*por Rodrigo Otávio
Anunciada com discreta pompa e ampla desconfiança, a volta de “Terra Nostra “em “Edição Especial” parecia fadada a repetir o destino tortuoso de sua primeira reprise. O temor dos noveleiros era compreensível: tratava-se de uma narrativa conhecida pela “barriga” — aquele trecho alongado em que a ação estaciona — e pela memória ainda viva do fiasco de 2004, quando o folhetim, exibido no “Vale a Pena Ver de Novo” de 7 de junho a 5 de novembro de 2004, não raro sucumbia diante dos enlatados vespertinos do SBT.
Naquele ano, parte dos capítulos — nos dias 16, 18, 25 e 26 de agosto — sequer chegou ao ar por causa das transmissões dos Jogos Olímpicos. Ao fim, encerrou-se em 106 capítulos, quatro a menos do previsto, muito distante dos 221 da exibição original. Duas décadas depois, no entanto, a novela reencontrou um público disposto a lhe conceder algo raro na TV aberta: segunda chance com boa vontade. A audiência, embora errática, se estabilizou numa órbita confortável de dois dígitos. Houve quedas abruptas — em novembro, em duas ocasiões, o índice escorregou para baixo dos 10 pontos — mas a média geral se manteve firme na casa dos 10 pontos. A última quinta-feira, 27, registrou 10,1. Em outubro, houve um breve surto de euforia: 13 pontos, com picos de 15. Já nos dias 24/11, 12,2; no dia 25/11, 11,7; em 19/11, 10,7; em 18/11, 11,9.
A recuperação tem menos a ver com nostalgia do que com precisão cirúrgica de programação. A “Edição Especial”, instalada logo após o Jornal Hoje, enfim consolidou um território que a Globo tentava, há anos, domesticar. Tanto o extinto Vídeo Show quanto o trôpego Se Joga patinavam na faixa e invariavelmente cediam terreno para a Record. O ajuste veio em 2021, quando “O Cravo e a Rosa” devolveu alguma musculatura ao horário. A partir daí, a emissora passou a testar reprises capazes de combinar apelo popular e custo baixo, uma fórmula que “Terra Nostra”, contrariando prognósticos, absorveu com inesperada vitalidade.

Fábio Dias era par de Cláudia Raia em “Terra Nostra” (Foto: Reprodução)
O folhetim de Benedito Ruy Barbosa, encontrou acolhida entre espectadores mais maduros, afeitos a histórias calcadas no melodrama clássico: o herói de porte viril, a mocinha lacrimosa, as desventuras familiares embaladas por figurinos de época. Uma sorte que não contemplou Rainha da Sucata, cujo retorno, este sim festejado à partida, e que entrou em derrapagem contínua e já compromete o início da grade noturna.
As duas trajetórias, espelhadas e contraditórias, formam uma parábola conhecida da televisão: a audiência, essa criatura inquieta, permanece refratária a previsões e certezas. Resta acompanhar os próximos – e certamente chorosos – capítulos da saga ítalo-brasileira que ocupa as tardes.
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