Ana Beatriz Nogueira está no teatro, segue contratada da Globo e diz como impactou ter saído de novela


A atriz construiu uma carreira marcada por personagens intensas e complexas, consolidando-se como uma das mais respeitadas da TV e do teatro. Em cartaz com ‘A Procura de uma Dignidade’, baseada em conto de Clarice Lispector, ela assina também a produção do espetáculo, financiado por conta própria. Diagnosticada com esclerose múltipla há 16 anos, a atriz adapta sua rotina sem abrir mão do trabalho, como ocorreu ao deixar a novela ‘Mania de Você’ por questões de saúde.

*por Vítor Antunes

Atriz que, recorrentemente, é escolhida para dar vida a personagens densos, complexos e, sobretudo, intensos. Ana Beatriz Nogueira construiu uma carreira sólida justamente por sua entrega total às mulheres que interpreta, sempre dotadas de profundidade psicológica e nuances emocionais. Agora, ela empresta sua voz e seu corpo a uma personagem de Clarice Lispector (1920-1977) na peça “A Procura de uma Dignidade”, baseada no conto homônimo da escritora. A escolha do projeto s do mercado, mas de uma decisão pessoal da atriz, guiada por seu vínculo antigo com a obra clariciana. “Eu permaneço sendo uma leitora de Clarice, uma leitora em progress. Nada é melhor do que Clarice em essência. Ao apresentar um conto a alguém e essa pessoa gostar, ela vai procurar ler mais, vai se aprofundar. E quem não conhece, vai procurar conhecer”, afirma.

Mesmo com o teatro ocupando espaço central em sua agenda, Ana Beatriz segue contratada da Globo, onde tem uma trajetória marcada por grandes personagens. Ela relembra as razões que a fizeram deixar “Mania de Você”, antecessora de “Vale Tudo”. A decisão foi médica. Diagnosticada com esclerose múltipla há mais de uma década, Ana explica que o calor excessivo do último verão agravou sintomas e comprometeu seu bem-estar. “O tempo quente é sempre danoso para mim – tanto que a única coisa que eu sou proibida de fazer é sauna. O último verão foi muito quente e isso acabou impactando na minha saída da novela”.

Foi a primeira vez que não terminei um trabalho, e mesmo assim gravei sete meses. Os cenários que eu passei a frequentar, de fato, não tinham como resfriar o corpo – Ana Beatriz Nogueira

Ana Beatriz Nogueira relembra a razão de ter deixado “Mania de Você” (foto: Nil Caniné)

DIGNIDADE

Ana Beatriz está em cartaz com “A Procura de uma Dignidade”, projeto que idealizou e financiou. A atriz assume também a produção do espetáculo, experiência que descreve como desafiadora. “‘A Procura de uma Dignidade’ é produção minha, inclusive do meu bolso mesmo. É difícil aguardar o tempo da lei, o tempo de captar um apoio de marketing. Às vezes demora tanto que, quando você vai fazer, precisa se reapaixonar pelo projeto. Financeiramente, como produtora, nem sempre esse caminho chega. Mas como atriz, sempre.”

Essa entrega é também uma celebração da obra de Clarice Lispector, autora que a acompanha desde a juventude. Para Ana, é estimulante ver jovens leitores, sobretudo mulheres, se aproximarem da escritora – seja por meio da internet ou até pela influência de figuras internacionais como Viola Davis, admiradora declarada da literatura clariciana. “A redescoberta dos jovens para Clarice eu acho maravilhosa, porque Clarice é incrível. Para quem não conhece e quer conhecer, que tenha acesso, porque ela é maravilhosa mesmo. Eu leio a Clarice desde adolescente. Pelo menos desde antes da quarentena eu enceno algum livro dela. Sempre algum elemento da obra volta. Vem muito o vocabulário, elementos de outras montagens e o universo da autora”. Segundo a atriz, isso pode ser visto em “A Procura da Felicidade“.

O que é dignidade hoje em dia? Ou melhor: quem somos nós para dizer que tal coisa é digna ou não? Todos os caminhos que se percorre podem levar a alguma dignidade… Quem é o juiz dessa questão?  O que é dignidade sem que se recaia no moralismo, ou em algum tipo de preconceito? Ser digno, creio ser estar à procura de qualquer coisa. Encontrar, perder, procurar, encontrar, esquecer, procurar, encontrar, perder, procurar, encontrar, esquecer – Ana Beatriz Nogueira

A atriz construiu uma carreira sólida marcada por personagens que transitam entre o drama, a complexidade psicológica e a intensidade emocional. Uma de suas atuações memoráveis na televisão foi em “O Rei do Gado” (1996), trama de Benedito Ruy Barbosa que se tornou um marco ao abordar questões sociais relacionadas à luta pela terra. Na novela, Ana interpretou Jacira, uma trabalhadora sem-terra, ao lado de Jackson Antunes, que viveu Regino, líder do movimento. A protagonista feminina da trama era interpretada por Patrícia Pillar, uma boia-fria, enquanto Antônio Fagundes vivia Bruno Mezenga, um poderoso latifundiário. “O Benedito, quando fez “O Rei do Gado”, não podia botar muita coisa em cena. Eu, Jackson e a equipe estivemos no Pontal do Paranapanema com os diretores Luiz Fernando Carvalho e José Luiz Villamarim. Convivemos com os sem-terra – o que hoje chamam de laboratório – e foi muito emocionante”.

Sobre a questão fundiária contemporânea, Ana diz. “A questão da distribuição de terra, de forma geral no Brasil, não é só de terras. Continua sendo uma questão, porque é muito mal distribuída. É importante trazer esses assuntos à tona, mas não podemos esquecer que televisão também é indústria de entretenimento. A maneira como se faz, faz diferença”.

A dignidade norteou personagens de Ana Beatriz Nogueira (Foto: Nil Caniné)

Ela prossegue frisando a importância de se falar algo que está além do texto: “Eu acredito que, às vezes, ao fazer uma obra, pode ser que não esteja escrita uma coisa ou outra. Mas o subtexto pode ser dito na forma como divide uma frase, numa entonação, no que está na entrelinha. Assim, caberá ao espectador perceber ou não. Eu não sei o que o Benedito pensava quando escrevia, mas o texto que chegava para nós, ainda que não pudesse ser exato, era muito emocionante. Tocava as pessoas. É raro isso acontecer: o ator ler um texto, antes de gravar, e já se emocionar”.

Estamos sempre diante da pergunta sobre o que vamos falar e como vamos falar. Estou falando de democracia, de distribuição mais justa das coisas – Ana Beatriz Nogueira

Outro personagem que Ana Beatriz Nogueira encarnou e que também vivia uma busca por dignidade foi Vera, protagonista do filme homônimo dirigido por Sérgio Toledo, um dos primeiros do cinema brasileiro a abordar a transexualidade. O longa recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim em 1987. “A gente começou a filmar em 1985, estreou no final de 1986 em Gramado. A premiação em Berlim foi em março de 1987, quando houve o grande lançamento do filme. Ao ver do diretor, Sérgio Toledo, este é um dos primeiros filmes contemporâneos a retratar a transexualidade. Ainda segundo ele, o longa é rotineiramente reexibido em São Francisco (EUA)”.

Quando fizemos esse filme, não havia um nome para retratar a transexualidade e nem existia a mudança de sexo no Brasil. Nem se falava disso, não se dava nome às coisas. A personagem era uma alminha, uma criatura absolutamente sensível. E era sobre um imenso sofrimento e uma tentativa de sobrevivência dentro de um corpo que não era ela – Ana Beatriz Nogueira

Ana Beatriz Nogueira em “Vera” (Foto: Reprodução)

MANIAS

Assim como ocorreu em “Mania de Você” (2024), da TV Globo, Ana também precisou deixar “Mania de Querer”, da Manchete, em 1986, por causa do filme “Vera”. Esta, aliás, é mais uma das coincidências entre as novelas. “O Herval Rossano (1935-2007) foi muito correto comigo. Eu não tinha uma participação muito importante na novela da Manchete. Eu nunca tinha feito novela antes. Minha saída não prejudicava em nada aquela história, e ele foi muito compreensivo. Uma lembrança muito boa dessa trama é que foi quando conheci Júlia Lemmertz“.

Na Manchete, a atriz também integrou o elenco de “Kananga do Japão” (1989), folhetim do qual ela recorda com carinho: “Foi um trabalho que fiz do começo ao fim. Gravar nos estúdios da Manchete era complicado, longe, mas a gente adorava. Era um trabalho muito gostoso de fazer. Lembro das pessoas muito felizes, gostando muito. A novela muito bem cuidada e me deixou muitas recordações. Nós todos aprendemos dança de salão. A última cena da novela somos todos dançando, e eu não parei até hoje. Faço bolero e tango”.

ESCLEROSE MÚLTIPLA

A luta contra a esclerose múltipla é um capítulo importante na trajetória da atriz. Ela tornou pública a doença em 2009, durante as gravações de “Caminho das Índias”, novela de Glória Perez. Desde então, Ana fez questão de compartilhar informações sobre a condição para ajudar outras pessoas. “Eu convivo com a esclerose múltipla há 16 anos. E nesse tempo nunca trabalhei tanto. Resolvi falar porque senti vontade e também uma obrigação de tirar as pessoas da ignorância no sentido literal – de ignorar algo, de não saber nada sobre. Isso é importante. Na época, fiz um blog em que respondia às mensagens de quem precisava de ajuda. Depois virou Instagram, mas chegou um momento em que não consegui mais responder tudo. Teria que ter uma equipe para isso. Mesmo assim, nunca trabalhei tanto na minha vida.

A doença é progressiva e sem cura, mas existem muitas formas de lidar com ela – Ana Beatriz Nogueira

Ana Beatriz vive hoje uma fase de intensa conexão com Clarice Lispector. No teatro, estrela “A Procura de uma Dignidade”, peça baseada em conto da escritora. Na TV, relembra Clarice, sua personagem em “Insensato Coração” (2011), novela de Gilberto Braga (1945-2021). Ao ser questionada sobre qual personagem levaria para um jantar, Ana não hesita: “Eu chamaria a personagem Clarice, veja o nome. Clarice, de “Insensato Coração”, era uma mulher bacana para jantar, para bater papo. Coincidentemente, assim como Clarice da peça, é plena em dignidade.”

Ana Beatriz Nogueira convive há anos com a esclerose múltipla(Foto: Nil Caniné)

Em cada personagem que viveu, Ana Beatriz Nogueira parece ter colecionado fragmentos de mundos – da boia-fria de Benedito Ruy Barbosa à delicadeza ferida de Vera, passando por mulheres de novelas, séries e palcos que carregam, como ela, uma busca incessante por sentido e permanência. Hoje, ao emprestar sua voz a uma personagem de Clarice Lispector, a atriz reafirma um pacto artístico com a densidade humana: o de transformar dor em beleza, silêncio em presença, e fragilidade em arte. Sua trajetória, marcada por escolhas ousadas e pela coragem de se expor, é também um ato de resistência. Ana caminha pelo teatro e pela televisão como quem revela camadas de uma mesma essência – a de uma intérprete que não teme a verdade dos personagens, nem a sua própria.