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Camila Pitanga lembra morte de Domingos Montagner: “Entrei em total desespero. Intimamente eu entendia que talvez a gente não o encontrasse”

"Não coloco no passado, porque essa memória está muito viva. Domingos é amado e respeitado", diz

Publicado em 28/06/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Karina Kuperman

Três anos já se passaram, mas, até hoje, é impossível não lembrar da trágica morte do ator Domingos Montagner nos bastidores de “Velho Chico”, trama de 2016. Única que presenciou o fatídico momento, Camila Pitanga ainda tem marcas do dia em que o colega submergiu no rio São Francisco para nunca mais voltar. Em entrevista à “Marie Claire”, ela relembra a tragédia que vivenciou e conta detalhes da triste história que ocorreu na divisa entre Sergipe e Alagoas. “Vimos em frente ao hotel, que ficava meio no alto de uma montanha, uma enseada. Fiquei até na dúvida se era um lugar particular, porque estava tudo novo, tinha barraca. As pessoas podiam estar ali, mas, como era dia de semana, estava vazio. A praia era muito tranquila. Não tinha marola ou nada que mostrasse ter algum perigo. Tanto que a gente mergulhou e estava tudo bem”, lembra.

Camila e Domingos viveram o casal Tereza e Santo em “Velho Chico” (Foto: Reprodução/TV Globo)

“Quando nadamos em direção ao grande leito do rio, percebi, numas pedras, uma marolinha. Mas minha preocupação era com as pedras e falei: ‘Domingos, acho melhor voltar’, porque fiquei com medo de a gente se machucar. No que a gente tentou voltar, não conseguia sair do lugar. Tive um momento de medo, mas disse: ‘Calma, Camila’, porque eu tinha uma noção de que tinha uma lateral toda de pedra. Ao invés de tentar lutar contra a correnteza, nadei para o lado, em direção às pedras, e falei: ‘Vem pra cá, é tranquilo’. Mas o Domingos me olhava e não falava nada. Fui até ele, o puxei, porque eu estava despreocupada, e disse: ‘Tô te falando. É só vir pra cá’, e voltei à pedra. Duas vezes tentei buscá-lo, mostrando que não tinha perigo, mas ele dizia que não conseguia. Na verdade, ele falou muito pouco”, conta. “Na última vez que eu voltei à pedra, Domingos olhou muito grave, com um misto de… E ali eu entendi o perigo. Ele submergiu uma vez. Voltou. Não foi uma coisa desesperada. Ele fez um gesto assim de como quem diz: ‘não vai dar’, e não falou mais. Submergiu… E eu não o vi mais.”

A amizade nos bastidores (Foto: Reprodução/TV Globo)

A partir daí, a atriz entrou em pânico e correu para buscar ajuda. “Foi total desespero. Alguma coisa me dizia que eu não podia mais ir ali. Tudo isso parece uma eternidade, mas foram segundos. Lembro de me bater, querendo acordar. Comecei a chamar as pessoas no meu campo de visão. Tinham dois jovens, para quem eu gritei, que vieram num barquinho, e começamos a busca. Quando eu subi na embarcação, estava muito nervosa. Daí, entramos no leito do rio e foi um novo momento de entendimento, de compreensão do que estava acontecendo, porque, de cima, você via no grande leito, bolsões… Intimamente eu entendia que talvez a gente não o encontrasse. Depois passei o dia inteiro no meu quarto, de onde dava para ver o rio. Foi uma agonia”, diz.

“Velho Chico” foi a trama das 21h em 2016(Foto: Reprodução/TV Globo)

Após o acidente, Camila tirou um momento sabático na vida e na carreira. Não sem antes acabar de gravar a trama das 21h. “Eu fiquei dois dias em casa, com a minha família, meus amigos todos me cuidando, com muita solidariedade. Recebi muitas manifestações de carinho do Brasil inteiro. Andava na rua e tinha gente que caminhava na minha direção e me dava um abraço. Entendi que terminar as gravações da novela era uma forma de fortalecimento. Faço terapia desde os 19 anos, e mantive num processo continuado. São etapas em que você revive a situação. Contar é reviver”, explica ela, que se apegou na família do ator para, juntos, lidarem com a dor. “Fiz questão de ir à casa do Domingos contar à família o que aconteceu naquele dia. Eu sentia que toda as vezes que eu contava, ainda que tivesse muita emoção e dor, tirava de um lugar… Essa questão de afogamento lança imagens. Cada um cria um repertório, que é pior do que se passou. Senti que eu acalmava as pessoas ao contar. Mantenho contato com a Luciana Lima, mulher do Domingos. Em meio a essa dor, ter o respeito dela foi uma das coisas mais comoventes que vivi. Luciana me transmite muita força. É uma grande mulher. A família, como um todo, tem sido de um respeito, me acolheu na dor, entendeu. Isso me fortaleceu bastante”.

Camila e Domingos nas gravações de “Velho Chico”(Foto: Reprodução/TV Globo)

Agora, Camila tenta guardar apenas a positividade do amigo. “Fico com a memória do entusiasmo, da alegria que era aquele homem lindo, enorme, fazendo aquelas cenas de palhaço. O Domingos não era um cara expansivo, mas, sim, muito carinhoso com todo mundo. Todos da equipe tinham um carinho enorme por ele, porque quando ele abraçava, ele abraçava! Quando olhava, dava atenção plena. Era muito íntegro. Conhecer a família dele mais perto, a Luciana, diz muito sobre quem ele é. Não coloco no passado porque essa memória está muito viva. Domingos é amado e respeitado. Acho que é isso que fica. Essa integridade na simplicidade. Ele era totalmente respeitoso com qualquer pessoa.”

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