Música & Badalo

Com desenho surrealista de Laerte, Elza Soares aciona suas raízes e divulga a capa do álbum ‘Planeta Fome’

O álbum que será lançado no dia 13 de setembro, terá o single 'Libertação' (Eu não vou sucumbir) disponibilizado na próxima sexta (dia 16). A cantora fará um show potente no Rock In Rio, com As Bahias e a Cozinha Mineira, Jéssica Ellen e Kell Smith

Publicado em 12/08/2019 | Por Heloisa Tolipan

Elza Soares com mais de 60 anos de carreira é uma das maiores artistas da música brasileira (Foto: Reprodução)

*Por Rafael Moura

Era 1953, quando Elza Soares decidiu se aventurar e encarar Ary Barroso, na Rádio Tupi, no programa ‘Calouros em Desfile, o apresentador viu a jovem artista em seus trajes pobres e foi ácido e preconceituoso ao perguntar “de que planeta ela teria vindo?”. A cantora, ainda desconhecida, respondeu fortemente: “Do mesmo planeta que o senhor, Seu Ary. Do Planeta Fome”. Neste dia ela começou a trilhar os primeiros passos de sua carreira ao apresentar o samba-canção ‘Lama’, de Paulo Marques e Aylce Chaves, 1952, conquistando a nota máxima dos jurados. Essa história nunca mais saiu da cabeça da diva. Não é por acaso que, um ano depois de lançar ‘Deus é Mulher‘, a rainha eleita a “melhor cantora do milênio” pela BBC, em 1999, descrita como ‘uma mistura de Tina Turner e Celia Cruz‘ pela Time Out, lançará no dia 13 de setembro o seu trigésimo quarto álbum da carreira batizado ‘Planeta Fome’.

A capa do álbum Planeta Fome’, de Elza Soares, ilustrada pela cartunista Laerte Coutinho

Para a cantora, seu passado humilde, a acompanha desde sempre e serve de base para que ela não se perca diante de seu sucesso. “Eu não fico pensando em sucesso. Penso que tenho que todos os dias abrir a janela da vida e fazer o que tenho de fazer: lutar, trabalhar e sonhar. Ainda me vejo como aquela menina de Água Santa. Eu morava na comunidade e tinha o sonho de cantar e viver como cantora profissional. Hoje, quando me dizem que sou isso, sou aquilo, é estranho, porque sou uma operária da música que luta todos os dias para sobreviver no mundo”, revelou, em entrevista ao jornal carioca Meia Hora.

O disco foi produzido por Rafael Ramos, que é responsável também, por outros dois grandes lançamentos de 2019 – Ponto Cego, do Dead Fish e Matriz, da Pitty, e sairá pela gravadora Deck, em edição digital e nos formatos de CD, LP e fita cassete, com uma capa surrealista assinada pela cartunista e chargista Laerte Coutinho, feita sob encomenda para Elza. Na imagem, um planeta populoso, poluído e diverso entre símbolos oníricos. Um trem atravessa o desenho, remetendo às origens da cantora nascida e criada no subúrbio carioca. O álbum tem participações do rapper BNegão em ‘Blá blá blá’ e de Rafael Mike, cantor projetado no grupo carioca Dream Team do Passinho, que é autor e convidado da faixa ‘Não tá mais de graça‘.

Capa do álbum de Elza Soares lançado em 2018, ‘Deus é Mulher’ (Foto: reprodução)

Para conter a ansiedade dos fãs, no próximo dia 16, terá o lançamento do primeiro single, ‘Libertação‘ (Eu não vou sucumbir), música inédita de Russo Passapusso, do BaianaSystem. Com uma capa assinada por Filipe Cartaxo, artista responsável pela identidade visual da banda baiana, a faixa trás ainda a voz, suave e potente, de Virgínia Rodrigues e a presença da Orkestra Rumpilezz, representada pela figura de Letieres Leite, maestro e mentor da big band de Salvador. Nessa canção, o #ElzaTeam evocou o universo marítimo do cancioneiro de Dorival Caymmi (1914-2008) e transportou para um poderoso suingue baiano.

A diva Ela Soares no desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel, em 2020 (Foto: reprodução)

A diva carioca se tornou uma grande voz para as novas gerações por conta de seus recentes álbuns que trazem um discurso politizado, um atrativo para conquistar um público cada vez mais jovem. Além de parcerias com nomes queridos pela garotada, como Pitty, Baiana System, Liniker e Emicida, o que a fez ser amada e conquistar o coração desses novos fãs. Outro tema em comum entre Elza e ‘ seu fã-clube’ é a pauta do feminismo e a igualdade de gênero. A cantora, que sofreu com um passado de abusos e maus tratos, é considerada um ícone da luta pelo direito das mulheres. O hino ‘Maria de Vila Matilde‘, do álbum ‘A Mulher do Fim do Mundo‘, lançado em 2015, deu voz para muitas mulheres na luta contra o feminicídio. Os versos que entoam:

‘Cadê meu celular?

Eu vou ligar pro 180

Vou entregar teu nome

E explicar meu endereço

Aqui você não entra mais

Eu digo que não te conheço

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim’, pede a solidariedade de todos para essa causa que precisa ter fim. Elza é presença confirmada e aguardada, no Palco Sunset do Rock in Rio, no dia 29 de setembro, numa apresentação que contará com a presença de As Bahias e a Cozinha Mineira, Kell Smith e Jéssica Ellen, um show que promete incendiar a Cidade do Rock com muita música, luta e amor.

Quando se trata de Elza Soares, nada é doce. A musa traz uma expressão dura e marcante com feições felinas como uma tigresa ou uma leoa, um sorriso largo e rasgado, sobrancelhas desenhadas altas e arqueadas, emoldurada por suas duras experiências de vida, coroada por um cabelo afro volumoso, quase sempre adornado com flores ou um turbante. Com uma voz potente e metálica tudo o que Elza transmite é força. Ao longo de mais de 60 anos de carreira, a cantora será enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel em 2020, com ‘Elza Deusa Soares’  desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos. Ela é um clássico que provou que vai continuar se adaptando às novas gerações e aos novos mundos.

Cartaz do enredo ‘Elza Deusa Soares’ da Mocidade Independente de Padre Miguel, em 2020

Em 2016, a mega artista com ‘A Mulher do fim do mundo‘ que discute racismo, machismo e feminicídio, ganhou o Grammy Latino de melhor álbum de Música Popular Brasileira; ocupou a décima posição na cobiçada  lista do editor de artes Jon Pareles, do jornal The New York Times e ficou entre os 50 melhores discos da lista do Pitchfork, um site independente de crítica musical. Por conta desse trabalho, Elza Soares foi eleita personalidade Cultural de 2016 nos Prêmios Bravo! Em 2018, ‘Deus é Mulher‘ foi indicado novamente ao Grammy mostrando a força dessa guerreira brasileira.

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