Isis Pessino vive judia explorada sexualmente em “As Polacas”, longa que aborda o tráfico de mulheres no século XX


“As Polacas” é um drama histórico que resgata a saga de mulheres judias que migraram para o Brasil, fugindo da Guerra Mundial. Ao chegarem ao Rio de Janeiro, muitas dessas mulheres foram enganadas e forçadas à prostituição, sofrendo abusos e exploração. O filme, inspirado em histórias reais, retrata a luta dessas mulheres por liberdade e dignidade. O elenco, com destaque para Valentina Herszage e Caco Ciocler, apresenta atrizes judias que se identificam profundamente com a história, trazendo ainda mais autenticidade à trama. Isis Pessino, intérprete de Helena, enfatiza a importância da sororidade e do trabalho em equipe durante as filmagens, o que contribuiu para a construção de um discurso poderoso.”É um movimento muito importante de estar sendo contado no cinema para incentivar esse pensamento coletivo do poder que a coletividade tem”

*por Vítor Antunes

O início do século passado ficou marcado pelas ondas migratórias em razão da guerra. O Rio de Janeiro reviveu seu caráter portuário quando a Praça XI recebeu judeus todos em fuga em razão da dura vida que os acompanhava na Europa. É nesse contexto que surge “As Polacas”. Muitas das judias que no Rio chegavam eram chamadas de polacas. Uma delas é vivida no longa por Isis Pessino, polonesa traficada para o Brasil e submetida à prostituição. “O que eu acho interessante no filme é que mesmo nessa situação de tanta violência que elas estavam colocadas diante, essas mulheres se uniram para se ajudar, para apoiar umas às outras – e isso é uma história real. Elas criaram a Sociedade da Verdade, uma organização pensada e gerida por elas para lutar por direitos e terem um sepultamento digno, pois elas não tinham sequer o direito de serem enterradas nos cemitérios israelitas. Elas tiveram muitas conquistas depois que se puderam a defender sua dignidade e sobrevivência. É um movimento muito importante de estar sendo contado no cinema para incentivar esse pensamento coletivo do poder que a coletividade tem”.

No longa, a personagem de Valentina Herszage é seduzida por Tzvi (Caco Ciocler), que lhe oferece um trabalho, mas na verdade torna a moça vítima de uma grande rede de prostituição e tráfico de mulheres. Tema muito atual.

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Isis Pessino e o elenco de “As Polacas” (Foto: Divulgação)

Para Iafa Britz, produtora do longa, a importância do resgate da história é grande. “A história da humanidade está muito atravessada pela exploração de corpos femininos. O filme é um recorte de nossa história e dos abusos e escassez impostos por ela. Ao mesmo tempo, é extremamente inspirador ver a força e a sororidade destas mulheres num país que sequer conheciam a língua. São pessoas absolutamente vulneráveis que juntas criam afeto, esperança e recursos para viver de uma forma mais digna”.

Isis Pessino, intérprete de Helena, destaca exatamente essa relação de amizade, de parceria entre as atrizes – todas elas, com exceção de Julia, são judias. Deste modo, há uma grande identificação das personagens com a trama, alinhadas também com o princípio da sororidade, segundo aponta a atriz. “É uma honra estar em cena com grandes atrizes, como Clarice Niskier, Ana Kutner, Valentina Herzage e Dora Freind. Durante a preparação de elenco, a gente esteve muito, muito junto. A gente conversava, trocava muito, para justamente ter essa sensação de coletivo que o filme precisa. Eu acho isso o mais legal e o mais importante de estar sendo contado”.

Isis Pessino em cena de “As Polacas” (Foto: Divulgação)

Em 2025, a artista poderá ser vista no longa “A Vida de Cada Um”, sob a direção do premiado Murilo Salles, em que atua ao lado de Bianca Comparato, Caco Ciocler e Ivan Mendes. Isis também já atuou como assistente de direção de nomes como Deborah Lamm e Luiza Thiré e, em 2024, passou a investir em seu trabalho como diretora teatral.  Sua estreia aconteceu com “Ensaio Ir Embora”, que teve duas temporadas com sessões esgotadas no Rio e deve voltar aos palcos em 2025. Também a carioca planeja dirigir o espetáculo “Circo da Palhaça Socorro!”. O solo de palhaçaria de Lívia Feltre fala de maternidade através do olhar de palhaça Socorro, acreditando no humor como uma potência transformadora. Atualmente estudando Estética e Teoria do Teatro, Isis Pessino já lançou “Parto”, um livro de poesias em 2019, e planeja seu primeiro romance para o próximo ano. 

As Polacas”, novo filme de João Jardim, que conta com Valentina Herszage, Caco Ciocler, Dora Freind, Amaurih Oliveira, Clarice Niskier, Anna Kutner e Isis Pessino. O longa é livremente inspirado nas obras “El Infierno Prometido”, de Elsa Drucaroff, e “La Polaca”, de Myrtha Schalom. O roteiro é de Jacqueline Vargas e Flavio Araújo, e George Moura assina o roteiro final.