*por Vítor Antunes
Durante os anos de chumbo da ditadura militar brasileira (1964–1985), a censura não se restringiu a discursos políticos, canções de protesto ou publicações. A dramaturgia televisiva, especialmente as telenovelas — expressão central da cultura popular brasileira —, tornou-se um campo sensível e constantemente vigiado pelo aparato repressivo do Estado. Muito além do entretenimento, as novelas eram vistas como veículos de opinião, capazes de mobilizar a sociedade, influenciar costumes e questionar estruturas. Não por acaso, estiveram sob o olhar atento da censura institucionalizada. Um levantamento inédito realizado pelo Arquivo Nacional lança luz sobre esse processo de repressão cultural meticulosa. Trata-se de um inventário documental que sistematiza milhares de páginas de roteiros analisados, editados e, muitas vezes, mutilados. São registros oficiais que evidenciam os cortes feitos em diálogos, as passagens vetadas em cenas inteiras, as alterações forçadas de conteúdo. O documento também revela os títulos provisórios de algumas novelas. Há de se levar em conta que esses números dizem respeito aos capítulos disponíveis no Arquivo Nacional. Há novelas que não estão com todos os originais arquivados e outras com capítulos dobrados. Razão pela qual, novelas muito censuradas como “Um Sonho a Mais“, por exemplo, não estarem melhor rankeadas.
Esse inventário não apenas revela a extensão da intervenção sobre as novelas brasileiras como também descortina os bastidores da criação dramatúrgica em tempos de repressão. Para os estudiosos e apaixonados pelo gênero, o documento é uma preciosidade, pois traz informações até então pouco conhecidas, como os títulos originais usados antes da exibição pública das obras. Ao conhecer esses nomes alternativos, o leitor pode vislumbrar o percurso completo de uma telenovela — da sala dos roteiristas até os lares dos brasileiros.

Georgia Gomide. A icônica atriz do teatro e TV era um dos destaques de “Vereda Tropical” (Foto: CEDOC/TV Globo)
O grau de interferência estatal variava de acordo com o conteúdo temático, o perfil dos personagens e os contextos abordados. Questões como sexualidade, militância política, crítica social e figuras femininas empoderadas costumavam acionar os alarmes da censura. Prova disso são dois casos emblemáticos identificados no levantamento: no capítulo 129 de “Vereda Tropical”, 15 trechos foram censurados; já o capítulo 77 de “Transas e Caretas” contabilizou 11 cortes. A minúcia da tesoura dos censores nesses episódios demonstra que, mesmo nos momentos finais da ditadura, o controle sobre o conteúdo das novelas seguia intenso e detalhista. Nem mesmo novelas educativas, como “A Conquista“, da TVE Brasil, de 1978, foram poupadas, bem como tramas importadas, como “Amor Cigano“, trama argentina exibida pelo SBT em 1983. “Jogo do Amor” (1985), do SBT, também passou pela tesoura.
A vigilância aos roteiros, no entanto, ultrapassou os limites cronológicos do regime. Mesmo após o fim formal da ditadura, em 1985, a censura às telenovelas seguiu atuante até a promulgação da Constituição de 1988, quando a liberdade de expressão foi finalmente garantida em caráter amplo. Nos bastidores da teledramaturgia, isso significava que cada capítulo precisava ser submetido previamente aos órgãos censores, com o texto impresso acompanhado do tape gravado, para avaliação e eventual aprovação.
A seguir, veja quais novelas foram mais afetadas pela censura durante o recorte de 1978 a 1985, seja pelo número total de páginas cortadas, seja pela quantidade de capítulos com interferência — e ainda, quais obras chegaram à análise censória com títulos provisórios, uma estratégia que hoje ajuda a reconstituir os bastidores da TV brasileira sob vigilância.

Alcides (Quinzinho), foi o robô de “Transas e Caretas”. (Foto: reprodução/TV Globo)
Novelas Mais Censuradas (Total de Páginas Cortadas)
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Transas e Caretas – 198 páginas
Trama futurista com humor ácido, escrita por Lauro César Muniz e exibida em 1984. Um olhar sarcástico sobre a sociedade brasileira do futuro — algo que os censores talvez preferissem não imaginar. -
Vereda Tropical – 170 páginas
Criada por Carlos Lombardi, a novela trazia uma protagonista “piqueteira” — Silvana, papel de Lucélia Santos — figura vista como provocativa e subversiva sob a ótica da censura. -
Champagne – 165 páginas
Primeira incursão de Cassiano Gabus Mendes no principal horário da TV Globo, a atual faixa das nove. Misturava drama familiar com temas de moralidade duvidosa. - Sol de Verão – 123 páginas
- Partido Alto – 112 páginas
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Amor Cigano – 88 páginas
Única novela estrangeira no ranking. Produção argentina exibida pelo SBT em 1983, alvo de forte intervenção mesmo sendo importada. -
Amor com Amor se Paga – 70 páginas
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Elas por Elas – 65 páginas
- Paraíso – 42 páginas
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Final Feliz – 52 páginas
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Louco Amor – 50 páginas
- Um Sonho a Mais – 31 páginas
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Guerra dos Sexos – 45 páginas
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Água Viva – 42 páginas
- Voltei pra Você – 30 páginas
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Eu Prometo – 28 páginas
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Dancing Days – 26 páginas
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O Homem Proibido – 24 páginas
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Os Imigrantes – 21 páginas
- Eu Prometo – 20 páginas
- Sétimo sentido – 14 páginas
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Corpo a Corpo – 12 páginas
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Jogo da Vida – 6 páginas
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Força do Amor – 6 páginas
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Jogo do Amor – 2 páginas
- Ninho da Serpente – 2 páginas
- Pão Pão Beijo Beijo – 2 páginas
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A Gata Comeu – 0 páginas
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A Conquista – 0 páginas

Sonia Braga e Paulette, no clímax da trama de “Dancin Days”: O retorno triunfal de Julia Mattos (Foto: Divulgação/TV Globo)
Novelas com Mais Capítulos Censurados
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Transas e Caretas – 60 capítulos
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Vereda Tropical – 55 capítulos
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Champagne – 50 capítulos
- Sol de Verão – 45 capítulos
- Partido Alto – 41 capítulos
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Amor com Amor se Paga – 30 capítulos
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Elas por Elas – 28 capítulos
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Louco Amor – 25 capítulos
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Final Feliz – 22 capítulos
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Guerra dos Sexos – 20 capítulos
- Paraíso – 20 capítulos
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Água Viva – 12 capítulos
- Sétimo Sentido – 9 capítulos
- Um Sonho a Mais – 10 capítulos
- Voltei pra Você – 14 capítulos
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Amor Cigano – 9 capítulos
- Pão Pão beijo Beijo – 2 capítulos
- Ninho da serpente – 1 capítulo

Luiz Gustavo foi “Mário Fofoca” em “Elas por Elas” (1982) [Foto: Divulgação/Globo)
Novelas e seus nomes provisórios
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Água Viva (Vento Norte)
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Amor com Amor se Paga (O Avarento)
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Champagne (Bar dos Solitários)
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A Conquista (A Conquista do Tempo Perdido)
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Eu Prometo (O Homem Perfeito)
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Final Feliz (Teu Nome é Mulher)
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Louco Amor (Sangue Leve)
- Sol de Verão (História de Um Verão)
- Sétimo Sentido (A Sensitiva)
- Partido Alto (Vidas Marcadas)
- Pão Pão Beijo Beijo (O Condomínio)

Fernando Eiras, Jorge Fernando e Ticiana Studart em cena de “Água Viva”. Novela quase se chamou “Vento Norte” (Foto: Acervo/Globo)
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