“A Viagem” volta a ser fenômeno em sexta reprise na TV e já alcança números de novela de horário nobre


A novela ‘A Viagem’, escrita por Ivani Ribeiro e exibida originalmente em 1994, reafirma seu status de fenômeno ao alcançar altos índices de audiência em sua sexta reprise, agora no “Vale a Pena Ver de Novo”. Mesmo nas primeiras semanas, a trama já supera os 20 pontos na Grande São Paulo, rivalizando com produções inéditas do horário nobre. A coautora Solange Castro Neves celebra o sucesso e homenageia Ivani, cuja obra, segundo ela, toca a essência humana. Christiane Torloni, intérprete da protagonista Diná, revive o impacto pessoal e espiritual do trabalho. Para a atriz, ‘A Viagem’ foi um reencontro com o Brasil e com um chamado interior

*por Vítor Antunes

Não há outra palavra que defina com mais precisão o impacto de “A Viagem” do que “fenômeno”. Exibida originalmente em 1994 pela TV Globo, a novela de Ivani Ribeiro está em sua sexta reprise — a terceira somente no “Vale a Pena Ver de Novo” — e, mais uma vez, alcança índices de audiência impressionantes. Em apenas duas semanas de exibição, a trama que substituiu Tieta tem marcado frequentemente 20 pontos na Grande São Paulo, em pleno horário das 18h. E os números seguem em curva ascendente. Na terça-feira, 20 de maio, o minuto a minuto registrou um claro escalonamento: às 18h16, a audiência era de 19,5 pontos; às 18h23, 20,1; às 18h24, 20,2; e às 18h25, 20,3. Tudo isso ainda na fase de apresentação dos personagens, quando a trama mal começou a revelar seus conflitos centrais — e o vilão Alexandre, interpretado por Guilherme Fontes, ainda não mostrou sua face mais sombria.

O fenômeno se torna ainda mais evidente quando comparado ao desempenho da principal novela inédita da casa. Também no dia 20, às 21h53, “Vale Tudo” — título reapresentado como “trama principal” no horário nobre — marcou 19,8 pontos. No mesmo dia, às 18h22, “A Viagem” bateu 19,97. No dia anterior, segunda-feira, a novela dos anos 1990 alcançou 20 pontos cravados às 18h20, enquanto “Vale Tudo” fez 20,38. Uma diferença mínima entre produções separadas por 30 anos e exibidas em faixas horárias distintas.

Solange Castro Neves, coautora da novela, celebra mais esse retorno triunfante. “Estou muito feliz com o sucesso e por essa linda homenagem à minha mestra. “A Viagem” tem uma trama atemporal, que toca o público porque mexe com a essência humana: vida e morte, alegria e tristeza, amor e ódio, perdão e vingança, energia positiva e negativa. E, acima de tudo, um amor sem ‘talvez’, um amor que vai além da vida”, afirma.

Em entrevista concedida ao site HT em 2023, Solange relembrou o delicado processo de criação da obra. “Ivani já estava muito doente e não queria que ninguém soubesse. Muitas situações difíceis aconteceram para esconder o que havia de fato. Durante “A Viagem”, ela foi internada e faleceu pouco depois. Tinha muita confiança no meu trabalho, e sempre procurei fazer jus a isso. Trabalhar com ela foi um privilégio. Ivani me ensinou tudo sobre roteiro e teledramaturgia. Foram 17 anos de parceria, sempre pautados por confiança, cumplicidade e amor”.

Diná era a protagonista de “A Viagem” (Foto: Acervo/Globo)

O elenco também traz histórias tocantes. Quando foi convidada para viver Diná, a protagonista da trama, Christiane Torloni atravessava um momento pessoal doloroso. Após a trágica perda de seu filho Guilherme, fruto do casamento com o diretor Dennis Carvalho, ela havia se afastado do país e da televisão. Segundo a própria atriz, estava decidida a não aceitar nenhum trabalho naquele período, até que o diretor Wolf Maya a abordou com uma proposta, digamos, estratégica. “Ele me convidou para fazer uma comédia. Brinco dizendo que fui enganada por ele”, contou Torloni.

De fato, na primeira fase da novela, Diná é uma mulher fútil e controladora, cuja transformação começa após o suicídio do irmão, Alexandre. Mais tarde, Torloni compreenderia o peso simbólico de sua participação. “Quando percebi a extensão dramática da personagem, entendi que se tratava de um chamado. Durante o tempo que morei em Portugal, fui apresentada à obra de Allan Kardec. É impressionante o trabalho da mediunidade, dos espíritos…”, recorda.

A novela “A viagem” foi como um portal de volta ao Brasil – Christiane Torloni

“A Viagem” volta a surpreender em reprise (Foto: Acervo/Globo)

A transcendência presente na obra de Ivani Ribeiro (1922–1995) é, para Christiane Torloni, algo que ultrapassa o campo simbólico. “Foi uma experiência metafísica em vários aspectos. Não há a menor dúvida”, afirma a atriz, que associa à autora alguns dos momentos mais marcantes de sua trajetória na televisão. “Ivani reconheceu em mim uma missão muito clara. Quem poderia imaginar que eu viveria papéis que foram da Eva Wilma?”, relembra. “E não foi apenas uma vez. Vivi personagens que foram dela em três ocasiões — duas em novelas escritas pela própria Ivani.”

Além da protagonista Diná, de A Viagem (1994), Torloni interpretou Jô Penteado em A Gata Comeu (1985), um remake de A Barba Azul, exibida originalmente pela Tupi, onde Eva Wilma deu vida à mesma personagem. O terceiro encontro entre as trajetórias das atrizes ocorreu em Ti Ti Ti (2010), quando Christiane encarnou Rebeca, personagem originalmente vivida por Wilma em Plumas e Paetês (1980). Neste caso, trata-se de uma trama de Cassiano Gabus Mendes (1927–1993), não de Ivani. A versão de Ti Ti Ti nos anos 2000 reciclou parte do enredo de Plumas e de outras novelas do autor, compondo um mosaico afetivo da teledramaturgia da Globo.

Lucinha Lins e Christiane Torloni na novela ‘A Viagem’ (Foto: Reprodução/Globo)

Torloni aponta que havia entre ela e Ivani uma sintonia rara. “Acho que essas coisas não se dissipam, elas são transcendentais, metafísicas. Jô Penteado e Diná são personagens que testemunham o poder transformador do amor”, diz, em referência aos arcos de amadurecimento vividos por ambas as personagens.

Vale lembrar que A Viagem, em sua primeira encarnação, foi exibida pela TV Tupi em 1975, e chegou a ser reprisada pela emissora pouco tempo depois — totalizando duas exibições. A reapresentação ocorreu num momento de crise para a Tupi, que buscava recuperar o público num período de queda acentuada de audiência, já às vésperas da falência do canal.