“Bailarina da coxa grossa”, lambada e pernada na cara de atriz. Claudia Raia relembra Rainha da Sucata


A Globo vai reprisar ‘Rainha da Sucata’, no “Vale a Pena Ver de Novo”, devolvendo à TV uma das novelas mais emblemáticas dos anos 1990. Claudia Raia revisita Adriana Ross, a “bailarina da coxa grossa”, com quem compartilha o mesmo impulso criativo e teatral. A atriz relembra cenas icônicas, como a pernada em Marília Pêra (1943-2015) e o embate com Glória Menezes, que interpretava a mãe abusiva da personagem. Símbolo do encontro entre o popular e o sofisticado, a trama de Silvio de Abreu redefiniu o humor na teledramaturgia. Trinta e cinco anos depois, sua lambada ainda dança no centro da cultura brasileira

A televisão brasileira vai ensaiar um retorno curioso aos anos 1990 – e vai fazê-lo dançando lambada. A reprise de “Rainha da Sucata”, anunciada para o “Vale a Pena Ver de Novo, em novembro, devolve ao horário vespertino uma das novelas mais simbólicas do início daquela década. Junto com ela, volta também uma personagem que se tornou ícone de uma época: Adriana Ross, “a bailarina da coxa grossa”, vivida por Claudia Raia. “A Adriana era uma bailarina, uma mulher intensa, cheia de brilho e de sonhos, e ao mesmo tempo um pouco atrapalhada. Agora, 35 anos depois, ver essa história voltar no “Vale a Pena Ver de Novo”, em novembro de 2025, é muito especial. O mundo mudou, a sociedade evoluiu, e o lugar da mulher também. Hoje estamos mais independentes, mais conscientes da nossa força”, diz a atriz. Claudia contou, em entrevista ao Jornal do Brasil, que havia engordado para o papel. O público, porém, reagiu mal: “diziam que eu estava gorda”, recordou. Raia acabou pressionada a emagrecer, o que levou Silvio de Abreu a adaptar o roteiro para acompanhar a transformação física da personagem.

Exibida originalmente em 1990, “Rainha da Sucata” foi a primeira novela de Silvio de Abreu no horário das oito. A trama enfrentou tropeços de linguagem e de tom: era uma comédia social vibrante, escalada para um espaço tradicionalmente dominado pelo drama. O público, acostumado a lágrimas e tragédias domésticas, demorou a decifrar o humor ácido e o ritmo satírico da narrativa. Aos poucos, porém, o folhetim encontrou o próprio eixo — e se transformou em um dos maiores êxitos da década, marcando a fusão entre o deboche e o melodrama como traço da teledramaturgia brasileira. Relembre os bastidores aqui.

Claudia Raia em “Rainha da Sucata”. ela engordou 10kg para viver Adriana (Foto: Divulgação)

Claudia revisita agora, com certa ternura, sua personagem e o que havia de si mesma em Adriana Ross. “Adriana Ross tinha essa coisa ‘bigger than life’, essa vontade de transformar tudo em espetáculo, e isso é muito eu. Na época, eu também sonhava com a Broadway, com grandes musicais, e ver isso refletido na personagem foi lindo. Nós duas temos essa mesma energia criativa, esse desejo de fazer arte com o corpo e com a alma. Tinha muito de mim nela, da minha teatralidade, do humor genuíno, da paixão pela dança.”

“Rainha da Sucata” é uma novela que mistura exagero e emoção na medida certa, e que agora vai conquistar uma nova geração de espectadores, porque são muitos personagens maravilhosos, bem construídos”.

A atriz relembra algumas das cenas icônicas da trama — e uma, em particular, ficou marcada como um rito de passagem. Era o primeiro capítulo, e sua personagem, uma bailarina desastrada, acabava acertando uma pernada no rosto de Marília Pêra (1943-2015), que interpretava a si mesma. “Uma cena icônica de gravar foi com a Marília Pêra, que eu dava um battement (um passo do balé, uma pernada, na cara da Marília. Foi muito legal gravar com ela, foi icônico, isso ficou marcado pra mim, na minha vida, e também pra história da novela”. O episódio, meio cômico, meio simbólico, condensava o espírito de Rainha da Sucata: o encontro entre a exuberância da cultura popular e o refinamento das grandes damas da teledramaturgia.

Claudia recorda ainda o convívio com Glória Menezes, que interpretava sua mãe na história – uma relação complexa e antecipadora de discussões que só mais tarde ganhariam nome e debate público. “Uma mãe abusiva. Laurinha Figueiroa tratava essa menina como se fosse lixo. A Glória, porém, era uma força da natureza. Tinha uma generosidade imensa e uma elegância que contagiava todo o elenco. Teve uma cena em que a Adriana se impôs de verdade pela primeira vez, e lembro que saí das gravações chorando — era uma emoção real, um momento de virada tanto pra personagem quanto pra mim”.

Claudia Raia e Antonio Fagundes eram Caio e Adriana (Foto: Divulgação)

Para Claudia, a dinâmica entre mãe e filha resumia o conflito central de Adriana Ross: o desejo de existir através da arte em um ambiente que negava sua expressão. “Ela justamente, riquíssima, por querer ser artista, por querer usar, por querer sonhar — era o sonho da vida dela. A mãe minimizava isso, colocava ela humilhada sempre nessa posição. E ela, coitada, com toda certeza era atrapalhada desse jeito porque não tinha alicerce familiar, não tinha uma mãe ali, não tinha ninguém por ela”. A atriz fala ainda da morte de Laurinha Figueiroa, cena que se tornou uma das mais lembradas da telenovela brasileira — o suicídio da vilã, que se atira do alto de um prédio, sob o olhar atônito da filha. “Ela estava excepcional como vilã. E uma cena que também não posso esquecer era a morte dela, quando ela se joga de cima do prédio e a Adriana também estava presente. Foi um momento muito importante da história”.

Além de Glória Menezes, Claudia revisita outro parceiro de cena que marcou época: Antônio Fagundes, seu par romântico na trama. “Outro ponto importante foi o trabalho do Fagundes — meu par romântico — num dos únicos papéis dele de comédia na TV. Ele é um excepcional comediante.” Segundo a atriz, as gravações tinham algo de festa permanente: “As cenas na (Lambateria) Sucata eram uma festa. Era música, dança, improviso, brilho e uma energia contagiante. A novela tinha essa atmosfera de bastidor teatral, de espetáculo, e isso me alimentava. Era como viver um musical dentro de uma telenovela.”

Trinta e cinco anos depois, o retorno de Rainha da Sucata parece mais do que uma simples operação de memória televisiva. É um reencontro entre atriz e personagem, entre público e tempo, entre o país de 1990 e o de 2025. Em meio às revisões culturais que a televisão contemporânea propõe, a lambada de Adriana Ross continua a ecoar como uma coreografia de resistência — o corpo feminino em movimento, ainda disposto a ocupar o centro do palco.