Teatro & Pensata

Atrizes-cantoras Julia Tizumba e Késia Estácio estreiam em ‘Dancin’ Days’, que volta à cena na Gávea

Encantadas com a liberdade comportamental dos anos 1970, revelada pelo musical, elas conversaram sobre racismo, política e diversidade com o Site HT

Publicado em 15/09/2019 | Por Heloisa Tolipan

O musical recria o clima libertário da discoteca aberta em 1976 (Foto: Leo Aversa)

*Por Jeff Lessa

Desde que estreou no ano passado, o musical ‘O Frenético Dancin’ Days’ já foi visto por mais de 120 mil pessoas entre Rio e São Paulo e em seis outras capitais brasileiras. Escrito pelos jornalistas Nelson Motta e Patricia Andrade, o espetáculo conta a história da boate que, por apenas quatro meses em 1976, funcionou no Shopping da Gávea, no lugar onde hoje fica o Teatro dos Quatro: o contrato previa que a casa noturna só permaneceria aberta até a instalação do teatro. A vida curta, porém, bastou para causar uma revolução na náite e na cultura carioca, pois a discoteca não apenas marcou a chegada da disco music ao país como lançou a girl band, ‘As Frenéticas’ e inspirou a novela homônima de Gilberto Braga, megassucesso da Globo exibido entre julho de 1978 e janeiro de 1979. Mais de quatro décadas depois, a lendária boate finalmente voltou ao shopping na sexta-feira 13, com a reestreia da peça no Teatro Clara Nunes para uma temporada de dois meses.

Uma curiosidade sobre o musical, que marcou a estreia de Deborah Colker na direção, é que boa parte do elenco não tinha a menor noção do que foi a incensada discoteca dos anos 1970 antes de ler o roteiro. A novela? Não eram sequer nascidos quando foi ao ar. Esse é o caso das atrizes Julia Tizumba e Késia Estácio, ambas na faixa dos 30 anos, que acabam de entrar para a trupe. É interessante notar como as duas, nascidas no final da década de 1980, se surpreendem com a imensa liberdade de expressão e de costumes vigente em pleno regime de ditadura no Brasil. “Em 1976 havia uma liberdade de expressão incrível e o Dancin’ Days era um ponto de encontro de pessoas totalmente livres, que simplesmente viviam”, acredita a mineira de BH, Julia. “Acredito na arte como ferramenta de transformação”.

As Frenéticas trabalhavam como garçonetes e apresentavam um número musical (Foto: Leo Aversa)

Késia Estácio se mostra mais otimista em relação aos avanços no comportamento dos brasileiros. “Estamos caminhando. Às vezes para trás”, brinca. “Mas sinto que as forças a favor do movimento têm crescido. Estamos mais interessados em desconstruir padrões e descolonizar. Penso que as pessoas que realmente compreendem a importância da mudança se atraem e se fortalecem. E aí a coisa anda um pouquinho mais”.

As personagens das atrizes não podiam ser mais diferentes – embora ambas sejam baseadas em mulheres reais. Julia Tizumba interpreta a alegre e divertidíssima Madalena, uma empregada de Nelson Motta que, na ficção, torna-se sócia da boate – o jornalista foi um dos fundadores do Dancin’ Days. “Ela existiu, mas na vida real não foi dona da discoteca. Era daquelas empregadas trabalhadoras e muito espertas que passam a fazer parte da família dos patrões, sabe? Na peça, ela ascende socialmente e se torna uma das principais testemunhas da história da boate. Mas acaba se tornando arrogante, o que eu acho que faz parte da defesa dela como ser humano. Ainda assim, é muito divertida”, defende Julia.

A frenética Dulcilene Moraes, conhecida pelo nome artístico de Dhu Moraes, hoje com 66 anos, é a personagem de Késia. A jovem se entusiasma por interpretar uma pessoa viva e considera a responsabilidade dobrada justamente por isso. “Mas é uma responsabilidade boa”, ressalta. “Minha alegria em representá-la vem do fato de ela ser cantora de verdade. Admiro demais e me sinto muito honrada por fazê-la”. Assim como Dhu, que além de cantora é atriz com mais de 20 trabalhos só na TV Globo, Késia é apaixonada pela arte de interpretar desde que ingressou no grupo Nós do Morro, em 2010. A música é a outra imensa paixão e a levou a ser finalista da primeira edição do ‘The Voice Brasil’, em 2012, apadrinhada por Lulu Santos. De lá para cá, a moça nascida e criada em Nova Iguaçu já lançou dois singles: ‘Sou Livre’, em 2014, e ‘Isso é Amar’, em 2017.

A cantora Késia Estácio, que também está em Elza, faz sua estreia (Foto: Leo Aversa)

Pois foi graças a esse talento múltiplo que Késia e Julia (sim, as duas atrizes-cantoras já haviam trabalhado juntas) tornaram-se companheiras de elenco no musical ‘Elza’, de Vinícius Calderoni, sobre a vida da cantora carioca Elza Soares. O autor optou por contar a história com sete atrizes, cada uma vivendo um momento de sua vida, formando um mosaico que, visto por inteiro, compõe um retrato tocante da trajetória da cantora. Para Késia, particularmente, emendar dois trabalhos interpretando mulheres vivas foi especial (Elza conferiu e aprovou). “São duas mulheres negras, cantoras, cariocas e rainhas com histórias diferentes, caminhos diferentes. Acredito que nós três nos encontramos em prazeres e dores semelhantes enquanto negras, embora sejamos de gerações diferentes”, emociona-se.

Leia Mais – Com desenho surrealista de Laerte, Elza Soares aciona suas raízes e divulga a capa do álbum ‘Planeta Fome’

Mas será que essa variedade de trabalhos significa que o mercado está finalmente se abrindo para atrizes negras? “Acredito que sim”, diz Késia Estácio. “Vamos seguir observando, cobrando e nos colocando. Não pode ser só uma fase, um modismo. Ver os negros ocupando todos os espaços, inclusive o topo, precisa ser encarado como uma coisa normal, do dia a dia”.

Do ponto de vista de Julia Tizumba, é necessário ir devagar com o andor. “Somos 54% da população, mas a desigualdade permanece gritante. Basta ver quem está nos melhores cargos, nas universidades, no poder. Como sou fruto de uma mistura de preto retinto com branca, tenho algumas vantagens. Ainda assim, é como se não pudesse errar, como se tivesse sempre que me provar. E não é só a questão do racismo. Veja a polêmica do beijo entre dois personagens de quadrinhos na Bienal. Aquilo é um retrato com lupa da nossa sociedade”.

Vivemos numa bolha de artistas e intelectuais, pessoas que já pensam que o importante é sermos livres e felizes. Mas a realidade é outra”, pontifica a atriz, formada em Jornalismo pela PUC-MG e em Teatro pela UFMG, com tese de mestrado sobre Teatro Negro.

E aqui o nosso papo retorna à questão da diversidade, de que falávamos no começo dessa conversa sobre a boate Dancin’ Days e a liberdade de se expressar que os frequentadores encontravam no lugar. Mais atual e urgente que nunca, o assunto vem gerando debates acalorados no país desde que rolaram atos como a censura à exposição ‘Queermuseu’, no Espaço Cultural Santander, em Porto Alegre, e a tentativa de apreensão da graphic novel ‘Vingadores – A Cruzada das Crianças’, na recém-encerrada Bienal do Livro do Rio.

Com uma filha de três anos, Iara, Julia garante que não esconde da menina a realidade atual: “Tenho amigas lésbicas que frequentam a minha casa, trocam carinhos e ela vê. Está crescendo nesse meio. O pai é argentino, de cabelo comprido, descendente de índios mapuche, o avô é louro de olhos azuis e a avó é a cara da (cantora argentina) Mercedes Sosa. Tenho amigas com filhos meninos que se vestem com as fantasias de fada, bailarina, princesa da Iara quando vão lá em casa e as mães não se importam. A criança é uma esponja, um cartão em branco. Cada uma vai ser o que quiser ser. Eu escolhi para ela uma poesia que compreende a liberdade”.

Julia Tizumba, de amarelo, integra o elenco do musical ‘O Frenético Dancin’ Days’ (Foto: Leo Aversa)

Na mesma linha de raciocínio e igualmente fascinada com a liberdade de tempos idos, Késia Estácio também gostaria de viver o clima mais descontraído da época em que a disco music ditava modas e manias: “Mas acho que temos muito para fazer ainda. Muito! Até chegarmos ao ponto de a diversidade não ser mais algo a se questionar”.

Então… abra suas asas, solte suas feras e entre nessa festa.

SERVIÇO

O Frenético Dancin’ Days

Teatro Clara Nunes (Shopping da Gávea): Rua Marquês de São Vicente 52, Gávea – 2274-9696

Setembro:

Sexta e sábado, às 21h; domingo,  às 20h

Outubro:

Quinta a sábado, às 21h; domingo, às 20h

Ingressos:

Quinta (a partir de outubro) e sexta: R$ 75 (popular) e R$ 130

Sábado e domingo: R$ 75 (popular) e R$ 160

12 anos

90 minutos

www.tudus.com.br

Pesquisas relacionadas