Apresentadora de programa e atriz de novela: relembre projetos atípicos de Preta Gil na TV


Preta Gil partiu no Dia do Amigo, como quem se despede da vida na mesma data em que celebrou tantos afetos. Foi apresentadora, atriz, cantora, mulher de coragem e de riso solto. Fez novela, fez programa de auditório, fez história. Em tudo, colocou o peito aberto e o coração entregue. Em homenagem à sua trajetória e versatilidade, relembramos aqui três projetos televisivos que fogem ao seu eixo musical, mas que revelam a entrega e a coragem com que ela enfrentava cada desafio

*por Vitor Antunes


Preta Maria Gadelha Gil Moreira
nasceu para se chamar apenas Preta. Esse foi o nome escolhido por Gilberto Gil e Sandra Gadelha. Mas o escrivão do cartório não permitiu – talvez por preconceito, talvez por falta de imaginação. Ainda assim, foi exatamente como o Brasil a conheceu – e amou: Preta, um nome forte, sonoro e carregado de significado. Preta Gil morreu no domingo, 20 de julho, justamente no Dia do Amigo.

Artista de múltiplas linguagens, Preta não se restringiu à música, onde deixou sua marca com autenticidade. Ao longo da vida foi cantora, empresária, ativista, figura pública de coragem – e também atriz e apresentadora. Em homenagem à sua trajetória e versatilidade, relembramos aqui três projetos televisivos que fogem ao seu eixo musical, mas que revelam a entrega e a coragem com que ela enfrentava cada desafio. Aqui, focando em projetos da TV aberta.

Se uma de suas novelas chamava “Caminhos do Coração”, Preta nunca se furtou a doar o seu em tudo o que fazia. Ela era luz – e continuará sendo.

Caixa Preta (2004 – Band)

Poucos se lembram, mas Preta Gil teve seu próprio programa de auditório na televisão aberta. “Caixa Preta” estreou na Band em 31 de julho de 2004, com direção de Marlene Mattos. Exibido nas noites de sábado, o programa reunia entrevistas, atrações musicais e debates com plateia. Tinha o carisma da apresentadora como trunfo.

Contudo, ficou pouco tempo no ar – cerca de três meses e meio. A audiência ficou abaixo do esperado, especialmente por competir com o humorístico Zorra Total, então em alta na Globo. Ainda assim, Caixa Preta representou uma tentativa ousada de Preta ocupar um espaço raro: o da mulher preta apresentadora de programa solo no horário nobre da TV aberta.

Preta Gil no “Caixa Preta”, da Band (Foto: Reprodução/Band))

Agora é que São Elas (2003 – TV Globo)

A estreia de Preta Gil como atriz de novela aconteceu em 2003, na trama “Agora é que São Elas”, da TV Globo. Ela fazia parte do núcleo da família Silveira, interpretando Vanusa, filha da matriarca Dinorá (Joana Fomm). Vanusa era uma jovem ambiciosa, disposta a tudo por dinheiro e status – especialmente se viessem acompanhados de um marido rico.

Foi um dos primeiros contatos de Preta com o set de gravação de novela, e ela mesma admitiu que não estava preparada para a exigência da rotina:

“Era um elenco só de amigos, eu estava começando, eu não tinha muita disciplina. Eu era irresponsável. Eu estava mais a fim de saber quem era o garoto que eu ia pegar do elenco, porque eu era disso – Preta Gil

A novela, escrita por Ricardo Linhares a partir de um argumento de Paulo José, não teve grande sucesso de audiência. Ainda assim, serviu como escola para a artista, que ali começava a aprender sobre o ofício da interpretação – e sobre os bastidores da televisão. Preta também estava na trilha sonora da novela, com “Espelhos d’Água”

Preta Gil, Ildi Silva e Thiago Fragoso em “Agora é Que São Elas” (Foto: Divulgação/Globo)

Saga Mutantes – Caminhos do Coração / Os Mutantes (2007-2008 – Record TV)

Quatro anos depois, Preta voltaria à televisão com um papel muito mais intenso e duradouro: o da personagem Helga Silva da Silveira, nas novelas Caminhos do Coração (2007) e Os Mutantes (2008), da Record TV.

Helga é apresentada como vilã, casada com Eric (Tuca Andrada), um homem manipulador e abusivo que a obriga a cometer crimes. Com o tempo, no entanto, a personagem revela-se mais vítima do que algoz: emocionalmente dependente, cercada de ameaças e dilemas morais. Envolve-se com o irmão de Eric, Ramon (Alexandre Barillari), formando um triângulo amoroso incomum para a dramaturgia da época. Preta lembrou em entrevistas: “Foi o primeiro trisal da teledramaturgia brasileira.”

A personagem passou por uma transformação relevante ao longo da novela. De cúmplice forçada a delatora, Helga termina a saga como testemunha de defesa da mocinha Maria (Bianca Rinaldi), expondo os crimes de Eric. Depois do depoimento, entra no programa de proteção a testemunhas e some da história – mas não da memória dos fãs.

“Era aquela coisa tosca. Eu achava que seria. Eu li a sinopse da novela e eu falei: ‘Não vai dar certo’”, disse Preta no podcast “De Frente com Blogueirinha”, em tom bem-humorado.

A novela, no entanto, virou um sucesso cult e foi vendida para dezenas de países. Preta participou de todos os 240 capítulos da primeira fase, e retornou em Os Mutantes, consolidando-se como uma das figuras mais marcantes do universo fantástico criado por Tiago Santiago.

Preta Gil em “Mutantes”, seu maior sucesso na Tv (Foto: Divulgação/Record)

Preta Gil nunca se deixou limitar por formatos. Viveu a vida com coragem artística, disposição afetiva e senso de humor. Atuou, cantou, apresentou, produziu. Fez de tudo um pouco — e, mais do que isso, fez tudo com alma.

Num país que tantas vezes não sabe reconhecer suas artistas completas, Preta foi exceção e farol. A TV a acolheu como atriz e apresentadora em momentos pontuais, mas sempre inesquecíveis.