Lucas Domso debate redpill em dramaturgia vertical ao unir crítica social e linguagem das redes


Ator, roteirista e diretor carioca de 41 anos, divide a carreira entre Brasil e Portugal e prepara a websérie “O Último Dom Juan”, que discute a popularização do discurso redpill. Na produção, prevista para iniciar ainda este mês, ele interpreta João “Piranha”, personagem que expõe contradições da masculinidade tóxica difundida nas redes
Concebida como novela vertical, a obra aposta em capítulos curtos e linguagem ágil para dialogar com o público digital, sem substituir a TV tradicional. Além do projeto, Domso também desenvolve a novela vertical “Depois Daquele Verão” e dirigiu a websérie “T1 – Contrato Vitalício”, gravada entre Portugal e Brasil. Vivendo no país europeu, ele destaca oportunidades culturais, mas aponta desafios como burocracia, custo de vida e a necessidade de estratégia para artistas brasileiros.

Lucas Domso é ator, roteirista e diretor. Carioca de 41 anos, divide atualmente sua trajetória artística entre Portugal e o Brasil, em um trânsito que reflete tanto a maturidade profissional quanto o interesse por narrativas de alcance mais amplo. Em um de seus trabalhos mais recentes, Domso se debruça sobre um tema sensível e cada vez mais presente no debate público: a popularização do discurso redpill. A discussão está no centro da websérie “O Último Dom Juan”, na qual ele interpreta João “Piranha”, um homem que, após ter o noivado desfeito por uma traição, passa a acreditar ser portador da chamada síndrome de Don Juan.

 A trama utiliza a crise pessoal do personagem como ponto de partida para examinar a adesão a discursos que orbitam uma ideia de ultra masculinidade tóxica, muito disseminada em ambientes digitais. Ao invés de tratar o fenômeno de forma panfletária, a série aposta na ficção como ferramenta de observação crítica, expondo contradições, ressentimentos e armadilhas emocionais que sustentam esse tipo de narrativa. As gravações estão previstas para começar em janeiro de 2026.

Segundo Domso, o impulso criativo veio de uma inquietação pessoal diante do crescimento desse conteúdo nas redes. “A ideia de abordar o discurso redpill nasceu da inquietação diante da forma como essas narrativas vêm se espalhando e ganhando força, principalmente entre jovens homens nas redes sociais. O que inicialmente aparece como um conteúdo de ‘autoajuda’ ou incentivo à autoconfiança, muitas vezes carrega visões simplistas, ressentidas e até misóginas sobre relações, afetos e o papel da mulher na sociedade. A websérie surge, portanto, como uma tentativa de olhar para esse fenômeno com senso crítico, usando a ficção para provocar reflexão, e não para apontar respostas fáceis”.

Lucas Domso: “A websérie(…) usa a ficção para provocar reflexão, e não para apontar respostas fáceis’ (Divulgação)

Vejo a popularização desse discurso com preocupação. As redes sociais potencializam bolhas de validação, onde frustrações pessoais são transformadas em ideologias rígidas e pouco empáticas. Ao mesmo tempo, reconheço que o sucesso desse conteúdo revela um vazio emocional e uma dificuldade de diálogo sobre masculinidades, afeto e fracasso. A websérie busca justamente tensionar esse cenário, mostrando as contradições e consequências desse pensamento, e convidando o público a questionar, em vez de apenas consumir, essas narrativas prontas – Lucas Domso

Sobre “O Último Don Juan”, trata-se de uma novela vertical concebida especialmente para o consumo nas redes sociais, com capítulos curtos, ritmo acelerado e forte apelo emocional. Pensada para dialogar com a lógica das plataformas digitais, a obra aposta em uma narrativa direta, fragmentada e altamente conectada ao cotidiano de seu público. A história revisita o arquétipo clássico do Don Juan, o sedutor invencível da tradição literária e teatral, mas o reposiciona sob um olhar contemporâneo, colocando em xeque modelos de masculinidade, afetos líquidos e relações cada vez mais mediadas pela tecnologia. O resultado é uma narrativa provocadora, que mistura humor, crítica social e drama, em diálogo direto com os comportamentos, ansiedades e contradições das novas gerações.

Ao refletir sobre o formato, Lucas Domso avalia que as novelas digitais não surgem como substitutas da televisão tradicional, mas como um desdobramento natural do ecossistema audiovisual contemporâneo. As redes sociais, segundo ele, democratizaram a produção e o acesso às histórias, criaram novos hábitos de consumo e abriram espaço para narrativas mais ousadas, rápidas e experimentais. Trata-se de um caminho sem volta, especialmente como complemento à TV, favorecendo criadores independentes e públicos que buscam identificação imediata, linguagem ágil e conteúdo sob demanda.

Lucas Domso acredita que as novelas verticais são um novo formato de linguagem (Foto: Divulgação)

Também em 2026 tem início a produção de outra novela vertical, “Depois Daquele Verão”, que será estrelada por Xande Valois. Como ator, o trabalho mais recente de Lucas Domso na televisão foi na novela “Verão 90” (2019). Paralelamente aos projetos no audiovisual, ele mantém uma relação constante com a literatura dramática. Assinou “Kaboom”, última peça dirigida por Jorge Fernando, e, posteriormente, escreveu o espetáculo infantil “O Menino do Olho Azul”, criado como uma homenagem ao diretor. Ele também está na produção de  “O Meu Noivo É Agroboy”, que será gravada em Primavera do Leste (MT).

Mais recentemente, Domso escreveu e dirigiu a websérie “T1 – Contrato Vitalício”, que estreou no YouTube e marca uma nova fase de sua trajetória como criador audiovisual. Gravada entre Portugal e o Brasil, a produção evidencia seu interesse por temas contemporâneos como poder, ambição, dependência emocional e os limites tênues entre desejo, controle e sacrifício pessoal, consolidando um olhar autoral atento às tensões do mundo atual.

Segundo Lucas, fazer arte em Portugal e viver no país implica uma combinação singular de oportunidades e desafios, especialmente para artistas brasileiros. “O principal desafio é o tamanho do mercado cultural. Portugal tem um circuito artístico mais concentrado, com menos produções simultâneas do que o Brasil, o que torna a concorrência intensa e os espaços mais disputados. Para artistas estrangeiros, ainda existe a barreira inicial da inserção: construir rede de contatos, conquistar confiança e ser visto além do rótulo de ‘brasileiro’. Por outro lado, há pontos positivos importantes: editais públicos, incentivos culturais, coproduções internacionais e uma valorização crescente de projetos autorais, especialmente no audiovisual independente, no teatro contemporâneo e nas webséries”.

A qualidade de vida é um dos grandes atrativos. Segurança, transporte público eficiente, ritmo de vida mais tranquilo e acesso à cultura fazem diferença no dia a dia. Em contrapartida, o custo de vida — principalmente aluguel em cidades como Lisboa e Porto — aumentou bastante nos últimos anos, o que exige planejamento financeiro, sobretudo para quem trabalha com arte, uma área naturalmente instável – Lucas Domso

Lucas Domso, sobre morar em Portugal: ‘O custo de vida — principalmente aluguel em cidades como Lisboa e Porto — aumentou bastante nos últimos anos, o que exige planejamento financeiro’ (Divulgação)

Ainda segundo o ator e autor, há questões pontuais que atravessam a experiência de viver e trabalhar em Portugal, sobretudo no contexto atual. O país, que durante anos foi visto como uma porta de entrada mais acessível para artistas estrangeiros, hoje apresenta um cenário mais regulado e exigente, o que demanda planejamento e preparo prévio. “Hoje é mais burocrático do que antes, mas não impossível. As regras de imigração estão mais rígidas, exigindo contratos de trabalho, comprovação de renda ou enquadramento em vistos específicos (como estudos, trabalho artístico ou empreendedorismo). Brasileiros continuam sendo uma das maiores comunidades estrangeiras no país, o que ajuda na adaptação, mas é fundamental chegar com documentação organizada e expectativas realistas. Em resumo, Portugal oferece um ambiente fértil para criação, trocas culturais e crescimento artístico, mas exige resiliência, estratégia e adaptação — especialmente para brasileiros que sonham em viver de arte fora do país”.

Para Domso, esse novo contexto não deve ser encarado como um obstáculo intransponível, mas como parte do amadurecimento do próprio projeto de vida e de carreira. A permanência no país passa menos pela idealização e mais pela capacidade de compreender o funcionamento do sistema cultural local, estabelecer redes de colaboração e alinhar ambições pessoais às condições concretas do mercado. Nesse sentido, a experiência portuguesa se apresenta como um campo de aprendizado contínuo, no qual criar, circular e permanecer são gestos que exigem não apenas talento, mas também estratégia e resistência.