Alcione volta aos palcos, lança álbum de inéditas e diz que está solteira e “fechada para balanço”


Aos 50 anos de carreira, Alcione vive um dos momentos mais celebrados de sua trajetória. A artista lança um novo álbum de inéditas — intitulado Alcione — após cinco anos sem novidades fonográficas. O disco será apresentado em um show especial no dia 10 de maio, na Farmasi Arena, no Rio, com participações de Iza e da Bateria da Mangueira. A Marrom também marca presença na trilha da novela Garota do Momento e relembra sua estreia nesse universo, ainda nos anos 1970. Homenageada por escolas de samba como Mangueira e Mocidade Alegre, ela reafirma sua força como ícone cultural. Maranhense de alma e essência, Alcione segue como símbolo de ancestralidade, brasilidade e emoção

*por Vítor Antunes

Há artistas que atravessam gerações. E há Alcione — que não apenas as atravessa, mas as costura com sua voz e presença de sol. Aos 50 anos de carreira, a Marrom vive um momento de esplendor. Não é apenas um retorno aos palcos, é uma reafirmação de sua grandeza, de sua fé na música popular brasileira e do amor que construiu com o público ao longo de décadas. Depois de ser celebrada pela escola de samba que mora em seu coração, a  Mangueira, ela retorna com um projeto cheio de cor, ritmo e emoção. A artista que se fez voz de um Brasil profundo, feminino e vibrante também revela, com a leveza de quem conhece bem os caminhos do coração, que segue aberta às possibilidades da vida — mesmo quando ela mesma decide ser bem reflexiva para cuidar da alma, do corpo e da própria liberdade.

Estou solteira, mas não ‘na pista para negócio’. Digamos que estou ‘fechada para balanço’

O novo trabalho, que carrega simplesmente o seu nome — Alcione — chega como uma oferenda musical aos fãs. Um álbum de inéditas, aguardado com ansiedade e carinho, que marca o reencontro da artista com a criação fonográfica, após um intervalo de cinco anos. E esse retorno será celebrado como merece: com um grande espetáculo na Farmasi Arena, no Rio de Janeiro, no dia 10 de maio. Um evento pensado para marcar, com brilho e tamborim, seus 50 anos de estrada.

“Farmasi fazendo o lançamento de ‘Alcione‘, um álbum de inéditas. Álbum que os fãs já esperavam porque eu não lançava um disco inédito desde o ‘Tijolo por Tijolo‘, em 2020. Duas das canções que estarão no álbum — e neste show — já chegaram ao público porque as lancei, recentemente, como singles. ‘Marra de Feroz‘ e ‘Não mexe comigo‘. E, claro, algumas novidades em canções compostas por Zeca Pagodinho, Inácio Rios, Arlindinho, Fred Camacho. Também regravei uma música do Arlindo Cruz, inédita em minha interpretação. E essa será outra das surpresas selecionadas para o roteiro do espetáculo. Não tenho convidados especiais no disco. Terei, isso sim, no show de lançamento do álbum na Farmasi. Iza e a Bateria da Mangueira, para minha alegria, já confirmaram suas participações pra lá de especiais”.

Alcione lança álbum com músicas inéditas (Foto: Vinícius Mochizuki)

NOVELA “GAROTA DO MOMENTO” E A VOZ DE ALCIONE

Mas quem pensa que Alcione se contenta com pouco se engana. Sua música ultrapassa palcos e invade as casas brasileiras através das novelas — território onde sua voz sempre encontrou morada. Recentemente, a cantora gravou uma música feita sob medida para a novela “Garota do Momento”, ampliando ainda mais a relação afetuosa entre sua arte e a dramaturgia brasileira. “O convite veio através da gravadora Biscoito Fino, que é parceira da Marrom Music, meu selo. Todo mundo dizia que a música parecia comigo e eu adorei gravá-la. Estará no meu próximo álbum”.

Essa ponte entre Alcione e o universo das novelas não é nova. Sua estreia nesse cenário se deu em 1974, na novela “O Rebu”, quando ela interpretou uma canção quase esquecida do lendário Raul Seixas. A experiência, vivida nos primeiros passos de sua carreira, ainda ecoa como um momento singular: “Foi uma experiência única cantar Raul Seixas, logo no início da minha carreira, quando a gravadora apostava em mim como uma cantora de samba. Mas nunca fui uma cantora de rótulos, canto o que me arrepia a pele e emociona o coração”. Desde então, a trilha sonora de muitas tramas contou com sua voz. Foram mais de 20 temas, incluindo músicas de abertura — como a poderosa interpretação que embalou “A Regra do Jogo”.

Alcione diz que seu coração “está fechado para balanço” (Foto: Vinícius Mochizuki)

Se Alcione é sinônimo de música, ela também é sinônimo de carnaval. Seu nome se inscreveu na história da folia com tintas vivas. Com a Mangueira, sua escola do coração, e com outras agremiações que lhe prestaram reverência, a cantora se tornou enredo — honra que poucos vivos conheceram. Ter sua trajetória transformada em samba-enredo e desfilada na Avenida é, para ela, um reconhecimento inigualável. “Ganhei homenagens da Mangueira, Ponte, Mocidade Alegre de SP… e todas me emocionaram imensamente! Nenhuma homenagem pode ser maior, principalmente para um artista popular, do que ser enredo de uma Escola de Samba. Ver sua trajetória, sua vida retratada na Avenida… ah, isso não tem preço! Mas todo mundo sabe que eu sou mangueirense de coração! Ser alvo de uma homenagem dessas pela minha escola foi uma emoção indescritível, não dá pra mensurar…”

MARANHÃO SOU EU

Mas antes da fama, dos palcos, da Marquês de Sapucaí, existe o Maranhão. E Alcione é, acima de tudo, filha desse chão fértil e colorido. Sua ligação com a terra natal vai muito além da saudade: é essência, é herança, é matéria-prima de sua identidade. Isso se reflete em tudo — nas roupas vibrantes, nos adereços que dançam com ela, na presença cênica que carrega os signos de sua ancestralidade. “Isso está no meu DNA, na minha ancestralidade. As cores, os balangandãs são marcas ancestrais que sempre fizeram parte da minha vida.”

Essa conexão não se dissolve com o tempo. Ao contrário: permanece viva e pulsante, como os tambores que embalam as festas populares maranhenses. Alcione fala de sua terra com a paixão de quem nunca saiu — e com a reverência de quem sabe que carrega no corpo e na voz as memórias de todo um povo: “Sempre. Como já cantei em uma cantiga de tambor de crioula: ‘Maranhão sou eu. Maranhão sou eu, terra de Gonçalves Dias, Maranhão sou eu’. Tudo na minha terra me encanta… as paisagens, as danças, os sons, os costumes, a nossa gente e a nossa culinária, é claro!”.

50 Anos de Carreira. O palco e suas emoções reais (Foto: Beatriz Ramy)

Em tempos de vozes passageiras e ídolos relâmpagos, Alcione permanece como um farol que não se apaga — guia de afeto, ritmo e memória. Sua trajetória não se conta apenas em discos, prêmios ou desfiles, mas na emoção que provoca, na representatividade que carrega, na ancestralidade que honra. É a artista que canta o amor com a força de quem já o viveu inteiro; que reverencia o Brasil profundo com os pés fincados no tambor e os olhos voltados para o futuro. Ao completar meio século de carreira, a Marrom não se reinventa — ela reafirma o que sempre foi: monumento vivo da música popular brasileira. E enquanto houver samba no pé, poesia na pele e tambor no peito, haverá Alcione — costurando gerações com sua voz de bronze e sua presença de sol.