Lenita Oliver, a Katinha de “Dona de Mim”, transforma experiência como modelo em força para personagem


A atriz vem chamando atenção em Dona de Mim com Katinha, modelo ambiciosa que, ao se envolver com Samuel (Juan Paiva), redescobre a força de sentimentos genuínos. Para a atriz, viver essa transformação foi um “presente” que a marcou como artista e pessoa. Parceira de Rosane Svartman desde ‘Totalmente Demais’ (2015), Lenita enxerga o novo trabalho como amadurecimento criativo. Com carreira que transita entre teatro, dança, séries, cinema e moda, ela reafirma-se como intérprete versátil, capaz de unir crítica social, emoção e intensidade cênica

Ela vem conquistando o público com a complexa Katinha, personagem da novela “Dona de Mim”. Na trama, Lenita Oliver interpreta a modelo ambiciosa que, à primeira vista, parece apenas movida pelo desejo de ascensão social. Guiada pelas promessas tentadoras de Jacques (Marcello Novaes), o vilão calculista da história, Katinha se rende ao brilho ilusório do poder e da fama. Mas o enredo vai além do estereótipo da mulher seduzida pelo sucesso: quando o amor se impõe em sua vida, na figura de Samuel (Juan Paiva), ela se vê atravessada por sentimentos genuínos que a obrigam a repensar escolhas e, sobretudo, a confrontar a si mesma.

Lenita entende esse mergulho como um privilégio artístico. “Katinha tem muitas camadas, e foi um presente poder viver essa virada interna dela. Ela começa tentando se proteger, sobreviver, mas é atravessada por um sentimento verdadeiro que a transforma. Foi intenso, e fazer esse caminho ao lado de um elenco tão potente foi uma experiência que me mudou como artista e como pessoa”.

Lenita Oliver vive Katinha em “Dona de MIm” em seu segundo trabalho com Rosane Svartman (Foto: Divulgação)

A entrega da atriz não acontece no vazio: é também resultado de um reencontro profissional. Essa não é a primeira vez que Lenita se encontra com a autora Rosane Svartman. Sua estreia na televisão ocorreu em “Totalmente Demais” (2015), obra igualmente assinada por Rosane. Agora, anos depois, o retorno em “Dona de Mim” marca uma espécie de continuidade e amadurecimento. “Esse trabalho ocupa um espaço muito especial na minha trajetória. Foi um desafio intenso, mas também um processo de muita entrega e aprendizado. Saio dessa história diferente, mais inteira”.

O paralelismo entre vida e ficção se insinua. Assim como Katinha, Lenita conhece de perto os bastidores da moda: trabalhou durante anos em campanhas publicitárias, desfilando para marcas e experimentando o peso e a leveza de uma carreira que, embora sedutora, cobra resiliência. Essa vivência real, agora, lhe oferece matéria-prima para compreender com mais profundidade os dilemas da personagem.

Lenita Oliver e Juan Paiva em “Dona de Mim” (Foto: Divulgação)

Dona do seu destino

Com cerca de uma década de trajetória, Lenita construiu uma carreira marcada pela pluralidade. Suas raízes artísticas estão no teatro, mas também na dança e no maracatu, manifestações que moldaram seu corpo cênico e sua visão de mundo. Essa amplitude reverbera em seus papéis na televisão e no streaming, onde transita entre personagens intensas e universos contrastantes. Em Pico da Neblina, deu vida à explosiva Marcela, uma jovem livre; em Dr4gOn, foi Lara, estrategista nerd inserida no universo gamer; e em Ogiva, experimentou o registro fantástico ao encarnar uma heroína em um mundo distópico. “Foram caminhos completamente diferentes, e todos eles me desafiaram e me expandiram”, resume.

Na HBO Max, esteve presente em produções de fôlego: em “Os Ausentes” (2021), interpretou a companheira de um detento desaparecido, mergulhando em uma trama de dor e busca; em “Todxs Nós” (2020), assumiu a pele de uma militante feminista, papel que reforçou sua capacidade de unir discurso crítico e sensibilidade. Já no cinema, conquistou atenção como Pepita em “Vale Night” (2019), longa de Luiz Pinheiro, além de integrar o elenco de A Última Chance (2016), de Paulo Thiago. Em cada trabalho, Lenita parece construir uma assinatura própria: uma presença que equilibra força política e emoção.

Lenita Oliver e Tony Ramos em “Dona de Mim” (Foto: Divulgação)

Em “Dona de Mim”, a atriz reforça a importância da troca com o elenco como motor de verdade cênica. Juan Paiva, par romântico de Katinha, é citado como elemento decisivo na construção emocional da personagem. “Juan tem uma escuta profunda, é generoso, presente. A nossa troca ajudou muito a encontrar a verdade da Katinha, especialmente quando ela se permite sentir e se arrepender”. Lenita, no entanto, não reduz sua experiência a um único parceiro de cena. Com sensibilidade e rigor, ela reconhece o impacto de contracenar com diferentes gerações da dramaturgia brasileira: “Marcello constrói um vilão com precisão, e isso me deu a base para explorar os conflitos internos da Katinha. A Clara Moneke é muito generosa. A Aline é uma grande atriz, uma referência pra mim. E o Tony Ramos é uma força, uma potência. Sua presença é elegante, verdadeira, com uma humanidade que emociona. Só de olhar nos olhos dele, você se comove. Atuar com ele foi um dos maiores presentes da minha carreira até aqui. Estar em cena com o Tony é aprender, todos os dias, o que é o ofício do ator com alma e compromisso”.

O relato de Lenita deixa entrever o quanto Dona de Mim extrapola a ficção: é, para a atriz, um rito de passagem. A Katinha que se debate entre ambição e amor, entre máscaras e entrega, é também reflexo de uma artista em constante transformação, que faz da cena não apenas um ofício, mas uma espécie de destino escolhido e, dia após dia, reafirmado.