Benedito Ruy Barbosa trocou a Globo duas vezes e escreveu clássicos premiados que marcaram outras emissoras


Benedito Ruy Barbosa, que morreu terça-feira, em São Paulo, aos 94 anos, vítima de complicações da insuficiência renal crônica, transformou suas vivências no campo e no jornalismo esportivo em novelas que retrataram o Brasil profundo. Autor de duas saídas marcantes da Globo, brilhou na Bandeirantes com “Os Imigrantes” — maior sucesso da dramaturgia da emissora — antes de retornar para escrever “Paraíso”. Seu projeto “Amor Pantaneiro”, rejeitado pela Globo por dificuldades de produção, tornou-se “Pantanal”, na TV Manchete, fenômeno de audiência, vencedor dos principais prêmios da televisão em 1990 e marco da dramaturgia nacional. Defensor de novelas que abordassem identidade, imigração, fé, tradição e questões sociais, Benedito sintetizou sua visão em uma frase célebre ao Jornal do Brasil, em 1980: “Uma novela tem que transmitir algo além de casinhos de amor entrelaçados.” Sua obra permanece como um dos retratos mais consistentes da formação e da diversidade do Brasil

*por Vítor Antunes

Na manhã de terça-feira, Benedito Ruy Barbosa morreu, em São Paulo, em decorrência de complicações provocadas por insuficiência renal crônica (IRC). Diferentemente de muitos dramaturgos de sua geração, Benedito escrevia, quase sempre, sobre aquilo que conhecia intimamente. Antes de se dedicar integralmente à dramaturgia, trabalhou na lavoura e chegou a vender café no Paraná. O universo do campo, das plantações, das disputas por terra, das famílias de colonos e dos ciclos da imigração tornou-se sua assinatura autoral, alcançando o ápice em produções como “Terra Nostra”. Sua relação com a Globo, entretanto, foi marcada por duas saídas que entraram para a história da televisão brasileira. A primeira aconteceu em 1979, durante a exibição de “Cabocla”. Em meio à crise enfrentada por “Os Gigantes”, novela das oito escrita por seu amigo Lauro César Muniz, a emissora procurou Benedito com um pedido inédito: assumir a redação do capítulo final da trama depois que Lauro havia sido afastado em razão da repercussão negativa da novela. Em um gesto de lealdade raríssimo na televisão, Benedito recusou o convite. Em solidariedade ao amigo, preferiu entregar sua própria carta de demissão. Os dois seguiram para a Bandeirantes. Ali, os destinos acabaram tomando rumos diferentes. Enquanto Lauro desenvolveu novos projetos, Benedito escreveu “Os Imigrantes”, obra que se transformou no maior sucesso da história da emissora. O desempenho extraordinário da novela foi determinante para que a Globo o convidasse a retornar pouco tempo depois.

A segunda ruptura viria anos mais tarde. Benedito desejava produzir uma novela ambientada no Pantanal, então concebida com o título “Amor Pantaneiro”. Sem encontrar espaço na Globo para desenvolver o projeto na principal faixa de dramaturgia, decidiu levá-lo para outra emissora. A TV Manchete abraçou a ideia e, em 1990, estreou “Pantanal”. O resultado tornou-se um dos capítulos mais emblemáticos da história da televisão brasileira: a novela transformou-se em um fenômeno nacional, desafiou a hegemonia da Globo e demonstrou que grandes sucessos também poderiam nascer fora da líder de audiência.

Sérgio Reis e Andréa Richa em “Pantanal” (1990) [Foto: Divulgação/TV Manchete]

Com sua partida, a teledramaturgia brasileira perde um de seus maiores cronistas do Brasil profundo, um autor que transformou a experiência de vida em matéria-prima para algumas das novelas mais importantes da televisão.  Poucos se lembram, porém, de que Benedito também teve uma sólida passagem pelo jornalismo esportivo. O ambiente das redações e a cobertura do esporte inspiraram “Pé de Vento”, produzida pela Bandeirantes, revelando uma faceta menos conhecida de um autor frequentemente associado apenas às narrativas rurais. Outro amor que atravessou sua trajetória foi o Pantanal.

Fascinado pela região e por sua cultura, Benedito transformou essa paixão na novela “Pantanal”, escrita originalmente para a extinta TV Manchete. A obra revolucionou a dramaturgia nacional ao provar que era possível conquistar o público fora da Globo em uma escala até então inédita. Até hoje, permanece como o maior fenômeno de audiência produzido por outra emissora, um feito que só encontraria paralelo décadas mais tarde, em 2015, quando a Record voltaria a disputar o protagonismo na faixa de novelas.

Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Benedito consolidou uma dramaturgia profundamente conectada ao Brasil real. Seus personagens carregavam o sotaque, a cultura, a religiosidade e os conflitos de regiões muitas vezes pouco representadas na televisão. Mais do que histórias de amor, suas novelas discutiam identidade, imigração, reforma agrária, tradição, família, fé e pertencimento — temas que fizeram de sua obra um retrato singular da formação do país.

Uma novela tem que transmitir algo além de casinhos de amor entrelaçados.” — Benedito Ruy Barbosa, ao Jornal do Brasil, em 02/01/1980

Elenco de “Pé de Vento” (Foto: Reprodução/Band)

SAÍDA DA GLOBO PARA A BAND 

Ao contrário da versão que passou a circular anos depois, a primeira saída de Benedito Ruy Barbosa da Globo não aconteceu em razão de desentendimentos ou gestos de ruptura. Em entrevista concedida ao Jornal do Brasil, publicada em 2 de janeiro de 1980, o autor foi categórico ao definir a mudança como “meramente profissional” e explicou que “a oferta da Bandeirantes foi melhor”. Naquele momento, a emissora do Morumbi investia pesado para disputar espaço com Globo e Tupi na produção de dramaturgia. Benedito tornou-se uma das principais contratações desse projeto e estreou na nova casa com Pé de Vento, protagonizada por Nuno Leal Maia. A novela marcava uma incursão por um universo bastante diferente daquele que mais tarde consagraria seu nome, abordando o jornalismo esportivo — área que o próprio autor conhecia de perto por sua experiência como repórter.

Nem mesmo antes da estreia a produção escapou das críticas. A jornalista Maria Helena Dutra, do Jornal do Brasil, ironizou o título inicialmente escolhido pela emissora, “Pé de Vento – A Corrida da Vida”, afirmando que ele “podia atemorizar telespectadores acostumados com calmarias”. A observação, enigmática até hoje, parecia sugerir uma ruptura com o perfil tradicional das novelas exibidas naquele horário. Depois da estreia, a crítica manteve o tom severo. Maria Helena classificou a narrativa como “indecisa entre a crônica e o melodrama”. Ainda assim, ponderou que a produção era superior à contemporânea “Chega Mais”, exibida pela Globo na faixa das sete.

Herson Capri em “Os Imigrantes”. Exitosa na Band, a novela perdeu seu autor principal (Foto: Reprodução/Rede Vida)

Embora tenha passado discretamente pela programação, “Pé de Vento” serviu para consolidar a confiança da Bandeirantes em Benedito. Pouco tempo depois, a emissora apostaria alto em um projeto muito mais ambicioso: “Os Imigrantes”. Exibida diariamente às 18h30, a novela possuía escala, acabamento técnico e produção dignos das tradicionais novelas das oito. Foi também a primeira grande obra de Benedito dedicada ao universo da imigração italiana, tema que anos depois voltaria com ainda mais força em “Terra Nostra”. A saga reconstruía a formação de famílias de imigrantes no Brasil e reafirmava uma característica que acompanharia toda a carreira do autor: transformar processos históricos em grandes narrativas populares.

A produção também marcou a estreia de Norma Bengell nas telenovelas. A atriz chegava ao elenco logo após deixar “Dancin’ Days”, da Globo, quando aquela novela ainda estava em fase de gravações. Antes mesmo da estreia, Maria Helena Dutra escrevia que havia expectativa de que finalmente “a novela tivesse qualidade e audiência”. Depois que a produção chegou ao ar, a avaliação mudou completamente. Tanto ela quanto o Jornal do Brasil passaram a apontar Os Imigrantes como uma das grandes realizações da televisão brasileira naquele período.

Ao final de 1981, a novela foi escolhida pelo Jornal do Brasil como a melhor produção do ano. O reconhecimento também veio nas principais premiações da época. “Os Imigrantes” conquistou o Troféu Imprensa de melhor novela e praticamente monopolizou os prêmios da APCA, vencendo categorias como melhor novela, melhor autor, direção, ator e atriz revelação. Até hoje, permanece como o maior sucesso da história da dramaturgia da Bandeirantes.

Inicialmente prevista para estrear no fim de 1980, na faixa das 19 horas, a produção chegou a ser anunciada com um curioso título provisório: Modelo 19. O Jornal do Brasil noticiava, à época: “A novela Modelo 19, de Benedito Ruy Barbosa, estreia em março (…) terá gravações em Portugal, Espanha e Itália”. O projeto previa figurinos assinados por Gianni Ratto e direção de J. Marreco, , que, pouco tempo depois, dirigiria Paraíso.

Em entrevista ao Jornal dos Sports, publicada em 18 de abril de 1981, Benedito revelou que aquele era um sonho antigo. “Esta é uma ideia acalentada há seis anos, desde que a primeira sinopse foi escrita, e se tornou exequível neste momento na Rede Bandeirantes (…) e se casa com a ideia da direção em realizar novelas que exaltem a realidade brasileira.”

O sucesso, entretanto, teve um preço. Depois de escrever e conduzir mais de 200 capítulos de uma produção extremamente complexa, Benedito chegou ao limite físico. Em 1982, já exausto pela rotina intensa de trabalho, decidiu abandonar a novela antes de seu encerramento para aceitar o convite de retorno à Globo, onde iniciaria a escrita de Paraíso. A partir do capítulo 313, a autoria passou para Renata Pallottini (1931–2021) e Wilson Aguiar Filho (1951–1991), responsáveis por concluir a saga. A troca, contudo, teve reflexos imediatos na audiência. Sem a condução de Benedito, os índices caíram significativamente, chegando a perder cerca de metade do público registrado no auge da produção.

A situação guarda semelhanças com o que aconteceria duas décadas depois, durante Esperança (2002), quando Benedito também deixou uma novela em andamento, substituído por Walcyr Carrasco. A diferença é que, naquele caso, a mudança provocou uma recuperação da audiência, enquanto em Os Imigrantes a saída do autor coincidiu justamente com o início da perda de fôlego da produção, que caiu de 10 para 5 pontos, segundo o JB.

O êxito da novela era tão expressivo que, em agosto de 1981, a Bandeirantes chegou a exibir simultaneamente duas obras escritas por Benedito. A emissora também já planejava ampliar sua parceria com o dramaturgo. Estavam em desenvolvimento os projetos Até que a Vida nos Separe e Uma Canção para Você — esta última, posteriormente, chegou a ser cogitada para a faixa das 19 horas da Globo. Os planos, porém, jamais sairiam do papel. Recontratado pela Globo, Benedito optou por regressar à emissora onde escreveria Paraíso.

Elenco de “Os Imigrantes”: Altair Lima, Othon Bastos e Rubens de Falco (Foto: Divulgação/Band)

PANTANAL NO RUSSELL

Muito antes de conquistar o Brasil pela TV Manchete, “Pantanal “quase foi uma novela da Globo. O embrião da obra surgiu ainda em meados da década de 1980, quando Benedito Ruy Barbosa desenvolvia um projeto chamado Amor Pantaneiro. A história chegou a ser cogitada pela emissora como substituta de Livre para Voar, exibida entre 1984 e 1985. Naquele período, Benedito vivia um dos momentos mais prestigiados de sua carreira na Globo. Em 1986, escreveu Sinhá Moça e, no mesmo ano, seu nome chegou a ser cogitado para assumir a tradicional faixa das oito. O posto, porém, acabou ficando com Lauro César Muniz, autor de Roda de Fogo. Poucos anos depois, Benedito encerraria sua passagem pela emissora com Vida Nova, exibida até maio de 1989.

Em novembro daquele mesmo ano, o dramaturgo já estava instalado na sede da TV Manchete, na Rua do Russel, no Rio de Janeiro, preparando aquela que se transformaria no maior sucesso da história da emissora: Pantanal. A novela estreou em março de 1990 e rapidamente se tornou um fenômeno de audiência e repercussão, rompendo uma hegemonia da Globo que parecia inabalável. Também foi a produção mais premiada da televisão brasileira naquele ano.

Pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), Pantanal venceu nas categorias de melhor novela, melhor direção para Jayme Monjardim, melhor ator para Cláudio Marzo, melhor atriz para Jussara Freire e ator revelação para Ângelo Antônio. Já no Troféu Imprensa, conquistou os prêmios de melhor novela, melhor ator, melhor atriz e ainda rendeu a Cristiana Oliveira o título de “Pessoa do Ano”.

Pantanal revelou Cristiana Oliveira (Foto: Reprodução/Manchete)

A história de como Pantanal chegou à Manchete foi reconstruída pelo pesquisador e crítico de televisão Nilson Xavier. Em seu relato, ele lembra que Benedito chegou a percorrer o Pantanal ao lado dos diretores Herval Rossano e Atílio Riccó para produzir um amplo levantamento fotográfico que serviria de base ao projeto da Globo. O resultado, porém, ficou muito distante do esperado. A viagem aconteceu durante o período de chuvas e as quase mil fotografias registravam, basicamente, água e vegetação alagada. Sem conseguir captar a exuberância da fauna e da flora que Benedito pretendia mostrar na televisão, o projeto acabou sendo arquivado.

A Globo ainda tentou encontrar alternativas. Entre as propostas apresentadas ao autor estavam transformar a história em uma minissérie ou transferir a narrativa para uma fazenda no interior do Rio de Janeiro ou de São Paulo, reduzindo significativamente os custos de produção. Benedito recusou todas as possibilidades. “Mas bati o pé porque queria o Pantanal”, recordou o autor.

As dificuldades de produção também provocaram um episódio que se tornou lendário nos bastidores da televisão brasileira. Durante a viagem de reconhecimento das locações, Benedito e Herval Rossano discutiram dentro do jatinho fretado pela Globo. Segundo relatos reproduzidos no livro Biografia da Televisão Brasileira, o clima ficou tão tenso que a aeronave chegou a perder estabilidade durante o voo. Anos depois, Benedito relembrou o episódio sem esconder a intensidade do desentendimento. “Eu queria encher ele de porrada!”, declarou o autor. Por pouco, a discussão não terminou em tragédia.

Paulo Gorgulho e Cristiana Oliveira em “Pantanal” (Foto: Reprodução)

Com o projeto definitivamente abandonado pela Globo, surgiu a oportunidade que mudaria a história da teledramaturgia brasileira. Coube a Jayme Monjardim, então diretor artístico da TV Manchete, convencer Benedito a levar sua novela para a emissora. “Para convencer o Benedito, eu disse: ‘Produzo a sua novela no Pantanal, exibo no horário nobre e você vem para a Manchete'”, recordou o diretor.Foi também na Manchete que surgiu a decisão de simplificar o título da obra. Amor Pantaneiro deu lugar a um nome muito mais direto e poderoso: Pantanal.

A produção estabeleceu sua base de operações na fazenda do cantor Sérgio Reis, amigo pessoal de Benedito. Já a principal locação da novela passou a ser uma casa construída pelo Marechal Cândido Rondon, que serviu de cenário para diversos momentos marcantes da trama. A infraestrutura, entretanto, estava longe do conforto normalmente oferecido às grandes produções da Globo. Segundo Jayme Monjardim, a equipe precisou improvisar durante boa parte das gravações. “Eram dez atores dormindo num mesmo quarto, porque não havia estrutura para dar conforto a uma imensa equipe”, relembrou o diretor no livro Biografia da Televisão Brasileira. Das limitações nasceu justamente a força da novela. Gravada em locações reais e explorando a paisagem pantaneira como protagonista, Pantanal redefiniu os padrões estéticos da teledramaturgia brasileira e transformou um projeto recusado pela Globo em um dos maiores fenômenos da história da televisão nacional.