*por Luísa Giraldo
“Para subir na vida, meu amor, vale tudo”, afirmou a interesseira Mária de Fátima, em uma frase que sacramentou o perfil da personagem vivida por Bella Campos no remake de “Vale Tudo”. A escalação da atriz enfrentou críticas antes mesmo da estreia da novela por motivos que variam da “falta de experiência” à “oscilação na atuação”. Nos primeiros episódios, muitos telespectadores pediram a substituição de Bella por artistas como Giullia Buscacio ou Valentina Herszage, que também fizeram testes para o papel. No entanto, o momento atual da narrativa, com os desdobramentos do envolvimento de Maria de Fátima com o milionário Afonso Roitman (Humberto Carrão), foi esperado desde o anúncio do remake… e não faltam elogios às cenas do casamento. Agora, o público está validando a performance da atriz e o tom dado à personagem.
No mês passado, um grupo de discussão encomendado pela TV Globo revelou que, surpreendentemente, Fátima emergiu como a personagem favorita do público. Essa pesquisa com telespectadores confirmou que, apesar da natureza detestável, a vilã é percebida como a mais divertida da trama, além de gerar engajamento nas redes sociais e comentários positivos em vídeos compartilhados pela emissora. A constatação é particularmente celebrada pela equipe de produção, observou a Folha de São Paulo, sobretudo após a enxurrada de críticas à escalação de Bella Campos.
“Tou fechada com Maria de Fátima”, escreveu uma internauta ao conferir a cena da personagem no corredor da igreja. “Meu traço tóxico é fazer da Maria de Fátima a minha it girl”, ironiza outra. “Como pode uma desgraçada ser tão diva?”, perguntou uma última, elogiando a escolha do vestido de noiva.

A personagem Maria de Fátima, vivida por Bella Campos, faz sucesso nas redes (Reprodução/TV Globo)
Embora tenha passado por um momento delicado no início da novela, Bella optou por uma abordagem discreta. A atriz descreveu, em entrevista à Veja, como encarava as objeções dos telespectadores à escalação. “Lido com naturalidade e respeito, embora quase não tenha tido tempo para tomar pé dos comentários negativos”, apontou. E acrescentou: “Tenho me dedicado incansavelmente para dar vida a uma Maria de Fátima autêntica e conectada com o nosso tempo. É o único jeito que conheço para conquistar o público. Estou acostumada a quebrar resistências com a força do meu trabalho desde os primeiros passos da minha carreira, sigo focada em fazer isso de novo”.
De um extremo a outro, o sucesso de Maria de Fátima permeia campos variados de discussão na sociedade. No programa “Roda Viva”, da TV Cultura, o CEO do Instituto de Pesquisa Quaest, Felipe Nunes, comparou o interesse público pela anistia dos envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro à popularidade da vilã de “Vale Tudo”. “As pessoas estão mais preocupadas com a Maria de Fátima do que com o tema da anistia”, avaliou o cientista político.
A cada novo capítulo, os comentários na web não deixam dúvidas: o sucesso só cresce. “Meu traço tóxico é estar do lado da Fátima e querer que ela se dê bem na novela”, compartilhou uma internauta. “Meu sonho é ela se dar bem”, concordou outra. Com o mesmo posicionamento, uma última criticou que “Raquel (Taís Araújo) quer viver no mundinho de pobre, com pena de todos”.

A personagem Maria de Fátima, vivida por Bella Campos, faz bastante sucesso entre o público (Reprodução/TV Globo)
Essa torcida permite observar a seguinte questão: se é moda admirar a Maria de Fátima, é sinal que estamos normalizando o mau-caratismo, a vilania e o egoísmo? Atitudes como vender a casa da mãe e deixá-la sem teto, abandonar a família, roubar, fingir ser outra pessoa e assim por diante estão, cada vez mais, sendo vistas com normalidade. Essas “opiniões” podem revelar incontáveis valores e camadas da sociedade brasileira contemporânea.
Vale lembrar que, na versão original de “Vale Tudo”, exibida em 1988, a relação do público com Maria de Fátima (Glória Pires) era dividida. Os telespectadores tinham uma relação mista com Maria de Fátima, uma personagem calculista e sem escrúpulos. Embora sua ambição e manipulação a tornassem uma personagem odiável, muitos também a admiravam por sua sagacidade e determinação em ascender socialmente.
Mais de três décadas depois da versão original, a recepção à vilania de Maria de Fátima parece ainda mais calorosa — e menos crítica. Se antes havia uma divisão entre admiração e repulsa, agora predomina um encantamento quase absoluto. Em outras palavras, a personagem virou ícone de estilo, atitude e ambição, fenômeno que alimenta uma cultura de identificação com figuras que burlam regras e driblam obstáculos a qualquer custo. Essa virada de percepção não acontece por acaso: em um país em que mobilidade social segue sendo privilégio de poucos, figuras como Fátima passam a concentrar fantasias de poder, liberdade e reconhecimento. A simpatia por sua trajetória pode não ser exatamente uma aceitação consciente da vilania, mas certamente revela muito sobre os desejos, frustrações e contradições do público brasileiro.
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