Como diz o samba da Vila Isabel que homenageou Martinho da Vila em 2022, “tão bom cantarolar porque o mundo renasceu”. Alan Rocha é esse artista de muitas faces — ator, educador, músico, griô contemporâneo —, mas é, antes de tudo, um ator brasileiro. Alguém que não dissocia arte de comunidade, nem sucesso de responsabilidade. Seja no set de um filme premiado, na roda de samba, no palco de um teatro ou em sala de aula com crianças, ele escolhe estar presente. E é dessa presença — sensível, generosa, dedicada — que o cinema brasileiro também renasce, um gesto de cada vez.
*por Vítor Antunes
Ser ator no Brasil é sobretudo equilibrar ofícios. Entre os compromissos com o cinema, os palcos e os projetos sociais, Alan Rocha nunca se afastou de uma de suas maiores paixões: ensinar música para crianças. Porém, o ofício de ator é algo tão urgente quanto, exigiu a ele o conciliar dois trabalhos. Mesmo estando num filme que ganhou o Oscar, “Ainda estou aqui“, segue como educador infantil. “É uma experiência muito bonita. Já trabalho há quase 20 anos como professor de educação infantil, dando aulas de música. Com o tempo, fui me desligando de algumas escolas, mas a primeira em que comecei a lecionar é a mesma em que estou até hoje. Acredito que esse show que estou realizando também funciona como uma homenagem a todos esses anos de trabalho — às muitas músicas que criei nesse percurso, nas escolas por onde passei. Elas são, em grande parte, fonte de inspiração para tudo o que produzo, para minha juventude, para a minha alegria. Nutro um carinho profundo por essas instituições, e sinto que esse afeto é recíproco. É esse vínculo que me dá força para continuar e compartilhar a felicidade de atuar e estar com essas crianças. É sempre uma troca verdadeira, um momento de alegria, em que me sinto mais livre. A gente se diverte — é um momento genuinamente prazeroso. Nem parece trabalho; é, de fato, um prazer estar ali. Na verdade, tenho conseguido manter essa presença com alguma constância. Diminui o número de escolas onde atuo, mas sigo dando aulas”.
Esse é o terceiro filme de sucesso protagonizado por Alan. A produção vem conquistando prêmios e reconhecimento por onde passa. Antes dele, o ator esteve em dois projetos igualmente marcantes: o aclamado “Ainda Estou Aqui“, vencedor do Oscar, e “Vitória”, longa no qual divide o protagonismo com Fernanda Montenegro. “Vitória”, no entanto, não passou ileso a polêmicas. O filme foi acusado de praticar whitewashing — ou seja, de embranquecer um personagem real que, na vida, era negro. Alan esclarece a questão com firmeza: “A Dona Vitória real, chamada Joana da Paz, que morreu em 2023, era negra, e foi feita a escolha deliberada de não reproduzir traços ou características físicas dela no filme, justamente por ela estar protegida pela lei de proteção a testemunhas. Ela já havia deixado o programa e houve, por parte da produção, todo um cuidado em respeitar esse contexto.”

Alan Rocha desmente quew “Vitória” tenha feiro whitewashing intencional (Foto: Ernane Pinho)
Além disso, o ator lembra que o projeto sofreu uma reviravolta inesperada: “Com o falecimento de Breno Silveira (1964-2022), que dirigiria o filme, surgiu a proposta de inverter os papéis. O jornalista — branco, na vida real — passou a ser interpretado por um ator negro, enquanto a protagonista, também negra na realidade, seria vivida por Fernanda Montenegro. Isso, inclusive, foi um desejo da própria Dona Joana”.
A respeito de contracenar com Fernanda, Alan não economiza em admiração e afeto: “Fernanda era como uma grande mãe, uma grande cachoeira, sabe? Uma mãe-natureza que chega jorrando água e várias sementes — que somos nós, os atores. Estamos ali aprendendo com ela. Ela é uma grande dama”. A convivência com a veterana marcou profundamente o elenco: “Foi muito bom aprender com ela, trocar com ela, sentir a generosidade de uma pessoa tão grandiosa. O cuidado e o carinho dela eram perceptíveis desde o momento em que chegava ao set até a hora de ir embora. Ela é, o tempo todo, um poço de generosidade”. Alan encerra com uma reflexão sobre o impacto dessa vivência artística: “Foi uma troca muito boa, muito bonita, genuína. Estamos na caminhada certa, seguindo os passos de tantas pessoas que vieram antes de nós, para que essa jornada não se encerre”.
Sobre “Ainda Estou Aqui”, Alan relembra a experiência de interpretar o jornalista da Revista Manchete que presenciou um dos momentos mais emblemáticos retratados no longa: a foto histórica da família Paiva. “Eu pesquisei essa foto e vi. No dia da filmagem, ela também estava lá, porque a ideia era tentar representar, ser o mais fiel possível àquela imagem que a produção tinha”, explica.
O filme se insere em um contexto delicado: o de revisitar a ditadura militar brasileira. Para Alan, o tema precisa ser encarado com profundidade e responsabilidade, sobretudo diante das tentativas de reinterpretação ou negação desse período. “Acho que é um tema sobre o qual a gente não pode fazer silêncio, né? Sobre tantas barbaridades que aconteceram no nosso país. No Brasil, as pessoas têm vários tipos de pensamento e, infelizmente, algumas ainda acham que isso não aconteceu. Assim como a escravidão: só quem sabe, sabe. Só quem sente, quem ouviu da família, de amigos, de pessoas próximas, tem certeza do que foi”, afirma. E conclui: “É um assunto que precisa, sim, ser falado, lembrado e debatido. Para que, cada vez mais, esse tipo de situação tão triste da nossa história não seja esquecida, mas, daqui para frente, transformada”.
As pessoas precisam entender tudo o que aconteceu de negativo na ditadura para que isso não volte a atrapalhar o rumo da nossa caminhada – Alan Rocha

Alan Rocha concilia o trabalho de professor com o de ator (Foto: Ernane Pinho)
Do Zé Ferreira à patota de Cosme
Além do cinema, Alan está envolvido em diversos projetos audiovisuais. Atualmente, grava “Emergência Radioativa”, série da Netflix dirigida por Fernando Coimbra, que trata da tragédia do Césio 137, ocorrida em Goiânia, em 1987. Paralelamente, inicia as filmagens de “O Que Sobrou do Céu”, novo longa de Luciana Malavasi. Segundo a própria diretora declarou com exclusividade ao site, “esse filme fala sobre a vulnerabilidade das pessoas que caem nas mãos erradas. É uma denúncia contra aqueles que se aproveitam da fé de quem confia — homens e mulheres.”
Recentemente, Alan também foi indicado ao Prêmio Shell de Melhor Ator por seu trabalho no espetáculo Martinho, Coração de Rei, em que interpreta o cantor Martinho da Vila — cujo nome de batismo, Martinho José Ferreira, deu origem ao apelido carinhoso “Zé Ferreira”. “Essa história mostra o Martinho da Vila como um ser de África, um griô — ou seja, um contador de histórias, sábio e mestre, que ele é. Quando vi essa possibilidade, corri atrás dela. Tentei me dedicar ao máximo para entregar um pouco dessa história e mostrar mais do meu trabalho. E acho que fui recompensado com a indicação ao Prêmio Shell, que por si só já valeu toda a luta que travei nesse processo de fazer esse espetáculo”.

Alan Riche e Matheus Abreu em Um Lobo entre os cisnes” (Foto: Divulgação)
Apesar da homenagem ao sambista, Alan não limita sua atuação musical à representação cênica. Sua trajetória como músico segue firme, paralelamente às aulas que ministra para crianças — algo que ele enxerga como parte de uma missão ancestral, alinhada com os preceitos da religiosidade afro-brasileira. Aquilo que a religião afro diz ser protegido pela patota de Cosme, ou seja, a legião dos erês, de São Cosme e Damião. Ele lembra com afeto seu início na música: “Sou músico, comecei na música e tal. Sempre fui muita coisa, principalmente com o Céu na Terra, bloco de carnaval. Trabalhei, sim, com samba, com alguns projetos autorais.” Atualmente, desenvolve um trabalho voltado ao público infantil no Rio de Janeiro: o Clube Akorin – Musicalizar Brincando. “É um projeto com músicas infantis, que traz narrativas afro tanto nos arranjos quanto em algumas letras. Um trabalho muito bonito no contexto da musicalização infantil, da brincadeira, da liberdade e da vivência da criança com a música. Isso está sendo muito legal.”
Alan também poderá ser visto no longa “Um Lobo entre os Cisnes”, protagonizado por Matheus Abreu, no qual interpreta um professor de hip hop que dá aulas ao personagem que, futuramente, se tornará um renomado bailarino clássico. “Sempre gostei muito de charme, de hip hop. Frequentei bastante o Viaduto de Madureira, puxava uns passinhos de dança. Sou nascido e criado na Vila da Penha, então foi muito especial participar desse projeto. Mergulhei de cabeça, mas, na verdade, esse universo já estava dentro de mim — é a minha praia.”

Alan Rocha e Matheus Abreu. Filme vem repercutindo bem entre a crítica (Foto: Divulgação)
Seu personagem é quem percebe o talento do protagonista, baseado na trajetória real do bailarino Thiago Soares. “Meu personagem percebe que o personagem principal — o Thiago Soares —, vivido pelo Matheus Abreu, tinha um talento especial, isso numa época em que o balé ainda era visto como algo pouco masculino. Eu acho o filme muito bonito, muito poético, e que traz essa poesia por meio da dança.”
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