*Por Brunna Condini
Depois de 25 edições, o Big Brother Brasil chega a um ponto crítico de sua própria história. A última temporada registrou a pior audiência desde a estreia do formato no país, reacendendo a pergunta: o formato do BBB se esgotou? Para responder, a Globo decidiu mudar o jogo, literalmente, e entregar ao público mais decisões, como a escolha de participantes. No entanto, dar mais poder ao espectador é um gesto de inteligência editorial ou uma forma de diluir responsabilidades diante de uma possível nova frustração?
O BBB 26 estreia na próxima segunda-feira (12) e, além da tradicional divisão entre Pipocas e Camarotes, apresenta um novo grupo: o dos Veteranos, formado por ex-participantes do reality. Os nomes dos integrantes dos grupos Camarote e Veteranos só serão anunciados no dia da estreia. A aposta no suspense até o primeiro episódio sinaliza uma tentativa de reposicionar o impacto inicial do programa, usando a curiosidade e o evento ao vivo como motores de atenção.
Já o grupo Pipoca, historicamente responsável por grandes viradas narrativas do reality, entra em cena antes, e desta vez, será totalmente escolhido pelo público. Nesta sexta-feira (9), ao longo da programação da Globo, começam a ser apresentados os 20 candidatos que disputarão uma vaga na casa por meio das Casas de Vidro, espalhadas pelas cinco regiões do Brasil. Os anúncios acontecem em entradas ao vivo diretamente dos Estúdios Globo, com condução de Tadeu Schmidt e apoio de repórteres locais, uma operação que combina televisão tradicional, mobilização regional e engajamento digital.
Os candidatos permanecem confinados nas ‘Casas‘ até domingo (11), quando o público assume oficialmente o papel de curador do elenco. Por meio de votação no Gshow, serão escolhidos um homem e uma mulher de cada Casa de Vidro, garantindo suas vagas no BBB 26. A dinâmica reforça a nova lógica do programa: antes mesmo de assistir, o espectador é convidado a decidir, e de certa forma, a se comprometer com a narrativa que ajudou a construir. Resta saber se essa estratégia vai engajar e renovar o interesse ou aprofundar a sensação de desgaste, fazendo o público perceber um reality ainda inseguro sobre a própria proposta. Qual a sua aposta?
O público no comando
Com o anúncio de que a edição 26 do BBB permitirá que o público participe antes mesmo da formação do elenco, a Globo tenta justamente resgatar esse sentido de pertencimento que foi apagado com a perda de relevância do formato tradicional.
Essa estratégia levanta perguntas importantes:
- Dar poder ao público é sinônimo de engajamento real ou de fugacidade narrativa?
- O público quer escolher ou quer ser surpreendido?
- O que transforma um reality em um fenômeno cultural: a votação ou a história humana de quem está confinado?
Mais do que números, essas perguntas apontam para uma reflexão mais profunda sobre o que o público brasileiro busca quando senta para assistir um programa de confinamento hoje, e onde, afinal, esse interesse coletivo pode ser melhor alimentado.

Após 25 edições, o Big Brother Brasil se reinventa ao dividir decisões com o público e reacender o interesse por um formato que já foi fenômeno absoluto da TV brasileira (Divulgação/Globo)
Realities ainda têm público, mas o jeito de assistir mudou
A perda de fôlego dos realities não se restringe ao Big Brother Brasil, que em sua última edição ficou com a média de audiência na Grande São Paulo em cerca de 16 pontos, a menor de toda a história da atração, segundo dados divulgados. Isso alimenta uma reflexão inevitável: o público realmente está ‘cansado’ dos formatos de confinamento, ou o esgotamento está ligado a formas repetitivas de contar as mesmas histórias nos realities do tipo?
O que está em curso é uma transformação mais ampla: o modelo clássico de reality show, pensado para a TV aberta e para a fidelidade diária do espectador, já não dialoga da mesma forma com um público acostumado a consumir conteúdo de maneira fragmentada, móvel e sob demanda. O confinamento, as provas e os rituais semanais seguem reconhecíveis, mas deixaram de ser novidade. Hoje, para capturar atenção, o formato precisa oferecer algo além da repetição, seja na mecânica do jogo, seja em sua narrativa.

Renata Saldanha, a vencedora do BBB25, sem grandes surpresas em sua narrativa (Divulgação/Globo)
Ao mesmo tempo, os realities seguem profundamente presentes no imaginário coletivo. A maioria dos brasileiros continua acompanhando esse tipo de atração, ainda que nem sempre pela TV tradicional. Trechos, debates, memes, ‘cancelamentos’ e torcidas migraram para as redes sociais e plataformas digitais, onde o consumo é mais rápido, opinativo e participativo. O resultado é um fenômeno curioso: menos gente assiste do começo ao fim, mas quase todo mundo sabe o que está acontecendo. É assunto nas rodas.
Esse deslocamento ajuda a explicar por que o BBB, mesmo em queda de audiência, continua sendo referência. Ele já não se sustenta apenas como produto televisivo, mas como narrativa social contínua, capaz de atravessar telas, gerar conversa e refletir comportamentos. O desgaste, portanto, não está exatamente no gênero, mas na dificuldade de atualizar sua linguagem diante de um público em constante, e veloz, transformação. É nesse cenário de transição, em que o reality não desaparece, mas se reconfigura, que o BBB tenta se reinventar. É nesse espaço, aliás, que outros programas começam a ocupar lacunas deixadas pelo formato tradicional: realities que apostam em conflitos mais diretos, elencos já conhecidos ou dinâmicas menos previsíveis passam a dialogar com um público que ainda quer assistir, desde que consiga se ver e se surpreender.

O BBB26 estreia em 12 de janeiro investindo em renovação após os índices da última edição (Divulgação/Globo)
A Fazenda 17: um rival que não cansa, ao menos por enquanto
Enquanto o BBB 25 enfrentava dificuldades para sustentar seus índices, a recente A Fazenda 17, da Record, apresentou um desempenho mais sólido dentro do atual cenário na TV aberta. Sua última edição fechou com 6,2 pontos de média na Grande São Paulo, o melhor resultado do programa desde 2022, quando marcou 7,2 pontos. Na faixa das 22h30, horário de exibição do reality, a Record praticamente dobrou a audiência, saindo de 3,1 pontos em agosto para um crescimento de 96,7%.
Na grande final, o programa chegou a liderar o ibope em alguns momentos, com média de até 8,1 pontos e picos acima de 9, superando concorrentes diretos no horário nobre. Os números indicam que o público não abandonou o gênero, mas tem respondido melhor a formatos, elencos e dinâmicas que parecem mais alinhados às expectativas atuais. No reality em questão, uma mistura de energia caótica, muitos conflitos (até mesmo os ‘encenados’) e alguma imprevisibilidade na jornada dos personagens.
Com o bom resultado, A Fazenda já está confirmada na grade da Record este ano, novamente sob o comando de Adriane Galisteu. A emissora ainda aposta em novos realities de confinamento, como A Casa do Patrão, liderado por Boninho, previsto para abril; e uma nova edição do Power Couple Brasil, apresentada por Rafa Brites e Felipe Andreoli.

Adriane Galisteu continua reinando à frente de A Fazenda, que tem nova edição confirmada em 2026 (Divulgação/Record)
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