Cinema & TV

‘Cultura traz sensação de pertencimento’, diz Paulo Gabriel, que estreia como Genilson em ‘Amor de Mãe’

Com uma carreira sólida construída ao longo de dez anos no setor audiovisual e no teatro, ator reflete sobre a trajetória profissional, a cultura no Brasil e a necessidade de se investir em produção de alta qualidade no país

Publicado em 30/11/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

Depois de construir uma carreira sólida no teatro e no audiovisual, o ator Paulo Gabriel está fazendo sua estreia em novela na Globo, em “Amor de Mãe”, de Manuela Dias, que conta a história de três mulheres de classes sociais diferentes e suas batalhas para criar os filhos. Ele interpreta Genilson, um homem que “deu errado” na vida e está pagando por isso. O ator elogia a linguagem cinematográfica escolhida pelo diretor artístico José Luiz Villamarim para o folhetim. “Foi o primeiro episódio com a maior audiência dos últimos quatro anos para uma novela das 21 horas. Estrear com o ritmo mais pulsante como o do primeiro capítulo foi um risco, mas deu certo. Como espectador, é preciso estar ligado e conectado o tempo todo”, comenta. “O Villamarim tem uma visão extremamente sofisticada”.

O ator também atua em filmes comerciais como ‘Marighella’, de Wagner Moura, e ‘Malasartes’, de Paulo Morelli (Foto de Angelo Pastorello)

Essa sofisticação se traduz numa trama em que nenhuma das protagonistas é exatamente mocinha e em que os vilões não são óbvios. Por conta disso, Paulo prefere não adiantar detalhes sobre a trajetória de seu personagem para não estragar surpresas. “A novela é cheia de tramas e subtramas e haverá muita reviravolta na história de Genilson. Por enquanto, é melhor aguardar”, pondera o ator, que, na telinha, é filho de Nicete (Magali Biff) e irmão de Betina (Ísis Valverde).

Para chegar ao folhetim, Paulo Gabriel participou de um teste. “Não fui convidado. Vim ao Rio especialmente para a audição. (Ele mora na Vila Leopoldina, Zona Oeste de São Paulo, e é agenciado pela Barnabé Agenciados.) Gosto de testes, meu trabalho começa ali e penso que é uma oportunidade de entregarmos o que temos de melhor. O ator precisa estar disponível para quem está dirigindo. Precisa se doar e ter escuta”, resume. “Quinze dias depois, recebi a notícia positiva e foi esse o meu processo de entrada na novela. Mas poderia não ter entrado. Nessa profissão, a gente lida diariamente com o ‘não’. Aprendi que quanto mais ‘nãos’ você ouve, mais se aproxima do ‘sim’. Ouvir ‘não’ é um exercício de lapidação, vai polindo a pedra até obter uma gema de valor. É preciso ter resiliência neste ofício, bem ou mal, tudo é aprendizado”.

A preparação do ator inclui cursos no Studio Fátima Toledo e no Instituto Stanislavsky (Foto de Angelo Pastorello)

O aprendizado de Paulo foi inicialmente construído na área do entretenimento. “Trabalhei dos 13 aos 25 anos organizando festas para adolescentes e jovens. Gostava dessa atividade, pois tinha a humanidade de tocar as pessoas com a efusividade e a alegria que uma festa traz. Mas não conseguia me ver mais velho fazendo isso. Aos poucos, fui em busca de outras vertentes da área de humanas até que cheguei no caminho das artes cênicas e vi nessa área a simbiose artística que buscava. É onde estou e quero ficar”, conta. “Atuar e lidar com o entretenimento tem seus paralelismos. Nas duas áreas você lida com o humano, com o objetivo de tocar o outro, o colega de cena e o espectador. A lição que eu levo dessas mudanças na minha vida é buscar sempre fazer apenas aquilo em que creio, seguir a intuição e ter calma para dar um passo de cada vez. A intuição é uma das forças mais potentes que temos e, às vezes, a gente se esquece dela. É preciso ouvi-la”.

Com uma carreira sólida no audiovisual, Paulo atuou em mais de 40 filmes independentes (Foto de Angelo Pastorello)

Desviando-se de um caminho comum a muitos aspirantes ao disputado lugar ao sol na profissão, ele não chegou a fazer teatro infantil: “Adoraria ter passado pelo infantil, mas comecei de fato no teatro adulto. Teatro para crianças é base de formação de plateia, é necessário termos e mantermos essa modalidade de peças. Tocar os pequenos não é tarefa fácil, eles são muito sinceros, se não gostam, não gostam e pronto”, diz o ator. “Trilhei dois caminhos: convites para interpretar e testes. Muito mais testes (risos). Me joguei sabendo de todas as dificuldades. Também fiz muitos trabalhos independentes no setor audiovisual para ter bagagem. Não basta ser um ator formado, é preciso ter horas de voo e estudar continuamente. Não teve romantismo nessa história. E mesmo chegando ao mainstream, continuo fazendo cinema independente, pois é o lugar da experimentação. No mainstream tudo custa muito caro, não podemos nos dar ao luxo de experimentar e errar, precisamos ser assertivos”.

Estudioso, sempre fez questão de seguir workshops e cursos. Formou-se em Artes Cênicas pelo Globe SP (Ulysses Cruz) e fez cursos complementares com o maestro Raúl Rodriguez (Escola Russa de Artes Teatrais), Marjo Riikka Makela (Técnica Chekhov), Thomás Rezende (Técnica Meisner), Luciana Canton (Técnica Meisner), Estrela Strauss (Método Lee Strassberg), Tristan Aronovich (Sistema Stanislavski). Vivenciou workshops e processos criativos de experimentação da linguagem do audiovisual com os preparadores de atores/elenco Vânia de Brito (Processo atores#sp), Christian Duuvoort (“Ensaio sobre a Cegueira”), Luiz Mário Vicente (“Bingo”), Sérgio Penna (“Carandiru”), Luis Antônio Rocha (“Velho Chico”), Roberto Milazzo (MSF-New York), Edson Spinello (“Malhação”) e Pedro Vasconcellos. Ainda estudou no Instituto Stanislavsky, onde se aprendem métodos consagrados de atuação utilizados por atores e diretores renomados, frequentou o Instituto Fátima Toledo, fundado em 1990 pela conceituada preparadora de elenco para ensinar um método de atuação baseado no autoconhecimento através da bioenergética: “Tenho necessidade de alicerces, de conhecer o trabalho dos que vieram antes. Gosto muito da criação, tanto de personagens como de conteúdo. Já que o meu olhar é curioso, acho legal estudar para ir além. Estudar para, em seguida, esquecer tudo e só ‘ser’, fazer um jazz disso”.

‘Dos 13 aos 25 anos de idade, trabalhei organizando festas para adolescentes e jovens’, conta o ator (Foto de Angelo Pastorello)

No currículo destacam-se trabalhos em mais de 40 filmes independentes. No circuito comercial, Paulo participou dos longas “Marighella”, de Wagner Moura, e “Malasartes”, de Paulo Morelli, entre outros. “Mas veja, não quero passar a impressão errada da participação: todo papel numa trama é importante, grande ou pequeno, senão não estaria lá. As que fiz foram papéis contundentes para se contar a história e fico feliz e honrado em poder contribuir”. Em ‘Marighella’, que deveria ter estreado nesse ano, faço uma participação na introdução do filme. Sou o cara que entra no cinema para tentar matar o guerrilheiro”, conta. “No ano que vem, vou estar no longa ‘Amigas de Sorte’, como um investigador de polícia. Também será uma participação. O filme é do Homero Olivetto e deve estrear no primeiro trimestre de 2020. É uma comédia bem divertida com Arlete Salles e Susana Vieira no elenco. Quando fiz ‘Carcereiros’, participei como o advogado Aldo, ao lado do Osmar Prado. E na macrossérie ‘Jezabel’, na Record, fui o conselheiro do Rei Acabe (André Bankoff”. No meio de um ano intenso, conseguiu conciliar compromissos profissionais e acabou de protagonizar o “Espetáculo Visceral”, de Nanna de Castro: “Fiz um artista plástico contemporâneo e sua dificuldade de acolhimento pelos críticos mais eruditos, que não aceitam o ‘novo’. Essa era uma peça que queria muito fazer, principalmente por suas temáticas fortes e pelo tom cinematográfico que o espetáculo tinha em sua escrita e encenação. Tive ainda a ótima oportunidade de contracenar com Iara Jamra e Chica Portugal, com direção cênica de Dan Rosseto”.

Em ‘Amor de Mãe’, Paulo Gabriel é Genilson, rapaz que paga por erros do passado (Foto de Angelo Pastorello)

Num momento em que o país se ressente tanto de uma política cultural, a existência de cada vez mais produtos de qualidade é vista pelo artista como uma maneira de seguir em frente. “Amor de Mãe” não tem as paisagens deslumbrantes e os cenários lindíssimos que costumam enfeitar as telenovelas, mas parece ter vindo para renovar e revolucionar o gênero. “Produções de qualidade levantam o país, tanto no exterior como aqui dentro. Pensa bem: com a novela, nós entregamos quase um longa-metragem a cada noite. E veja ‘Bacurau’, que fez um sucesso estrondoso e colocou nosso nome lá em cima. A cultura nos traz sensação de pertencimento. Muita gente que é contra o fomento se esquece que a produção de geladeiras também recebe incentivo fiscal”.

O ator faz uma acirrada defesa do setor audiovisual: “É uma pena que o Brasil não veja como indústria. O audiovisual é uma potência, tem uma força enorme. Emprega mais que a indústria automobilística. Além disso, não polui, entretém, informa. Para cada real investido, o retorno é de R$ 1,56. E emprega milhares de pessoas”. (Em um artigo publicado em abril no site “Meio & Mensagem”, o sócio da produtora carioca Cinerama Brasilis, Mario Nakamura, afirma que o audiovisual é uma das atividades econômicas mais estruturadas da indústria criativa, movimentando mais de R$ 20 bilhões anualmente, correspondentes a 1,67 % do PIB. Nos últimos seis anos, a atividade cresceu impressionantes 7% ao ano.) 

Por enquanto, o foco está totalmente no trabalho. Paulo mantém um relacionamento há cinco anos com a atriz paulistana Chica Portugal e quer ter filhos. “Mas vamos fazer na hora certa, com calma e responsabilidade. A vida se acelerou demais nos últimos tempos, as pessoas não querem mais ouvir, entender o que o outro diz. Essa aceleração é uma condição de todos. Tem de entender e não embarcar nisso, não viver condicionado a essa situação. Precisa ter o tempo do descanso, do relaxamento. Estou satisfeito de conquistar uma coisa de cada vez, aos poucos. De celebrar cada conquista, cada vitória sem ansiedade”.

Perguntamos o que o ator costuma fazer nos momentos de lazer em sua São Paulo natal: “Vou muito ao cinema, gosto de ir ao teatro, também…”. Pausa de um segundo e… Desata a rir: “Eu garanto que é a lazer!”

 

 

 

 

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