Apesar de grande parte do comércio e da linha de business da indústria fashion brasileira estar situada no eixo Rio-SP, isso não tem impedido que designers e empreendedores consigam achar sua própria voz, estilo e sucesso comercial em outras partes do país. Claro, isso nunca é uma tarefa fácil, mas com garra, visão e talento nada é impossível. Um ótimo exemplo dessa perseverança e empreendedorismo é Cláudia Martinez, conhecida como a “Rainha da Python”.
Conheci Cláudia durante a edição do SICC – Salão Internacional do Couro e Calçado, que vem se mostrando um sucesso em Gramado e tem tudo para se destacar nos calendários nacionais de moda. Gaúcha com 45 anos, a estilista vem trabalhando no ramo da moda desde os 18 e investe nos calçados e acessórios desde 1995, sempre mantendo a primazia de suas peças através do couro, seja ele de arraia, tilápia, crocodilo, pirarucu, canela de avestruz ou seu autêntico python. Todos, claro, com as devidas autorizações dos órgãos governamentais e reguladores do meio ambiente. No seu currículo, já colaborou com as maiores marcas do Brasil, tendo confeccionado itens para grifes como Animale, Redley, Farm, A.Brand, Checklist, Shop 126 e Mara Mac.
Mesmo sendo especializada no python e produzindo direto do Sul, Cláudia não abre mão da diversidade, seja no material ou na clientela. “Os consumidores estão mais exigentes e têm valorizado mais a qualidade do produto ao invés da quantidade. […] Tudo o que produzo pode e é utilizado em qualquer estado brasileiro, mesmo com as diferenças climáticas”, comentou a estilista em uma entrevista que fizemos no início do ano (e você pode ler aqui). O cuidado extremo com detalhes e o uso singular de materiais como o mestiço (uma espécie de couro fino de cabra) aparece mais do que nunca na nova coleção da “By Claudia Martinez” para o Inverno 2015, apresentada na última edição da Feira Zero Grau, em Gramado.
Os scarpins e mocassins dão lugar a botas de cano alto, above the knees e ankle boots poderosas e luxuosas, sem nunca abrir mão da sua carta de apresentação: o couro, seja ele mestiço, em forma de python ou apostando no pretinho nada básico dos calçados de montaria, que substituem a paleta de cores vívidas da linha anterior. O detalhe artesanal que ela empresta para suas peças é notável tanto nos tons com que reinventa alguns itens, quanto em fivelas, zíperes e tachas cuidadosamente aplicadas nos acessórios. As bolsas também seguem esse padrão de extravagância elegante, aparecendo todas revestidas de couro e com fivelas e correntes douradas.
Cláudia carrega em sua marca a qualidade da moda, seja no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. A capacidade de ser universal sem perder a própria identidade e diferencial em meio a uma indústria que, como bem sabemos, muitas vezes se apoia no plágio disfarçado de “influências”. Mas ela pode ficar tranquila – e todas as mulheres que amam sapatos também – porque seus calçados têm de tudo para cair definitivamente no gosto das brasileiras: gaúchas, cariocas, mineiras ou o que quer que sejam. Afinal, quem consegue resistir a um bom salto alto poderosíssimo e, de quebra, revestido de couro?
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