Priscila Buiar estrela filme que debate a questão da maternidade das imigrantes brasileiras nos EUA


O curta-metragem ‘Uma Questão de Tempo’ retrata o drama de mães ameaçadas diariamente pela separação familiar. Protagonizado por Priscila Buiar, o filme aborda o impacto humano das políticas migratórias, sob o olhar de uma jovem protegida pelo programa DACA. Filmado em Nova Iorque, o projeto marca a estreia internacional da atriz, que também se prepara para lançar novos trabalhos no Brasil. Hoje, também empreende na área de bem-estar com o projeto Selfcare by Pri Buiar. Em paralelo, assina coleções de moda em parceria com marcas como Atrixo e Stamina. Sua trajetória reflete a força de quem transforma vulnerabilidade em potência e protagonismo

*por Vítor Antunes

O debate sobre as relações entre Brasil e Estados Unidos tem alimentado tensões políticas, bandeiras ideológicas e disputas econômicas. No entanto, por trás desses grandes temas, há dramas silenciosos que raramente ganham o centro das discussões. Um deles é a maternidade vivida por mulheres imigrantes, especialmente aquelas em situação ilegal nos Estados Unidos — um cotidiano marcado pela incerteza, pela dor e pela constante ameaça da separação familiar.

É nesse contexto que se apoia o curta-metragem “Uma Questão de Tempo”, protagonizado por Priscila Buiar, que dá vida à personagem Milena, uma jovem mãe brasileira que vive sob a proteção do programa DACA (Ação Diferida para Chegadas na Infância). Trata-se de uma política do governo norte-americano que impede a deportação de jovens imigrantes trazidos ainda crianças para os EUA e os autoriza a trabalhar legalmente no país. São os chamados Dreamers, que hoje vivem sob constante vigilância do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas), órgão que ameaça diariamente a estabilidade dessas famílias. “O filme, dirigido por Ana Milena Rojas e Brian Hoffman, expõe o impacto humano das políticas de imigração nos Estados Unidos, destacando tanto o peso do sistema quanto a resistência silenciosa de quem vive à margem”, afirma a atriz. “O curta não tem data de lançamento ainda, pois nosso objetivo é fazer o circuito de festivais pelo mundo”.

Filmando em abril, em Nova Iorque, o curta marca um momento simbólico para a atriz: “Foi o meu primeiro projeto 100% internacional — com equipe estrangeira, locações americanas e falado totalmente em inglês. Um desafio artístico e emocional que me atravessou profundamente”. O curta, porém, surge antes das politicas anti-imigração trumpistas. “O que é curioso é que o curta “Uma Questão de Tempo” foi escrito no ano passado, antes do atual governo, antes dessas novas ondas de batidas do ICE e da retórica anti-imigrante. Mas os problemas que estamos vendo agora não são novos, eles acontecem há décadas. A imigração sempre esteve profundamente arraigada na história dos Estados Unidos, assim como o medo e os maus-tratos aos imigrantes, isso sempre fez e faz parte da história dos EUA. O que queríamos com esse filme não era tentar explicar todo o sistema. Isso seria algo muito distante e político. Queríamos nos concentrar em contar uma história. Uma pessoa. Um momento”.

Porque é fácil falar sobre imigração em estatísticas, mas os números não iam gerar a conexão e empatia que buscamos, por meio da personagem Milena. Através dela, queríamos que as pessoas sentissem o custo humano dessas políticas. Que vissem a complexidade, o medo, mas também o amor e a coragem por trás de cada escolha. Não é comum vermos mulheres imigrantes, especialmente mães, retratadas como heroínas. Mas elas são, todos os dias – Priscila Buiar

Ela prossegue: “Essa história importa agora mais do que nunca, porque a discussão sobre imigração está ficando cada vez mais dura, mais desumanizante. E, nesse barulho, é fácil esquecer que estamos falando de pessoas, da vida e do lar delas. Então, se este filme conseguir criar um momento sequer de empatia ou fizer alguém se perguntar: “E se fosse eu?”, então ele cumpriu o que seu propósito”.

 

Priscila Buiar em “Questão de Tempo”, curta produzido e gravado nos EUA e em inglês (Foto: Divulgação)

Enquanto “Uma Questão de Tempo” se prepara para rodar os festivais internacionais, a atriz já se dedica a novos projetos no Brasil. Nos próximos meses, ela deve estrear “Looping”, longa dirigido por Luiz Duarte e gravado em 2019. Em paralelo, também está escalada para integrar o elenco de “Mentira Tem Perna Curta”, com roteiro de Paulo e René Belmonte, cujas gravações acontecerão em Belo Horizonte.

CRIANÇAS NO SET

Não são poucos os artistas que iniciam suas trajetórias ainda na infância, seja como modelos ou atores. Com Priscila Buiar não foi diferente. Ela começou no teatro ainda criança, movida por uma necessidade pessoal que acabou se transformando em vocação. “O teatro foi a alternativa que minha mãe encontrou para ajudar a ‘me soltar’. Comecei a descobrir a carreira de modelo após um curso de novos talentos de uma agência na cidade. Fui levando os trabalhos esporádicos junto com os estudos e, quando completei 15 anos, recebi a proposta de fazer meu primeiro curta-metragem chamado ‘A Garota da Loja de Livros’. Usei o cachê para refazer meu book como modelo. Na época, um valor bem considerável para apenas 06 fotos impressas”.

Desde então, a carreira de Priscila desdobrou-se em múltiplas frentes. Como modelo, seu rosto passou a estampar campanhas de grandes marcas nacionais e internacionais — entre elas, Vichy, L’Oréal, Alfaparf, Maybelline, Elseve, TIM, Amend, Beauty Color, Eudora, Risqué, Amil, Nivea, Litt, Ramarim, Fuel, Itaipava, Via Mia e até mesmo a Fundação Getulio Vargas (FGV). “Campanhas nacionais e internacionais feitas em lugares como Dubai, Las Vegas, Nova Iorque, Capadócia; já morei por um tempo na Cidade do México modelando, inclusive”.

Ela relembra sobre como foi trabalhar ainda criança como modelo: “Quando comecei a modelar e a fazer teatro, aos 09 anos de idade, eu não olhava muito para isso como uma profissão ou um trabalho. A gente costuma levar as coisas mais como uma brincadeira, então eu acho que naquela época já brincava de: faz de conta que sou atriz, faz de conta que sou modelo, faz de conta que hoje eu sou a pessoa que usa a roupa x então vou desfilar assim com essa personalidade como se eu fosse de tal jeito. Só hoje que eu tenho o entendimento de que a cada dia eu já atuava, eu já me transformava em uma pessoa diferente em cada novo ensaio de fotos, em cada desfile, em cada comercial, filme etc. Essa “brincadeira” se tornou realmente uma profissão quando eu passei a ser realmente remunerada, conforme os trabalhos que foram surgindo eram para marcas/empresas maiores, então a brincadeira se tornou algo sério e eu passei a me comportar de outra forma”.

A atriz aponta quando que virou a chave profissional: “Depois que eu refiz o meu book de modelo, aos 15 anos, o primeiro trabalho que eu peguei foi daquelas caixinhas de tintura de cabelo. Era uma campanha nacional enorme, em outra cidade, ao lado das melhores e maiores modelos do país naquela época. Lembro de ter chegado lá meio assustada porque eu me achava só uma criança. Não sabia direito como não piscar com a quantidade de flashes fortes bem no meu rosto. Mas, de alguma maneira, eu me saí bem. Estou em contrato com essa mesma marca há mais de 18 anos e depois deste trabalho eu nunca mais parei. Acho que foi neste dia que uma chave virou para mim. Não só pela responsabilidade do trabalho em si, mas porque a partir do momento em que é você com você mesma, você tem que se virar.

Se proteger, saber o que é certo e o que é errado, e se direcionar para onde quer chegar. Enquanto meus amigos muitas vezes podiam brincar, na faculdade fazer as coisas com mais calma e aproveitar mais, eu tinha sempre que fazer tudo com muita antecedência; renunciar a momentos de diversão para poder dar conta do estudo com o trabalho. Além da escolha de morar longe da minha família e dos meus amigos de infância para ter essas oportunidades profissionais – Priscila Buiar

Priscila Buiar já fez diversas campanhas de moda (Foto: Priscila Nicheli)

Priscila Buiar começou jovem na carreira (Foto: Priscila Nicheli)

Mas Priscila não se restringiu às artes cênicas ou à publicidade. Nos últimos anos, ela também tem investido com vigor em sua carreira como empreendedora, voltada para o bem-estar físico e emocional. À frente do projeto Selfcare by Pri Buiar, ela vem ampliando sua atuação e impacto junto ao público. “Um projeto se chama Selfcare by Pri Buiar e em breve completará 02 anos de existência. Graças a ele e às minhas fiéis participantes e seguidoras. Tenho me descoberto como criadora dos meus próprios projetos, das minhas próprias oportunidades e atuado de forma mais ativa na minha própria carreira. Não fico esperando os convites chegarem, eu tenho criado minha própria trajetória.”

Em 2023, essa autonomia criativa se desdobrou em uma colaboração com a marca Atrixo, onde, ao lado da irmã Milena Buiar, assinou uma coleção cápsula totalmente desenvolvida por ambas. “A parceria já dura 2 anos e conta com várias coleções conforme a mudança de cada estação”. Agora, essa experiência ganha um novo capítulo com a colaboração junto à marca de roupas fitness Stamina, de Nova Friburgo. “O convite de colaboração agora se repetiu com a marca Stamina, de Nova Friburgo, uma marca de roupa fitness e que tem tudo a ver com o meu projeto de saúde. O lançamento será em agosto deste ano”.

Priscila Buiar tem 200 mil seguidores e investe em plataformas de lifestyle e moda (Foto: Priscila Buiar)

Entre passarelas, palcos, câmeras e ideias, Priscila Buiar atravessa fronteiras — geográficas, artísticas e emocionais — com a mesma coragem de quem um dia entrou no teatro para vencer a timidez e hoje enfrenta, com voz própria, os dilemas universais da maternidade, da imigração e do pertencimento. Sua trajetória é feita de muitos começos e reinvenções: da menina que refazia o book com o cachê do primeiro curta à mulher que assina suas próprias coleções e roteiros de vida. “Uma Questão de Tempo” não é apenas um título — é também um espelho de uma artista que entendeu que, no seu tempo, e à sua maneira, ela pode transformar silêncio em presença, invisibilidade em narrativa, e margem em protagonismo.