Longe da TV, Mara Carvalho brilha no teatro em solo que reflete sobre invisibilidade feminina: “Já vivi isso”


Recuperada de um atropelamento, a atriz está em cartaz com ‘Gala Dalí’, que foi muito mais do que ‘a esposa de Salvador Dalí’, e se tornou uma das figuras centrais da vanguarda artística do século 20, mesmo sem ser plenamente reconhecida como tal. “Somos ‘abafadas’ quase que diariamente. Fui casada com um homem famoso (Antônio Fagundes), e sempre estive aquém da sua imagem. Eu ficava buscando o meu espaço”, revela. Mara, que há 15 anos não atua em novela da Globo, reflete sobre a ausência: “Não faço por falta de oportunidade, só não tenho ‘Turminha’”

*Por Brunna Condini

Mara Carvalho está em cena como Gala Dalí (1894-1982), em solo homônimo, no Mi Teatro, em São Paulo, sala de espetáculos que é propriedade da atriz e empresária. Ela decidiu escrever, produzir e protagonizar um espetáculo sobre Gala tantas vezes esquecida da história da arte, que foi muito mais do que ‘a esposa de Salvador Dalí‘, e se tornou uma das figuras centrais da vanguarda artística do século 20, mesmo sem ser plenamente reconhecida como tal, já que no período mulheres eram “abafadas” pelas figuras masculinas. Mara faz um movimento que é também um reflexo de si mesma e de tantas outras mulheres: “Ela se expressava através dos homens, sempre vinha depois. Eu também vivi isso. Por incrível que pareça, somos ‘abafadas’ quase que diariamente, se você olhar os pequenos detalhes. No ramo artístico, fui casada com um homem famoso (Antônio Fagundes, por 12 anos, com quem teve Bruno Fagundes), e sempre estive aquém da sua imagem. E ele é realmente uma pessoa icônica, tem a sua importância muito forte, mas ficava buscando o meu espaço, não só no lado profissional, como no pessoal, ao conviver com ele”, diz.

“Hoje também namoro uma pessoa conhecida, e mesmo tendo a minha trajetória, ainda publicam matéria assim: “a namorada do Júlio Casares (presidente do São Paulo Futebol Clube) e tal”, entendeu? Ele tem a sua importância, e eu, a minha. Estou realizando um trabalho que nasceu de mim, escrevi, fui atrás de patrocínio, e quem patrocina é uma mulher, a Mari Luz Gomes, que se apaixonou pelo projeto e bancou. Então, somos figuras femininas batalhando, mas a importância, a visibilidade, normalmente vem através deles, sabe? Parece que o homem vem, e daí nasce uma mulher. Não, quem engravida o mundo é a mulher, não é o homem”.

Nesta entrevista, a artista fala sobre estar há 15 anos sem atuar em uma nova novela da Globo e se ver atualmente na reprise de “A Viagem”, sobre o novo trabalho, comenta ainda sobre o episódio do atropelamento que sofreu recentemente e discorre sobre o orgulho que sente do filho Bruno Fagundes.

Mara Carvalho em cena, por inteiro: sem espaço na TV, ela brilha no teatro, reflete sobre invisibilidade e exalta o filho Bruno Fagundes (Divulgação)

Mara Carvalho em cena, por inteiro: sem espaço na TV, ela brilha no teatro, reflete sobre invisibilidade e exalta o filho Bruno Fagundes (Divulgação)

Mara fala do filho Bruno Fagundes, que assumiu sua sexualidade publicamente e se envolveu com projetos que discutem identidade e liberdade. “Sou 100% Bruno. Ele é meu chão, meu coração, minha cabeça. Ele é tudo”. E mais do que afeto, há admiração pelo artista que Bruno se tornou. “Ele não se apoia em ninguém. Vai atrás dos próprios sonhos, da própria voz, da própria verdade. É isso que mais me orgulho. Ele é um homem responsável, que luta pela sua profissão, pela sua liberdade, pela sua vida, pela sua condição financeira, não se apoia em ninguém, está sempre atrás dos seus objetivos”.

Leia mais: Bruno Fagundes dá start à peça e filme na Alemanha com temática LGBT e não teme ser rotulado: “Não faria diferente”

E continua se declarando:

Meu filho é um homem de respeito, trabalhador, amoroso, um filho incrível, que cuida de mim, que manda eu descer da árvore, que me ajuda a ter disciplina. Não consigo fazer nada que vá mudar a rota ou a rotina da minha vida sem trocar com ele. Ele é meu pé direito, meu pé esquerdo, minha mão, minha cabeça, meu coração – Mara Carvalho

Bruno Fagundes e a mãe Mara Carvalho (Reprodução/Instagram)

Bruno Fagundes e a mãe Mara Carvalho (Reprodução/Instagram)

Atropelamento

A artista foi atropelada por um manobrista há pouco mais de um mês em um restaurante em São Paulo, se machucando e chegando a levar pontos. Como ficou essa história? “Fui pegar meu carro, o manobrista trouxe para me entregar e quando fui passar por trás do meu carro para sentar no motorista, ele deu ré. E olha que meu carro tem sensor de ré, tem câmera de ré, mas ele me jogou longe”, lembra.

“Em um acidente é muito difícil você responsabilizar alguém. Desta maneira, não responsabilizei ninguém a não ser o incidente. Na questão financeira também não quis nenhum reparo, porque acho que a vida não tem preço, né? E eu não saberia nem como contabilizar isso, partindo do princípio de que estou bem, viva. Acho que o que passei serve para que as pessoas tenham mais atenção. Serve de alerta”.

"Por incrível que pareça, nós, mulheres, somos 'abafadas' quase que diariamente, se você olhar os pequenos detalhes" (Divulgação)

“Por incrível que pareça, nós, mulheres, somos ‘abafadas’ quase que diariamente, se você olhar os pequenos detalhes” (Divulgação)

Sobre ‘A Viagem’: aprendizados e saudades da TV

Longe das novelas há 15 anos, Mara viveu Regina em ‘A Viagem’ (1994), que está sendo reprisada no Vale a Pena Ver de Novo. Sua personagem é uma colega de trabalho que morre de inveja de Estela (Lucinha Lins) e, no decorrer da trama, vira amante do ex-marido dela, Ismael (Jonas Bloch). “A TV é um veículo que adoro fazer. Mas moro em São Paulo, então já tenho uma certa dificuldade de ser selecionada para qualquer trabalho no Rio de Janeiro. Fora isso, embora o teatro seja o lugar onde você se forma, se qualifica, muita gente da TV tem preconceito com o ator que faz muito teatro, porque diz que é muito ‘teatral’. Dou risada disso, porque acredito que tudo é uma questão de equalização, de ajuste para cada veículo. Está aí o exemplo do Fagundes mesmo, que transita por todos os lugares”, observa.

 Mara Carvalho e Jonas Bloch em cena de 'A Viagem' (Reprodução/Globo)

Mara Carvalho e Jonas Bloch em cena de ‘A Viagem’ (Reprodução/Globo)

“Fora isso, não estou nas ‘bolhas’, trabalho muito…não que os outros não trabalhem, mas não tenho muito tempo, disposição de ficar transitando. Dentro disso, as pessoas chamam os amigos para trabalhar, você vê os mesmos diretores, atores nos produtos…não consegui fazer parte dessa ‘bolha’. A minha ‘bolha’ é só o trabalho, não fiz esse caminhar social. E me satisfaço muito no teatro. Sou empreendedora mesmo, na vida e na arte”.

Não faço televisão por falta de oportunidade, mas estou sempre trabalhando, só não tenho ‘turminha’. Gosto da arte, dos artistas. Estou aberta a fazer TV, cinema, mas nem testes faço, porque as pessoas ‘nicham’ as outras. Chega a quase ser um preconceito. Ou talvez não. Talvez seja impressão minha, e como o mercado está muito saturado, as oportunidades são para poucos – Mara Carvalho

"Não faço televisão por falta de oportunidade, mas estou sempre trabalhando, só não tenho ‘turminha’. Gosto da arte, dos artistas" (Divulgação)

“Não faço televisão por falta de oportunidade, mas estou sempre trabalhando, só não tenho ‘turminha’. Gosto da arte, dos artistas” (Divulgação)

Autonomia artística: sobrevivência e convicção

Mara diz que nunca buscou autonomia como bandeira, mas como caminho natural: “Eu sempre fui atrás do que me interessava. Quando decidi falar sobre Gala, fui cavar onde ninguém cavou. Não tem entrevista com ela, não se conhece nem sua voz. Tudo que temos vem dos homens que a cercavam”. Com humor e lucidez, diz que a autonomia artística é essencial, mas não romantiza: “Você sobrevive de fracasso ou sucesso, porque depende de você. Mas precisa de equipe, de apoio, de coletividade. É autonomia, sim. Mas não solitária”. E conclui: “Sempre fiz as minhas escolhas. Tem essa questão artística, para criar oportunidades, também construí o meu teatro. E tem o lado empresarial, tenho meu restaurante. Sempre fui muito empreendedora e busquei novidades, tentando ser visionária”.

Gala 

No solo dirigido por Ulysses Cruz, a atriz dá voz a Gala Dali, que revive momentos marcantes da sua vida e conversa com o público. Fala do seu primeiro casamento com o escritor Paul Éluard (1895-1952) o encontro com Salvador Dalí, a luta para se impor num universo dominado por homens e o constante julgamento social. E reflete sobre amor, arte, gastronomia, dinheiro e poder, vida e morte. “É uma história feminina, de luta, de sensibilidade, de amor à arte, paixão pelo belo. Ela tem vários ingredientes que me tocam. Cheguei à Gala porque tenho um restaurante espanhol ( El Mercado Ibérico, na Pamplona, em São Paulo), queria fazer uma conexão gastrocultural com a Espanha. Comecei a pesquisar pessoas icônicas, e lógico, dei de cara com Salvador Dalí, que além de ser um artista extremamente talentoso, tem uma personalidade super excitante, estimulante. Gala Dali se expressou através dele e de outros homens. Porque ela também era artista, escrevia, mas a mulher era totalmente apagada. Gala é uma mulher significativa, além de ter todos os ingredientes humanos que me atraem. A gente se conecta por essas lutas, não só femininas, mas de existir e se realizar como artista”.

Mara Carvalho dá vida a Gala Dali em solo (Divulgação)

Mara Carvalho é Gala Dalí em solo (Divulgação)