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“A mulher indígena está sofrendo com todas as invasões de garimpeiros e exploradores”, comenta Maha Sati

Maha Sati estará no filme “Icamiabas”, direção de Julia Barreto, e que relata uma imersão pelo feminismo ancestral na Amazônia

Publicado em 08/09/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Domênica Soares

O filme “Icamiabas” é o primeiro da diretora Julia Barreto (filha de Fábio Barreto e neta de Lucy e Luiz Carlos Barreto) neta de e vai mostrar um cenário importante do contexto brasileiro. A produção, que vai conduzir a performer Maha Sati a uma imersão pela Amazônia é inspirada na lenda das mulheres guerreiras que vivem em uma sociedade rigorosamente matriarcal. Em um momento com as atenções, nacionais e internacionais, voltadas para o local, o projeto ganha ainda mais força e relevância histórica ao retratar a realidade e importância sociocultural dessas figuras do feminismo ancestral. O desfecho desse movimento se dá no Círio de Nazaré, uma das principais festas religiosas do país. Segundo, Maha Sati a ideia da produção audiovisual aconteceu durante uma viagem que fez ao Tapajós – proposta de nova unidade federativa do Brasil, vizinha do Pará, Mato Grosso, Amapá, Amazonas e Roraima. “Durante uma viagem que fiz ao Tapajós sozinha, fui conhecendo pessoas, comunidades e desafiando minha própria coragem, como geralmente faço quando viajo. Estava na praia de Alter do Chão, depois de ter voltado de uma limpeza física e emocional com um barro retirado do fundo dos igarapés, com um caboclo que conhecera naquela manhã. Caminhei e vi uma placa que dizia:  “Desenhos dos Borari”. Entrei e conheci Neila. Tivemos uma simpatia de graça, eu gosto de conversar com as mulheres dos lugares que visito e, principalmente, as que têm ativismo em nome de sua aldeia. Passei a tarde em sua casa. Ela foi quem me ensinou a palavra Icamiaba. Antes de partir, Neila me diz: você é Icamiaba. Saí cheia, assombrada e alegre, com tudo que um encontro poético causa. Sobretudo saí de seu quintal com um farejo, um caminho para descobrir”. 

“Icamiabas” narra histórias de mulheres que vivem na Amazônia (Foto: divulgação)

Com a produção da LC Barreto Produções e co-produção da Kyvo, o longa “Icamiabas” está em fase de captação de recursos e acredita na reconexão feminina para transformar a sociedade. De acordo com Maha, a mulher indígena está sofrendo com todas as invasões de garimpeiros e exploradores. O corpo da mulher indígena é sobrecarregado com todo tipo de tabu, como por exemplo, prevenção dos filhos, aumento do alcoolismo nas aldeias, contaminação por doenças e DSTs, aumento da criminalização sexual, além da ausência de boas condições de saúde, emprego e principalmente, liberdade. Outro fator importante relatado por Maha e que contribui para esse descaso, se baseia na questão da Lei Maria da Penha não ter tradução para línguas originárias, o que acaba inviabilizando a proteção das mulheres indígenas por todos esses pontos. “Com tudo isso, e muitos outros, considero importante deixá-las falarem sobre a condição da mulher indígena. E é importante falar que existe descaso com esse tema porque o Brasil não respeita e não conhece os seus avós. Nossa história precisa ser ouvida pelos que nunca falaram. Tirar a condição de distante e dar o nome de essência. Esse é o trabalho que todos teremos que fazer agora”. 

Maha Sati conta a história do feminismo ancestral (Foto: divulgação)

Em entrevista exclusiva ao site Heloisa Tolipan, Maha fala um pouco sobre sua percepção em relação ao feminismo na sociedade e disserta que para ela é o movimento de liberdade e que naturalmente essa é a espinha de todas as análises mas que é capaz de libertar as minorias. Desde as feministas da época Hereges até agora, a ideia tem sido trazer o debate para além dos homens, heteros e brancos. “Vejo muita evolução, por exemplo, a palavra feminicídio ser hoje muito mais conhecida pelas pessoas. Mas como todo movimento para se aperfeiçoar, ele precisa ser feito críticas. E uma das críticas que faço é: quanto o feminismo abarcou todas as outras mulheres? De outros grupos étnicos? É fundamental olhar de novo para isso”. Maha conta que sempre se identificou com o feminismo, frisa que vem de uma família de mulheres e que muitas ancestrais sofreram ao longo da vida e ela sempre foi a neta questionadora, que fazia perguntas indiscretas nas reuniões de família. Ela sempre quis saber de onde vinha a fúrias e a melancolia de suas avós e este hábito se estendeu e Maha passou a querer saber mais em relação às condições de todas as outras mulheres da região, se denominando uma socióloga à moda informal. Além dessas lutas, ela diz  também que se identifica bastante com as questões relacionadas ao meio ambiente “A mulher e a terra! São os assuntos que mais busco e vivencio”. 

Maha fala sobre questões indígenas e sociedade (Foto: divulgação)

Maha Sati fala também sobre seu trabalho, e relata que busca mudar o sentido das coisas através de uma experiência que tenha devoção aos ancestrais para a projeção de um futuro mais verdadeiro, mais consciente, em pequenas e grandes proporções “Quero ver mulheres sendo elas, sem correr riscos”.  Apaixonada pelo comportamento da sociedade e buscando estar presente em diversas causas que estão inseridas no contexto brasileiro, Maha conta que a natureza é sua maior inspiração e que seus sonhos são muitos “Tenho vontade de continuar meu caminho com outras irmãs, trazendo realidades mais dignas às mulheres periféricas, proteção e, quem sabe, se a Deusa permitir, gostaria de ver um espaço que cuide de mulheres gestantes em situação de Rua. Já tenho o nome dessa casa. E já imagino a casa. Corro para abrir essa porta. Acordo todos os dias porque tenho um sonho”, conclui.

 

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