Aos mestres, a permanência. E é sob esse signo que se inscreve o espetáculo “Alexandre Elias toca Jobim, The Composer of Desafinado (show instrumental)”, no dia 21 de janeiro, às 20h, no Palácio da Música, no Rio de Janeiro. A data é próxima do aniversário do compositor, nascido em 25 de janeiro – coincidência que ganha espessura histórica diante do centenário que se aproxima, em 2027. Não se trata de celebração protocolar, mas de um gesto de continuidade: Jobim como linguagem viva, não como efeméride.
Alexandre Elias reconhece o acaso do calendário, mas aponta para algo mais duradouro. “Uma coincidência cair perto do aniversário dele. A importância de Jobim atravessa gerações.” A travessia, no entanto, não é retórica. Tornou-se concreta quando Elias apresentou à sua gravadora, em Los Angeles, um projeto solo, instrumental, revisitando o repertório de “The Composer of Desafinado, Plays”. A resposta veio afirmativa — e expandida. “Como resposta recebi um sim e a ideia da colaboração de quatro produtores de Boom-Bap e Lofi, todos muito jovens, 3 dos EUA e um das Filipinas, que adorariam trabalhar com a música de Jobim.” A música atravessava fronteiras, gerações e plataformas.

Alexandre Elias reverencia Jobim em show (Foto: Divulgação)
Diretor musical da Companhia de Dança Deborah Colker, Alexandre Elias ocupa, nesse show, o espaço do instrumentista que não disputa protagonismo com a obra que revisita. Sua guitarra conduz uma arquitetura sonora que mistura Bossa Nova, Samba-Jazz, Jazz Hop e Lofi Beats. O espetáculo marca o lançamento do álbum “The Composer of Desafinado Plays: Jobim Lofi Flips”, resultado de uma colaboração com quatro dos principais produtores de Lofi e Boom-Bap Jazz do circuito internacional, lançado pela Downtown Artists and Label, de Los Angeles.
Compositor, parceiro de Nelson Motta e Pedro Luís, Alexandre acumula mais de 20 mil ouvintes mensais no Spotify e canções que ultrapassam a marca de um milhão de reproduções. No palco, apresenta-se com um quarteto preciso: Domenico Botelho no contrabaixo acústico, Natan Gomes ao piano e Kim Pereira na bateria. O grupo sustenta uma escuta atenta e uma dinâmica contida, essenciais para revisitar “The Composer of Desafinado, Plays” — álbum lançado em 1963, o primeiro de Antônio Carlos Jobim no mercado americano, quando o Brasil começava a ser ouvido para além de seus próprios limites.

Alexandre Elias e uma homenagem ao Rio 60’s (Foto: Divulgação)
A estética do show — visual e sonora — evoca o Rio das décadas de 1950 e 1960, mas evita o verniz da reconstituição. O passado aparece como atmosfera, não como figurino. A ele se somam os caminhos do jazz contemporâneo, seus silêncios calculados, suas texturas digitais e pulsação. No encontro entre eras, Jobim não surge como peça de museu, mas como matéria ativa, aberta a releituras que não pedem licença ao tempo