*por Vítor Antunes
“O início, o fim e o meio“. Assim definiram Paulo Coelho e Raul Seixas (1945-1989) a arquitetura de um de seus maiores sucessos. Frase curta, quase enigmática, como uma cápsula de tudo que construíram juntos: uma parceria marcada por poesia delirante — mas ainda assim poesia —, e por experimentações que flertavam com o misticismo, o rock e o caos. Neste ano em que se celebram os 80 anos de nascimento de Raul Seixas, a Globoplay lança “Raul Seixas: Eu Sou”, série que mergulha na figura complexa do “maluco beleza”. No centro da narrativa está Ravel Andrade, no papel de Raul, acompanhado por João Pedro Zappa, que interpreta um dos personagens mais importantes da trajetória mítica do cantor: Paulo Coelho.
Zappa carrega Raul desde a infância. “Desde os meus 8 anos de idade. Então quando a gente entra para esse projeto, eu já sei tudo de Raul. Eu conheço todas as músicas de trás para frente. E o Ravel é um ator magnífico, muito estudioso, ele mergulhou de cabeça e e fez um trabalho magnífico”. Para habitar a dimensão mais esotérica e ritualística de Paulo Coelho, Zappa foi além do roteiro. Lançou-se também ao campo invisível das energias, dos símbolos, dos ritos. “O diretor da minha peça, do meu monólogo, ‘Aqueles Que Deixam Omelas’, ele entende muito de magia cerimonial, é bem feiticeiro. Então, eu contratei ele para me ajudar com essa parte de entender o que era os rituais que Paulo e Seixas faziam — ainda que Coelho tenha se distanciado disso tudo. Fizemos vários rituais, coisas até secretas. Foi ótimo, foi muito bom mesmo”.
Não é de hoje que Raul e Paulo são vistos por muitos fãs quase como profetas, figuras sagradas de uma seita informal. Mas Zappa faz questão de apontar o equívoco. Com sobriedade — e uma dose de ironia —, ele desmistifica esse fanatismo crescente: “Com alguma ironia. Todo discurso dos dois é anti-messiânico e as atitudes deles também, por mais que tudo é, né, uma situação complexa, as coisas são sedutoras, então mesmo a gente se contradiz. Tudo neles era anti-messiânico. Eles rechaçariam ser considerados gurus, principalmente, naquela época. Esse era o discurso latente com todas as contradições e complexidades paradoxais envolvidas. E de algum tempo para cá, pelo menos, a gente tende a buscar por mestres, Messias e salvadores. Eles não compactuavam com essa visão de mundo. Então, eu vejo que essas pessoas não os entenderam”.
Paulo Coelho é o terceiro personagem biográfico interpretado por Zappa, que já deu vida a Gabriel Buchmann, em Gabriel e a Montanha, e a Santos Dumont, na série homônima da HBO. Nos bastidores, ele também costura seus próprios caminhos: prepara um longa autoral, ainda em fase de gestação, e participa da série Camila Baker, de Emílio Boechat, além dos filmes Todos os Dias em que Sou Estrangeiro, dirigido por Eduardo Morotó, e Pele de Rinoceronte, de Marcelo Ludwig Maia.

Paulo Coelho (João Pedro Zappa) e Raul Seixas (Ravel Andrade) em “Raul” (Foto: Divulgação/Globo)
SEIXAS, OMELAS, FLAMENGO E PARIS-SAINT-GERMAIN
Ainda que se trate de um projeto denso, repleto de camadas simbólicas e exigências dramáticas, a preparação para a série foi curta. João Pedro Zappa revela que o processo durou cerca de um mês e meio — tempo que, à luz de produções internacionais semelhantes, beira o improvável. “A gente teve um mês e meio de preparação, que é muito pouco para um projeto e personagens dessa magnitude. Você vê, o menino que fez o Elvis teve quatro anos para se preparar. O Timothy Chalamet agora para viver o Bob Dylan disseram que ele teve cinco anos para se preparar. É, a gente teve um mês e meio, mas é alucinante o que conseguimos pegar”.
Vejo nosso tempo de preparação e assemelho aos times brasileiros ganhando desses gigantes europeus agora, na Copa do Mundo de Clubes da FIFA, Botafogo do Paris Saint-Germain, Flamengo ganhou do Chelsea. Nossa série também vencerá. A gente tem esse mesmo vigor – João Pedro Zappa
Acostumado a se dividir entre os palcos e as telas, Zappa atualmente percorre o estado do Rio de Janeiro com o monólogo “Aqueles que Deixam Omelas”, inspirado no conto homônimo de Ursula K. Le Guin. Na peça, interpreta um viajante solitário que caminha pelo mundo para contar a história de Omelas, uma cidade de nome estranho e promissor. À primeira vista, um lugar solar, livre e belo — mas que, pouco a pouco, revela uma utopia ambígua e perturbadora, construída sobre um segredo insustentável.

João Pedro Zappa faz monólogo e série sobre ícone pop (Foto: Philip Lavra)
Ao refletir sobre a peça e sua própria trajetória, Zappa reconhece um espelhamento inevitável. “Há sempre alguém ou algum lugar a se deixar para trás para poder seguir em frente. A história da humanidade é uma história de deslocamento, de migrações, de movimento, de abandono e de encontros, e às vezes reencontros, partidas e chegadas, trânsito — e isso sempre foi o que constituiu a gente, né? É por isso que é uma loucura essa política contra imigração, porque a coisa mais natural do ser humano é mudar de um lugar para o outro, sair de uma relação que não está mais boa. Mas não foi nada disso que motivou a gente a fazer a peça. Eu não sabia o que ia acontecer, o que a gente ia montar. Mas sabia que aquilo funcionaria. E com essa fé estreamos.”
Com um pé no concreto e outro no invisível, João Pedro Zappa é desses intérpretes que não se satisfazem com o que está à vista. Em cada personagem, ele parece buscar não apenas a superfície do gesto, mas o que pulsa por trás — o espírito, o ruído, o silêncio. O início, o fim e o meio do que é inteiro.
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