André Gonçalves revela manias, fala sobre sobre redface, defende realities e relembra a candidatura a deputado


Aos 50 anos, ator revisita sua trajetória marcada por papéis diversos, realities, militância política e uma infância atravessada pela desigualdade. Em cartaz com a peça “Toc Toc”, o ator comenta suas manias, o debate sobre representatividade indígena e sua disposição em interpretar qualquer personagem. Ele relembra colegas perdidos desde “Capitães da Areia” e defende políticas públicas para jovens vulneráveis. A participação em realities, afirma, ampliou sua conexão com o público. Casado há 10 anos com Danielle Winits, valoriza a simplicidade e projeta seguir produzindo, dirigindo e atuando

*por Vítor Antunes

Não faz tanto tempo que algumas palavras ganharam novos significados — especialmente aquelas ligadas a doenças que, pouco a pouco, migraram para o vocabulário cotidiano. Uma delas é o TOC, Transtorno Obsessivo-Compulsivo, que virou sinônimo rápido para manias e hábitos repetitivos. A sigla, que deveria se restringir ao diagnóstico clínico, virou apelido para qualquer comportamento insistente. É exatamente esse universo que move a peça “Toc Toc”, em cartaz no Rio de Janeiro. No elenco está André Gonçalves em uma comédia que se equilibra entre sátira, desconforto e identificação imediata com o público.

 Ao falar sobre o tema, André afirma não sofrer de TOC, mas admite cultivar rotinas um tanto obsessivas. “Antes da sessão de teatro começar, eu tenho de fechar todas as portas. Não importa qual seja. Numa dessas, antes de entrar em cena, prendi o dedo. Depois disso, passei a relevar as portas abertas. Já tive uma atenção maior com limpeza da casa, ou evitar andar sobre os bueiros — que no Rio andaram um tempo explodindo — o que não chega a ser um TOC. Mas eu acredito que o espetáculo faz a gente rir um pouco dessas manias nossas, de como a gente pode chegar no absurdo da paranoia em algo que não vai mudar nada”.

Com uma longa trajetória na TV, no teatro e no cinema, André carrega um tipo físico que, durante anos, o aproximou de personagens ligados aos povos originários. Isso o colocou, inevitavelmente, no centro de um debate que ganhou força recente: o do redface, quando atores não indígenas interpretam personagens de etnias indígenas. Mesmo tendo ascendência, o ator reflete com naturalidade sobre o tema.

“Eu não recusaria um personagem jamais. Vejo meu ambiente de trabalho como um lugar propício para a gente trabalhar aquilo que é diferente. Meu personagem-desejo, por exemplo, é o Sepé Tiaraju, um herói gaúcho e indígena. Então, não vejo nenhuma problematização em relação a dar vida a um indígena. Eu acredito que esse é o lugar mais importante para nós, atores, como sociedade também. Acho justo e digno a defesa dos direitos das pessoas também terem oportunidade, mas é importante salientar que nossa profissão é exclusivamente para colocar aquilo que a gente acha importante de falar. O espaço, o palco, é um lugar de discussão, um lugar que fala, que debate esses assuntos que estão dentro da nossa sociedade. Eu acho que não há personagem que eu não possa fazer”.

Aos 50 anos, André Gonçalves faz um balanço que alterna maturidade e entusiasmo juvenil. Ele parece olhar para a própria história com a mesma intensidade com que se joga nos papéis que interpreta. “A minha vida ativa é uma continuidade absurda. Nesse momento, a gente está fazendo um ano o ‘Toc Toc’. Ano que vem estarei preparando algo bem especial, estreando uma peça nova com a Bruna Griphao e um curta que fui convidado para dirigir, que está em pré-produção. Os meus 50 anos são de uma grande percepção sobre a minha experiência de vida, de todas as que eu já tive. Espero que meus próximos 50 anos sejam tão importantes quanto estes últimos foram para mim como artista”.

Eu nasci em São Cristóvão, morei em Benfica, no Parque Arará, fui morar no Rio Grande do Norte, morei no Nordeste por 6 anos, mnorei no Caju, na Vila do João, depois no no Conjunto Esperança, no Complexo da Maré. Morei na Baixada Fluminense. Sou um cara feliz e vitorioso, e que tem esperança no Brasil e na minha profissão – André Gonçalves

André Gonçalves em “Toc Toc” (Foto: Divulgação)

Ao longo da carreira, André Gonçalves circulou por diferentes linguagens e formatos, incluindo realities — território que muitos artistas ainda tratam como segunda categoria. Ele, no entanto, enxerga o oposto: participar desses programas ampliou sua presença pública e diversificou sua trajetória.

“O participar de reality, para mim, é uma coisa muito importante que eu diga isso, porque eu fiz um monte. ‘Dança no Gelo’, ‘Dança dos Famosos’, ‘Super Chef’, além da ‘Casa dos Artistas’ e da ‘Fazenda’. Fui chamado para o BBB e não fui para o BBB — porque pagavam mal. Mas sei que isso faz parte do entretenimento. Essa é uma chave que me leva ao meu público, que me aproxima do meu público, que me faz ser visto por outras pessoas que talvez eu não tivesse sido visto. Meu público é o público brasileiro. Da ‘Fazenda’ eu tenho quase 1 milhão e meio de seguidores.”

ENTRE OS CAPITÃES DE AREIA – E DO ASFALTO

Poucas vezes André Gonçalves se dispôs a falar publicamente sobre um capítulo específico de sua vida: sua candidatura a deputado pelo Partido Verde (PV) na última eleição. Mesmo sem ter sido eleito, ele avalia que a experiência transformou sua percepção sobre o país e sobre si mesmo.

“Sou filiado ao Partido Verde há muitos anos e me candidatei. Obviamente que foi uma experiência que eu vou te falar que eu adorei, porque eu tenho essa questão dentro de mim. Eu realmente sonhei e aspirei a possibilidade de ter um cargo e tentar mudar, ajudar a sociedade de um modo que pudesse ser feito dentro de um cargo público. Obviamente que hoje eu não tenho tempo para isso, mas eu adoraria”. A naturalidade com que ele fala sobre o processo contrasta com a polarização que tomou conta do ambiente político nos últimos anos. Para André, a política é antes de tudo um gesto de pertencimento — e de tentativa.

A estreia de André na televisão aconteceu em 1989, na minissérie “Capitães da Areia”, da TV Bandeirantes, baseada na obra de Jorge Amado (1912–2001). A produção retratava a vida de meninos em situação de rua em Salvador. Muitos dos jovens atores que dividiram cena com ele, porém, não tiveram o mesmo destino profissional — alguns não seguiram na atuação, outros sequer sobreviveram à batalha cotidiana fora das telas.

“Desde o primeiro dia que eu fiz o meu primeiro trabalho como ator, na Bandeirantes, tive colegas amigos meus — era uma obra de Jorge Amado, com 17 atores meninos — fui vendo os meus colegas morrendo pelo caminho. Os colegas de trabalho que perdi, que as famílias perderam, e também os meninos que eu conheço e que conheci lá atrás, que também ficaram pelo caminho. Isso, para mim, é uma tragédia, uma tragédia daquelas mais horrorosas que você pode imaginar. Isso fica marcado nas famílias que passaram por isso”.

André Gonçalves: “ter perdido amigos foi uma tragédia” (Foto: Renato Santt)

Ele aponta para um país que, segundo ele, ainda falha em oferecer políticas públicas básicas que poderiam ter mudado o destino de tantos jovens. “O que falta mesmo é política pública para essas pessoas terem acesso a uma oportunidade. A oportunidade vai fazer com que a gente mude uma geração. Num país como o nosso, de terceiro mundo, é preciso uma reavaliação profunda sobre o sistema de entendimento do que a gente vive. Pelo menos há 40 anos a gente vive as mesmas coisas, as mesmas violências. A gente não pode normalizar a estatística, a gente não pode normalizar a violência. É preciso uma política pública dentro das comunidades, dentro das favelas, uma modificação de paradigma. A violência é muito inerente a nós. Então, a gente precisa modificar isso, mudar o pensamento dos políticos em relação a isso”. O relato tem o peso de quem viu a desigualdade por dentro, não de longe.

No meio de tantas camadas — ator, artista popular, candidato a vereador, sobrevivente de um Brasil desigual — André reserva à paternidade um espaço quase sagrado. É nesse território que sua fala ganha suavidade, cuidado e uma espécie de maturidade afetiva. “Em primeiro lugar, eu amo ser pai. Eu amo esse lugar que eu me coloquei. Eu quis há muitos anos ser, desde muito jovem, eu queria ser pai. Quem teve filhos comigo sabe que eu queria ser pai muito jovem, por isso eu acabei tendo meus três filhos, dos quais sou completamente apaixonado, amo e fico pensando que, de alguma forma, a complexidade se dá na existência individual de cada um. Eu me sinto hoje uma pessoa extremamente amadurecida no sentido materno, fraterno, amorosamente”.

Eu sai de casa muito jovem, já trabalhava com sete. , era camelô aos 12. Vendi água no sinal, fiz de tudo. Então, a gente prepara os filhos para o mundo. a complexidade de sert pai advem da matéria humana, na nossa na nossa possibilidade de existir. Seja pai, mãe, filho, acredito que a complexidade a complexidade que nós temos hoje como cidadãos do mundo, como como vivente, né, de um coletivo é o grande barato dessa vida – André Gonçalves

André Gonçalves: “Ser pai sempre foi meu sonho” (Foto: Renato Santt)

Casado há dez anos com Danielle Winits, André Gonçalves aprendeu, ao longo do relacionamento, a navegar entre dois mundos que muitas vezes se chocam: o da exposição inevitável e o da privacidade necessária. O casal, ambos figuras conhecidas desde muito jovens, ajustou seus próprios ritmos para manter certa normalidade em meio ao tumulto natural da vida pública. “Eu aprendi muito cedo a lidar de alguma forma com a vida pública que nós temos. Então, eu levo numa boa a exposição que nós temos. É óbvio que eu gosto de colocar uma coisa pessoal, um mimo com as pessoas que me seguem, com as pessoas que eu sigo. Eu gosto de ver também detalhes do dia a dia da vida dos outros. O caminho que eu busquei foi sempre a simplicidade, dentro desse universo que a gente vive. Então eu acho que a simplicidade é um lugar que permeia o meu caminho, não só nas minhas relações humanas, não só na minha relação amorosa, não só no meu casamento de 10 anos, mas na minha vida também.”

A fala aponta para um posicionamento de sobrevivência emocional num ambiente onde a linha entre o privado e o público costuma ser tênue. A simplicidade, para ele, não é apenas um traço, mas uma espécie de método — a forma como organiza o mundo ao redor. “Eu acho que o ambiente particular da vida é quase como um templo sagrado. Então, eu ligo muito tempo nesse tempo de simplicidade. Eu quero ser o melhor produtor do Brasil em 10 anos, então eu tô focado nisso. Quero dedicar os meus próximos 50 anos fazendo exatamente o que eu tô fazendo: produzindo, dirigindo, atuando e mais o que eu puder”.

O retrato que se forma de André Gonçalves é o de um artista que atravessou décadas sem perder o movimento – nem o do corpo, nem o do pensamento. Ele fala de trabalho, de política, de paternidade e de amor com a mesma nitidez com que revisita os lugares onde cresceu, como quem aponta no mapa as cidades que o moldaram. Entre minisséries, palcos, realities e projetos futuros, ele segue operando no país real, onde sobrevivência e criação caminham lado a lado. Aos 50, não projeta um personagem ideal, mas uma obra contínua: a de um homem que aprendeu a fazer da própria história um território de ação, não de memória. E que insiste, com o pragmatismo de quem veio de longe, que ainda há muito a construir – no palco, no ofício e no Brasil que ele continua acreditando ser possível.