e comum. Fui pré-adolescente nos anos 1990 e fomos fortemente impactados por campanhas como “Aids Mata”, transmitidas no intervalo do horário nobre da televisão e especialmente voltadas à comunidade LGBT. Cresci com medos que hoje, felizmente, já foram em grande parte superados ou ressignificados – Bruno Fagundes

Bruno Fagundes debate a questão LGBT: “Cresci com medos que hoje, felizmente, já foram em grande parte superados ou ressignificados” (foto: @umbarja)

Não é incomum que digam que há um excesso de personagens gays na TV, ou um lastro grande de militância em favor da agenda woke – que se põe a discutir assuntos afirmativos. Para Bruno é importante que se fale sobre isso: “Ninguém jamais se questiona sobre falar demais de histórias heteronormativas. Nunca se ouve alguém perguntando se está abordando demais histórias de pessoas heterossexuais. Nosso mercado ainda é muito homofóbico”.

Tenho estado na linha de frente e falado abertamente sobre minha vida pessoal — e não faria diferente. Não sei qual o ônus disso, mas estou disposto a pagar para ver. Prefiro desenvolver meu trabalho de acordo com a minha verdade, com quem sou, com aquilo em que acredito, e tentar transformar a realidade a partir disso. Essa é a minha motivação. Prefiro isso a me silenciar ou ser silenciado por medo. Tenho muito interesse em desenvolver essas narrativas e, cada vez mais, tentar ampliá-las. Afinal, estou falando apenas de um recorte — homens gays da minha faixa etária. Mas há muitos outros recortes, de todas as letras da sigla, que também merecem espaço e visibilidade – Bruno Fagundes

Nascido em 1989, Bruno viu de perto todos os estigmas que cercavam a comunidade LGBT e toda a culpa que lhes era incutida. “Crescer como gay na década de 1990 foi um processo tortuoso. Enfrentamos muitas violências naturalizadas, que nem percebíamos como tais, mas que limitaram nossa potência em vários sentidos. E falo de um lugar de privilégio, do qual tenho plena consciência. Os novos anos 2020 trouxeram o privilégio de ser jovem em uma realidade completamente distinta. Vejo isso também no meu namorado, que tem cerca de seis anos a menos que eu. Quando eu tinha 15 anos, já começava a descobrir e investigar minha sexualidade, saía, frequentava espaços — algo muito comum em São Paulo naquela época. Já ele, com nove anos, ainda era uma criança. Hoje, temos vidas muito próximas em termos de autonomia e independência, mas é curioso como mesmo uma diferença pequena de idade pode causar grandes distinções na experiência”.

Esta, inclusive, é uma das primeiras vezes às quais Bruno fala de seu namorado, o arquiteto Thales Lucchesi. O namoro foi assumido no início do ano, e trata-se da primeira vez que o ator não namora um colega de profissão. “Ele não é do meio artístico. É arquiteto. É muito bom estar com alguém que não é do meio. É outro universo, outras possibilidades, outro ritmo. Relacionar-se com alguém do meio artístico não é algo ruim, mas é inevitável que a profissão acabe se tornando um terceiro personagem dentro da relação”.

Para o ator, falar livrementre sobre o assunto, ter vivido um gay numa novela de TV e reportar o debate em outras plataformas diz respeito a um reencontro com a própria liberdade. “Acredito que, na verdade, seja quase uma coincidência que neste momento da minha vida, em que estou falando abertamente sobre minha sexualidade, eu tenha feito tantos trabalhos sobre isso. Mesmo que um dia eu decidisse — por qualquer razão que desconheço — não falar mais sobre minha sexualidade, ainda assim continuaria fazendo esses trabalhos. Não me interesso necessariamente por temas; me interesso por bons trabalhos. “Volta por Cima“, por exemplo, teve uma importância enorme. A existência de um beijo gay na televisão brasileira ainda hoje é algo significativo, especialmente diante dos retrocessos que vivenciamos. Há muitas histórias LGBT ainda não contadas. Isso faz parte de um silenciamento histórico. Durante muitos anos, fomos silenciados. Por isso, nada mais justo — e esperado — que agora, com um pouco mais de visibilidade e condições de desenvolver meus próprios projetos, eu me comprometa com essas histórias”.

Bruno Fagundes e Felipe Haiut tocam dois projetos na Europa (Foto: Acervo Pessoal)

UM HOMEM EM MOVIMENTO

O ano de 2025 revela-se bem movimentado para Bruno Fagundes, ele antecipa com exclusividade que estará numa montagem teatral, além de alguns projetos internacionais já anunciados. Além da montagem de uma peça, no Brasil, o ator poderá ser visto em dois trabalhos que serão produzidos na Alemanha. “Estou envolvido com a peça “Selvagem”, com o Felipe Haiut; a montagem será realizada em Berlim, o que é bastante empolgante. Ele viajará antes, para dar início à produção da peça e, depois, nos encontraremos lá para filmar o curta, que também aborda questões LGBTQIA+. Já o curta, chamado “Autor Desconhecido (unknown author)“, trata do trauma. A narrativa acompanha um diretor brasileiro, imigrante na Alemanha, que tenta elaborar a dor de uma experiência violenta vivida no passado por meio da linguagem do cinema. Ele realiza um filme dentro do filme, onde escala um ator para interpretá-lo. A partir daí, inicia uma busca por seu agressor, numa jornada poética, alucinatória e catártica, na tentativa de reconstruir o passado e ressignificar a dor”.

Bruno Fagundes vive um ano movimentado em 2025, com muitas produções (Foto: @umbarja)

Tanto a montagem de “Selvagem” como a gravação do curta, na Alemanha, estão sendo feitas de forma independente. “Estamos fazendo tudo por nossa conta. É mais uma oportunidade de divulgar o nosso trabalho. Aqui em São Paulo também fizemos a temporada de forma totalmente independente, sem patrocínio ou qualquer tipo de apoio. Acreditamos no poder comunicativo de “Selvagem”. Tivemos sessões esgotadas durante toda a temporada em São Paulo e, agora, buscamos um novo espaço para uma possível nova temporada, após o retorno de Berlim. A peça dialoga com o espaço em que será encenada – que é também um bar com apresentações teatrais. Nada mais característico de Berlim do que isso. A linguagem da peça se alinha bem a esse tipo de ambiente: trata-se de um texto confessional, despretensioso, poético e bonito. Acreditamos que faz todo sentido, embora tudo esteja sendo feito na base do esforço próprio”.

Em paralelo a isto há o pré-projeto de outra montagem que envolve apenas dois atores e exige poucos recursos. “Pretendo estruturá-la de maneira prática e econômica, para que possa circular com facilidade. Meu objetivo é que, até outubro, eu esteja em cartaz com uma peça e com a outra já pronta para estrear logo em seguida. Se tudo correr bem — e com a ajuda dos deuses do teatro —, talvez seja possível manter uma em cartaz durante a semana e a outra nos fins de semana”.

TEMPO DE RECORDAR – E DE CRESCER

Não faz muito tempo, Bruno completou 36 anos e revela: “Quando fiz 35, nada mudou. Foi como se ainda tivesse o vigor dos 30. Mas ao completar 36, comecei a me ver mais próximo dos 40 do que dos 30, e isso gera várias sensações. Sei que pode parecer exagero, porque ainda sou jovem, mas é inevitável pensar na finitude da vida. Se eu tiver sorte de viver até os 90, já vivi um terço da minha vida. Essa consciência me acompanha. Foi uma virada desafiadora, mentalmente falando. Inevitavelmente, comecei a pensar em tudo que construí até agora e me senti um pouco envelhecido”.

Atualmente está sendo exibida no “Vale a Pena ver de Novo” a reprise de “A Viagem”, novela de 1994, que conta com Antonio Fagundes e Mara Carvalho, pais de Bruno, no elenco. Ele próprio, inclsuive, chegou a fazer uma participação na trama. “Fiz uma figuração em “A Viagem”, com duas falas, mas não me lembro com clareza — era muito novo. Ainda assim, é especial. Ver a trajetória dos meus pais, essa paixão que nos conecta, é algo bonito. Sempre acompanhei de perto, mas hoje, com mais maturidade e já como ator, compreendo as escolhas deles nos projetos. Quando era mais jovem, via tudo à distância, como se fosse só trabalho. Agora entendo o que há por trás de cada cena. É realmente uma viagem no tempo — ver minha mãe tão jovem, talvez com a idade que tenho hoje”.

Bruno Fagundes e sua mãe Mara Carvalho. Companheiros (Foto: Acervo Pessoal)

Ele observa com carinho a trajetória dos pais, todos com mais de 30 anos de carreira. “É comovente ver uma vida inteira dedicada a essa profissão tão difícil. Ela estreou recentemente um solo que escreveu, sem patrocínio, fazendo tudo com a mesma paixão de antes. A Mara de lá é a mesma de hoje. Isso me emociona, porque também é como vejo a minha trajetória. Meus pais têm uma carreira linda”.

O verdadeiro privilégio não foi ter portas abertas, mas crescer vendo grandes trabalhos de perto. Evitei facilidades: queria ser reconhecido pelo que sei fazer. O olhar que formei ao lado de artistas tão incríveis é o que mais valorizo – Bruno Fagundes

Recentemente, Mara sofreu um atropelamento, que a feriu, mas sem gravidade. “Ela está em observação, mas recuperada. Sempre foi muito forte — triatleta, campeã internacional. Uma mulher doce, atenta, dedicada. Sou apaixonado por ela. Somos muito próximos. Sou filho único, e apesar dos irmãos por parte de pai, é uma convivência diferente. Eu e ela temos uma relação única. Nos falamos todos os dias”. Do pai, Bruno destaca ter herdado a disciplina, especialmente no que diz respeito à pontualidade nas montagens. “Ele tem algo que faço questão de manter: a pontualidade no teatro. Meu pai educou o público por 50 anos — se atrasar, não entra. Esse é um legado que sigo. Tento sempre começar no horário”.

Bruno Fagundes é um homem em travessia — entre tempos, afetos, geografias e causas. Carrega no corpo as marcas de quem cresceu sob os holofotes, mas fez da sombra o lugar do estudo, da escuta e do gesto firme. Ao seu redor, o mundo tantas vezes quis etiquetá-lo, como se sua arte fosse herança e não escolha. Mas ele escolhe, todos os dias. Escolhe falar, mesmo quando seria mais fácil calar. Escolhe fazer, mesmo sem apoio, sem aplauso garantido. Escolhe amar, mesmo sabendo que o amor ainda é interditado para muitos. Escolhe estar no palco, no set, na rua — inteiro, presente, vulnerável e forte.

Há um traço raro em sua trajetória: o da coerência com a própria verdade. A mesma que o fez recusar facilidades, abraçar incertezas e entender que viver da arte é, também, enfrentá-la. Bruno tem dado passos largos. E quando a dúvida aparece — como aparece para todos — ele tem um mantra que o guia, simples e profundo como toda verdade que resiste ao tempo: “Na dúvida, não duvide.” Porque a dúvida, às vezes, já é a resposta. Porque decidir é também um gesto de fé. Porque escolher, mesmo sem saber tudo, é afirmar a vida com todas as suas imperfeições. E ele escolheu. Escolheu ser. Escolheu seguir. Escolheu transformar. E é por isso que hoje, onde quer que esteja — no palco, na tela, ou diante do espelho —, Bruno não apenas atua. Ele ilumina.