Arquivo Nacional conclui levantamento inédito de telenovelas que tiveram capítulos censurados na Ditadura Militar


Durante a ditadura militar (1964–1985), a censura atingiu em cheio as telenovelas brasileiras, que, mesmo após o fim do regime, seguiram sendo vigiadas até a Constituição de 1988. Um inventário do Arquivo Nacional revela cortes em roteiros, trechos vetados e, curiosidade, os títulos provisórios que antecederam os definitivos. Produções como “Transas e Caretas” e “Vereda Tropical” tiveram dezenas de capítulos modificados, sendo as mais atingidas em número de páginas censuradas. Questões como empoderamento feminino, crítica social e sexualidade incomodavam o regime. Até novelas estrangeiras, como a argentina “Amor Cigano”, sofreram cortes. O levantamento inclui os títulos originais das obras e escancara a repressão nos bastidores da TV. Ao todo, Transas e Caretas teve 198 páginas censuradas em 60 capítulos. Mesmo “A Conquista”, educativa, não sofreu muitos cortes, mas também foi submetida à tesoura.

*por Vítor Antunes

Durante os anos de chumbo da ditadura militar brasileira (1964–1985), a censura não se restringiu a discursos políticos, canções de protesto ou publicações. A dramaturgia televisiva, especialmente as telenovelas — expressão central da cultura popular brasileira —, tornou-se um campo sensível e constantemente vigiado pelo aparato repressivo do Estado. Muito além do entretenimento, as novelas eram vistas como veículos de opinião, capazes de mobilizar a sociedade, influenciar costumes e questionar estruturas. Não por acaso, estiveram sob o olhar atento da censura institucionalizada. Um levantamento inédito realizado pelo Arquivo Nacional lança luz sobre esse processo de repressão cultural meticulosa. Trata-se de um inventário documental que sistematiza milhares de páginas de roteiros analisados, editados e, muitas vezes, mutilados. São registros oficiais que evidenciam os cortes feitos em diálogos, as passagens vetadas em cenas inteiras, as alterações forçadas de conteúdo. O documento também revela os títulos provisórios de algumas novelas. Há de se levar em conta que esses números dizem respeito aos capítulos disponíveis no Arquivo Nacional. Há novelas que não estão com todos os originais arquivados e outras com capítulos dobrados. Razão pela qual, novelas muito censuradas como “Um Sonho a Mais“, por exemplo, não estarem melhor rankeadas.

Esse inventário não apenas revela a extensão da intervenção sobre as novelas brasileiras como também descortina os bastidores da criação dramatúrgica em tempos de repressão. Para os estudiosos e apaixonados pelo gênero, o documento é uma preciosidade, pois traz informações até então pouco conhecidas, como os títulos originais usados antes da exibição pública das obras. Ao conhecer esses nomes alternativos, o leitor pode vislumbrar o percurso completo de uma telenovela — da sala dos roteiristas até os lares dos brasileiros.

Georgia Gomide. A icônica atriz do teatro e TV era um dos destaques de “Vereda Tropical” (Foto: CEDOC/TV Globo)

O grau de interferência estatal variava de acordo com o conteúdo temático, o perfil dos personagens e os contextos abordados. Questões como sexualidade, militância política, crítica social e figuras femininas empoderadas costumavam acionar os alarmes da censura. Prova disso são dois casos emblemáticos identificados no levantamento: no capítulo 129 de “Vereda Tropical”, 15 trechos foram censurados; já o capítulo 77 de “Transas e Caretas” contabilizou 11 cortes. A minúcia da tesoura dos censores nesses episódios demonstra que, mesmo nos momentos finais da ditadura, o controle sobre o conteúdo das novelas seguia intenso e detalhista. Nem mesmo novelas educativas, como “A Conquista“, da TVE Brasil, de 1978, foram poupadas, bem como tramas importadas, como “Amor Cigano“, trama argentina exibida pelo SBT em 1983. “Jogo do Amor” (1985), do SBT, também passou pela tesoura.

A vigilância aos roteiros, no entanto, ultrapassou os limites cronológicos do regime. Mesmo após o fim formal da ditadura, em 1985, a censura às telenovelas seguiu atuante até a promulgação da Constituição de 1988, quando a liberdade de expressão foi finalmente garantida em caráter amplo. Nos bastidores da teledramaturgia, isso significava que cada capítulo precisava ser submetido previamente aos órgãos censores, com o texto impresso acompanhado do tape gravado, para avaliação e eventual aprovação.

A seguir, veja quais novelas foram mais afetadas pela censura durante o recorte de 1978 a 1985, seja pelo número total de páginas cortadas, seja pela quantidade de capítulos com interferência — e ainda, quais obras chegaram à análise censória com títulos provisórios, uma estratégia que hoje ajuda a reconstituir os bastidores da TV brasileira sob vigilância.

Alcides (Quinzinho), foi o robô de “Transas e Caretas”. (Foto: reprodução/TV Globo)

Novelas Mais Censuradas (Total de Páginas Cortadas)

  1. Transas e Caretas – 198 páginas
    Trama futurista com humor ácido, escrita por Lauro César Muniz e exibida em 1984. Um olhar sarcástico sobre a sociedade brasileira do futuro — algo que os censores talvez preferissem não imaginar.

  2. Vereda Tropical – 170 páginas
    Criada por Carlos Lombardi, a novela trazia uma protagonista “piqueteira” — Silvana, papel de Lucélia Santos — figura vista como provocativa e subversiva sob a ótica da censura.

  3. Champagne – 165 páginas
    Primeira incursão de Cassiano Gabus Mendes no principal horário da TV Globo, a atual faixa das nove. Misturava drama familiar com temas de moralidade duvidosa.

  4. Sol de Verão – 123 páginas
  5. Partido Alto – 112 páginas
  6. Amor Cigano – 88 páginas
    Única novela estrangeira no ranking. Produção argentina exibida pelo SBT em 1983, alvo de forte intervenção mesmo sendo importada.

  7. Amor com Amor se Paga – 70 páginas

  8. Elas por Elas – 65 páginas

  9. Paraíso – 42 páginas
  10. Final Feliz – 52 páginas

  11. Louco Amor – 50 páginas

  12. Um Sonho a Mais – 31 páginas
  13. Guerra dos Sexos – 45 páginas

  14. Água Viva – 42 páginas

  15. Voltei pra Você – 30 páginas
  16. Eu Prometo – 28 páginas

  17. Dancing Days – 26 páginas

  18. O Homem Proibido – 24 páginas

  19. Os Imigrantes – 21 páginas

  20. Eu Prometo – 20 páginas
  21. Sétimo sentido – 14 páginas
  22. Corpo a Corpo – 12 páginas

  23. Jogo da Vida – 6 páginas

  24. Força do Amor – 6 páginas

  25. Jogo do Amor – 2 páginas

  26. Ninho da Serpente – 2 páginas
  27. Pão Pão Beijo Beijo – 2 páginas
  28. A Gata Comeu – 0 páginas

  29. A Conquista – 0 páginas

Sonia Braga e Paulette, no clímax da trama de “Dancin Days”: O retorno triunfal de Julia Mattos (Foto: Divulgação/TV Globo)

Novelas com Mais Capítulos Censurados

  1. Transas e Caretas – 60 capítulos

  2. Vereda Tropical – 55 capítulos

  3. Champagne – 50 capítulos

  4. Sol de Verão – 45 capítulos
  5. Partido Alto – 41 capítulos
  6. Amor com Amor se Paga – 30 capítulos

  7. Elas por Elas – 28 capítulos

  8. Louco Amor – 25 capítulos

  9. Final Feliz – 22 capítulos

  10. Guerra dos Sexos – 20 capítulos

  11. Paraíso – 20 capítulos
  12. Água Viva – 12 capítulos

  13. Sétimo Sentido – 9 capítulos
  14. Um Sonho a Mais – 10 capítulos
  15. Voltei pra Você – 14 capítulos
  16. Amor Cigano – 9 capítulos

  17. Pão Pão beijo Beijo – 2 capítulos
  18. Ninho da serpente – 1 capítulo

 

  1. Luiz Gustavo foi “Mário Fofoca” em “Elas por Elas” (1982) [Foto: Divulgação/Globo)

Novelas e seus nomes provisórios

  • Água Viva (Vento Norte)

  • Amor com Amor se Paga (O Avarento)

  • Champagne (Bar dos Solitários)

  • A Conquista (A Conquista do Tempo Perdido)

  • Eu Prometo (O Homem Perfeito)

  • Final Feliz (Teu Nome é Mulher)

  • Louco Amor (Sangue Leve)

  • Sol de Verão (História de Um Verão)
  • Sétimo Sentido (A Sensitiva)
  • Partido Alto (Vidas Marcadas)
  • Pão Pão Beijo Beijo (O Condomínio)

Fernando Eiras, Jorge Fernando e Ticiana Studart em cena de “Água Viva”. Novela quase se chamou “Vento Norte” (Foto: Acervo/Globo)