*por Vítor Antunes
Trazer jovens atores para o palco talvez nunca tenha sido tão desafiador. Vivemos uma época em que as urgências são múltiplas e quase sempre digitais. É nesse contexto que Stella Rabello dirige seu primeiro espetáculo teatral, “Alguma Coisa Falta Aqui”, em cartaz no Teatro Domingos Oliveira, na Gávea. Ao reunir quatro jovens intérpretes, Stella tenta construir um espaço de escuta e confiança — um território quase utópico no tempo das notificações infinitas.
Tem sido realmente apaixonante o espaço de troca e confiança que a gente está construindo. Muito bonito ver o quanto os quatro atores são talentosos, ousados, preparados e, o mais lindo, o quanto se conhecem e se potencializam. O que me confirma que apostar nas parcerias e se juntar com os seus é mesmo a beleza do fazer teatral” – Stella Rabello
Mas o mesmo tempo que permite novas formas de criação também impõe outras pressões. “A questão dos seguidores e das redes sociais é o desafio de se destacar numa área muito volátil, que é a rede social. O negócio que você faz num dia, no outro viraliza e não tem muita substância. Eu acho lamentável que o talento, que o trabalho, né, o estudo, a profundidade do trabalho do ator — que é muito vasta, ou um trabalho muito sensível, que mexe muito com o psicológico — acaba tornando-os mais expostos. Eles têm menos defesas, menos proteções. Acho que a rede social libera um pouco também essa cara de pau, no melhor sentido da palavra, essa ousadia, esse ímpeto, assim. E a exposição acaba se revelando uma faca de dois gumes.”
Stella, no entanto, pondera: “Em paralelo, hoje, eu tenho visto muitos jovens atores e tenho ficado surpresa como eles estão mais preparados do que eu esperava. Quando eu era jovem, tinha uma coisa de querer entrar na Globo, e isso continua existindo. Mas eu tenho visto os atores jovens muito interessados em teatro, escrevendo mais cedo — coisa que as pessoas da minha juventude faziam muito pouco. Acho que, muito diferente da minha época de jovem atriz, hoje eu vejo caminhos muito mais individuais para o jovem ator, que acaba tendo uma pressão para se destacar, para ser único. Eu observo muito isso: jovens atores tentando se afirmar, e especificamente em relação ao teatro, sinto que isso pode gerar uma geração de pessoas fazendo coisas muito parecidas, tentando se destacar nesse formato muito rápido, onde a resposta é imediata.”
Os jovens atores têm uma característica muito linda, e também muito louvável, de muita coragem e de desejo de descoberta de linguagem, de pesquisa. Do que realmente representa eles — essa força da juventude, a disposição, a ligação com o que está acontecendo agora, de estar atualizado, com vontade de linguagem, com a coisa artística – Stella Rabello

O elenco de “Alguma Coisa Falta Aqui” (Foto: Dip Ferrera)
“Alguma Coisa Falta Aqui” parte de uma linha do tempo fragmentada e caótica, atravessada por múltiplos temas e angústias. Fala sobre o excesso de informações e as faltas que nos assombram — uma espécie de inventário cômico da carência contemporânea. “Venho de uma longa trajetória no teatro de grupo, onde o trabalho sempre se fez no encontro — na pesquisa de linguagem, na criação colaborativa, na partilha de processos e invenções. Carrego comigo essa experiência coletiva como base e como horizonte”, explica Stella.
O espetáculo hiperboliza situações reais e brinca com universos estranhos que escapam à dramaturgia tradicional, tratando de temas como solidão e o próprio sentido de estar vivo. A peça usa o humor para escancarar o vazio moderno, elevando o cotidiano ao absurdo — e, assim, espelhar as angústias e contradições do público.
O elenco é formado por Maria Paula Marini, Sued Lincoln, Carol Matos e Bernardo Coimbra, que se revezam em cena sob a direção de Stella e de sua assistente, Julia Tavares. O grupo, junto a outros cinco artistas, fundou a Penúltima Cia. de Teatro, voltada à investigação de linguagens autorais e contemporâneas. Com novos trabalhos previstos para 2026, a companhia nasce com fôlego criativo e desejo de diálogo profundo com o público.

Stella Rabello é uma atriz estabelecida e se lança como diretora (Foto: Michelle Camargo)
O texto em movimento
O texto de “Alguma Coisa Falta Aqui” não é fixo — é um corpo em transformação. Bernardo Coimbra, autor e ator do espetáculo, conta que a escrita começou em 2021, mas seguiu sendo reescrita nos ensaios, em resposta às improvisações do grupo. “A construção desse texto começou em 2021, e foi um processo muito mais racional do que corporal, na escolha dessa história. Com o passar dos anos, muita coisa foi descartada e novas sendo escritas, e isso tem ocorrido até agora nos processos de ensaio — o que é uma das coisas mais desafiadoras: escrever e trazer para os ensaios as novas alterações que acabamos de pensar. Ao mesmo tempo, eu sinto que isso tem tornado o texto muito fresco. Acho que justamente por termos o autor vivo e presente — no caso, eu — nos dá a possibilidade de o texto estar sempre em alteração, e descobrirmos coisas no corpo, e não mentalmente, sentado em frente ao computador”, diz ele.

Jovens atores integram o elenco de “Alguma Coisa Falta Aqui” (Foto: Dip Ferrera)
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