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Kaysar Dadour faz emocionante relato para agência de refugiados da ONU: “Sinto falta da Síria, mas não esqueço a dor da guerra”

"Ou a guerra te mata, ou te deixa deprimido ou te faz buscar forças para superar tudo e seguir em frente. Eu segui o último caminho, mas nem todo mundo tem a mesma sorte"

Publicado em 02/12/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Karina Kuperman

Como muitos outros refugiados, Kaysar Dadour é um sobrevivente. Ele chegou ao Brasil em 2014, fugindo da guerra em sua terra natal, a Síria, e, de lá para cá, participou do “Big Brother Brasil”, que lhe deu projeção para ir além. Com seu talento, conquistou um papel na trama “Órfãos da Terra”, que falava justamente sobre a questão dos refugiados e, agora, integra o elenco do filme “Carcereiros” ao lado de Rodrigo Lombardi, além de fazer sucesso no quadro “Dança dos Famosos”, do “Domingão do Faustão”. Como uma das importantes vozes da questão dos refugiados, Kaysar compartilhou sua experiência com a ACNUR, agência da ONU especializada em refugiados, e lembrou dos momentos que viveu antes de chegar ao Brasil. “Quando me perguntam se eu sinto falta da Síria, eu automaticamente sou transportado para lá. Sinto muita falta de Alepo. Sinto falta do cheiro da minha cidade, do cheiro da minha escola. Sinto falta do sorriso dos meus amigos. Sinto falta de cada pedaço do que eu tinha lá. Todos os sírios que passaram pela guerra vão te contar uma história diferente. Essa é a minha. Alepo era uma cidade linda. Lá você encontrava tudo que quisesse. Ninguém dormia com fome, pois não faltava pão na mesa de ninguém”, lembrou, sobre sua vida antes da guerra. 

Kaysar Dadour comemorou a chegada de sua família ao Brasil, sete anos após ele ter fugido da guerra (Foto: Reprodução)

“Eu era um escoteiro que viajava dentro do meu próprio país para explorar a natureza. Antes da guerra, eu era apenas um estudante bagunceiro com uma rotina comum, e que jogava futebol três vezes por semana com os amigos e disputava partidas de gamão. De repente, tudo mudou”, contou ele, detalhando o começo da guerra: ”A guerra simplesmente chegou e eu não conseguia entender o porquê daquilo estar acontecendo na minha cidade, no meu país. Todo mundo achou que os conflitos eram algo temporário, que não iriam durar muito. Chegamos a pensar que em uma semana tudo estaria resolvido. Mas na verdade, não vemos sinal de paz mesmo depois de quase nove anos”, lamenta. “Confesso que depois de todo esse tempo, minhas memórias se confundem quando tento lembrar da Síria durante a guerra. Mas da dor e da tristeza eu nunca me esqueço. Não é fácil ver um irmão matando outro irmão, ver vizinhos brigando na rua. Pessoas próximas a mim foram vítimas de uma guerra que eu ainda não entendo”, disse.

Kaysar Dadour (Foto: Reprodução)

Vale destacar que a Síria sofre uma guerra civil desde 2011, quando protestos da população se transformaram em um levante contra o governo de Bashar al-Assad. A reação do governante sírio para combater seus opositores foi usar de violência. A partir daí, várias cidades do país foram devastadas pelos bombardeios e dezenas de milhares de pessoas fugiram para outros países em busca de segurança. “Fico muito triste quando penso nas crianças que nasceram assim que a guerra começou e não conhecem a Síria como ela realmente é. Elas dormem e acordam ouvindo tiros. Elas vivem em um lar onde a preocupação de todos os dias é encontrar água, luz e comida. Que futuro elas vão ter? Não tem como ser feliz desse jeito, não tem como sorrir”, prostetou ele que, para sobreviver, deixou a Síria e foi para a Ucrânia. “Eu estava só e não conhecia ninguém. Ralei demais. Pensei em desistir, mas voltar para a Síria não era uma opção. Ou a guerra te mata, ou te deixa deprimido ou te faz buscar forças para superar tudo e seguir em frente. Eu segui o último caminho, mas nem todo mundo tem a mesma sorte. Sou muito grato a todas as dificuldades que passei porque foi depois de vencer cada uma delas que eu cheguei onde estou agora”, declarou.

Kaysar Dadour atuou em Órfãos da Terra (Foto: Reprodução)

Ele destacou a importância do Brasil para que ele pudesse recomeçar a vida: “Meu coração está pra sempre dividido ao meio, metade é da Síria e metade é do Brasil. A Síria é o lugar de onde eu vim. O Brasil é o lugar onde tive a oportunidade de retomar a vida que fui obrigado a deixar para trás. Nunca pensei que me sentiria em casa, na minha cabeça, o Brasil era samba, futebol e praia. Quando cheguei em Curitiba, não vi ninguém sambando e ainda por cima fazia muito frio. Eu pensei: ‘ué, será que estou no país certo?’. Para completar, eu não falava nenhuma palavra em português. Ainda bem que eu pude contar com a ajuda do povo brasileiro, que acolhe, que é caloroso, feliz, animado. O Brasil tem uma alegria que só existe aqui. Esse país acolheu muita gente e me deu algo que eu não tinha mais na Síria: oportunidade de seguir com a minha vida. Todos os dias eu luto pra ser feliz. Não desisto, não desanimo. Eu continuo firme, porque depois de tudo que passei, sei que o melhor dia do mundo é o hoje”, afirmou.

Kaysar no BBB (Foto: Reprodução)

Kaysar contou, ainda, que a experiência no “Big Brother” foi fundamental para completar seus sonhos: “Participar de um reality show foi uma experiência inesquecível e que abriu muitas portas para a nova vida que comecei a construir aqui no Brasil. Mas essa nova vida só ficou completa quando minha família finalmente voltou a fazer parte dela. A gente não se via desde 2011. Há sete anos eu não abraçava minha mãe. Ter minha família por perto me deu forças para redescobrir coisas sobre mim que eu pensei terem desaparecido. Cheguei a sonhar em ser ator quando era pequeno. Depois de um tempo, a vontade sumiu e, na verdade, o sonho não tinha sumido. Ele só estava esperando a oportunidade certa para surgir de novo, e mais forte do que nunca”.

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