*por Luísa Giraldo
A espirituosa Camila surgiu na reta final de “Garota do Momento”, novela das 18h da TV Globo, como interesse romântico de Ronaldo (João Vitor Silva), que ainda suspira pela esposa do irmão, Bia (Maisa Silva). No entanto, o relacionamento não durou muito, um arco que frustrou centenas de telespectadores já desinteressados pela história de Bia e Ronaldo. Quem deu vida à Camila foi a paranaense Caroline Dallarosa, que teve a oportunidade de interpretar um papel pensado por Alessandra Poggi pela segunda vez – a autora também escreveu o folhetim “Além da Ilusão”, no qual Caroline encarnou a jovem Arminda. A personagem conquistou o público por ser extremamente moderna no final dos anos 1950: confiante, feminista, com experiências sexuais e língua afiada para discutir política e filosofia.
A torcida numerosa pelo relacionamento surpreendeu imensamente Caroline. Grande parte dos noveleiros torcia para que Alessandra introduzisse uma personagem que valorizasse o amor de Ronaldo, diferentemente de seu interesse romântico principal. “Sou suspeita porque amo o Ronaldo e a Camila, mas confio na Ale. Sei que ela escreveu tudo com muito amor, e tudo foi muito bem pensado”, disse.
A audiência com casal, que durou pouco, deixou a atriz de 27 anos nas nuvens. “Claro que fiquei feliz com a repercussão. Não esperava todo esse furacão que foi. Acreditava, sim, que as pessoas iam gostar, mas não que chegaria nesse ponto. Fico feliz porque mostra que fizemos um bom trabalho juntos”, celebra.
Caroline se orgulha imensamente de ter dado vida à Camila, que assim como Arminda, apoia o movimento feminista em um contexto ainda marcado pelo machismo na sociedade brasileira. Vale lembrar que as duas novelas se passam no mesmo universo. “Sempre existiram mulheres à frente do seu tempo, desde que o mundo é mundo, e acredito que a Camila tem nisso uma de suas características mais marcantes, o que a torna ainda mais especial. Camila não tem medo, não liga para o que os outros vão dizer. Hoje em dia, temos muitas mulheres assim, graças a Deus, mas, naquela época, ser livre e independente dessa forma era quase um ato de coragem. Poder dizer que criei uma personagem para representar mulheres fortes do passado é incrível”.

Caroline Dallarosa partiu o coração dos telespectadores de “Garota do Momento” ao sair da novela (Divulgação/Camila Cardoso)
A atriz descreve que a personagem tem uma energia espoleta, que “vê a vida com brilho e muitas possibilidades pelo caminho”. Ela identifica inúmeras semelhanças entre as duas. “Levo a minha vida sempre muito feliz, a Camila também. Ela gosta de viver dando valor a cada momento, criando muitos sonhos e objetivos, e encarando as coisas com positividade e alegria, eu também”.
A artista revela, porém, uma grande diferença: a coragem. “A Camila não tem medo. Confesso que sou um pouco diferente (risos), mais medrosa do que ela, mas gosto dessa audácia. Na verdade, olhando por esses pontos, têm muito mais a ver do que imaginava”, observa.
Autoestima e insegurança
Cada vez mais cotada para trabalhos audiovisuais, a atriz Caroline Dallarosa reconhece que nem sempre se sentiu bem o próprio reflexo, sobretudo em relação ao corpo. A insegurança marcou sua vida por anos, sentimento que a levou a desacreditar de suas capacidades.
“Hoje, tento lembrar de me amar até nos dias em que me pego fazendo algum tipo de autossabotagem, mas nem sempre foi assim. Quando adolescente, desejar ter mais curvas. Não estive isenta dessa patrulha e monitoramento do corpo feminino que todas sentimos desde novas. Muitas vezes, pessoas aleatórias acham que podem dizer criticar o seu peso, ou opinar que algo na sua aparência poderia ser diferente”.
O bullying sofrido pela artista era interminável. “Lembro de ser chamada de ‘Olívia Palito’ na escola. Lembro também de falarem das minhas sardas. Lembro de tantas coisas que, hoje, pra mim, não fazem sentido”, dispara.

Caroline Dallarosa desabafa sobre inseguranças e cobranças femininas (Divulgação/Camila Cardoso)
Amo quem sou. Não tiraria uma pinta sequer do meu corpo. Aprendi que, se a gente não se amar, a vida só vai se tornar mais difícil do que já é. Claro que temos dias bons e ruins, mas acredito que, se tentarmos sempre levar tudo com positividade, as coisas fluem e o universo conspira à favor – Caroline Dallarosa
Machismo estrutural
Caroline Dallarosa não tem papas na língua. A atriz avalia que, em comparação com a década de 1950, a realidade das mulheres contemporâneas mudou. No entanto, ela reflete sobre a permanência do machismo estrutural no Brasil.
“Graças a Deus, não temos mais que nos preocupar muito com a micro-vigilância no comportamento e nos pensamentos femininos. Óbvio que os julgamentos para as mulheres seguem existindo e em grau e escala desigual — infelizmente, ainda vivemos em uma sociedade machista —, mas acredito que, a cada dia, evoluímos mais”.
A intérprete critica que “antigamente, a mulher não podia se separar caso tivesse um casamento infeliz; ou tinha que ver com enorme pudor o reconhecimento dos próprios desejos; ou até mesmo na questão do trabalho”. Ela avalia essa realidade como “terrível”.
“Infelizmente, muitas mulheres sofreram no passado por conta do que era imposto, e por terem sido ensinadas a abrir mão [de suas vidas, sonhos e trabalhos] em prol do entorno próximo. Quantas mulheres deixaram de sacudir o status quo, pensando nos reflexos da imagem para a família e como suas escolhas impactariam não apenas a elas, mas a outras pessoas?”, questiona-se.
Segundo Caroline, nem sempre é possível promover mudanças e romper barreiras seguindo um caminho mais confortável ou menos barulhento. “É preciso entender que vale criar um desconforto momentâneo por um bem maior”, atesta.
Com toda certeza, eu seria uma mulher à frente do meu tempo. Não consigo não questionar quando vejo algo que não parece certo ou justo, quando tenho apenas que me enquadrar em determinado lugar – Caroline Dallarosa.
“Quantas pessoas já ouviram, nos dias de hoje, um comentário inoportuno e preferiram fingir achar graça só para não criar um constrangimento? Mal-educado não é quem não compactua com comentários indelicados, mas sim quem faz. Sinto que, às vezes, somos condicionados a aceitar e relevar, quando são os outros que deveriam rever atitudes e conceitos. Por mais paradoxal que pareça, temos que exercer a resiliência, ainda em um mundo intolerante. Porém, em um limite respeitoso e que não perpetue condutas atrasadas, uma coisa não exclui a outra”, explica.
Enquanto desabafa sobre intolerâncias e incongruências que observa à sua volta, ela revela um lado bastante sensível: “Já vivi decepções amorosas. Lembro que sofria muito: era jovem, e tudo era sempre uma dor gigante. Quando me apaixono, já penso em como a vida poderia ser [com a gente] junto eternamente (risos). Acho que é por isso que sou uma grande fã de histórias de amor”.
As emoções são tão fervilhantes que ela se prepara para um marco na carreira: o lançamento de seu livro, “De Coração”, “justamente sobre o amor”, observa Caroline. A atriz promete que a obra estará à venda em até três meses.
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