*por Vítor Antunes
Não são poucas as mulheres colocadas à sombra de seus maridos e companheiros. Durante anos, a autora de Éramos Seis não pôde assinar com seu próprio nome. Maria José foi conhecida apenas como Sra. Leandro Dupré (1892-1984). O mesmo aconteceu com Lotte Zweig, esposa de Stefan Zweig (1881-1942), um dos mais importantes romancistas e escritores alemães. A atriz Hana Kolodny dá vida a essa mulher na montagem “Lotte Zweig – A Mulher Silenciada”, peça que divide o palco com Carlos Vereza.
“É uma peça muito única no tema que traz. Pelo menos eu nunca vi uma peça que colocasse uma protagonista falando sobre antissemitismo, sobre o período em que havia nazismo no Brasil, sobre os segredos daquela época. Nunca vi uma peça tão corajosa nesse sentido. Claro que há muitas peças corajosas em outras pautas. Mas essa é única pelo conteúdo. As pessoas que assistem realmente não sabiam dessas histórias. E eu me sinto muito orgulhosa de interpretar uma mulher que foi tão marginalizada na história do Stefan. Muito do que ele conquistou se deve a ela: Lotte, sua secretária e datilógrafa. Ele a contratou por ser poliglota. Ela sabia que, sendo uma judia polonesa vivendo na Áustria, precisaria se qualificar muito para ser respeitada. Estudou bastante, era extremamente inteligente e o auxiliava em todas as biografias e livros. Estava sempre à margem do trabalho dele, mas ninguém sabe disso. Me traz um conforto profundo dar visibilidade a essa história, falar sobre ela. Lotte nunca buscou reconhecimento, mas é importante dizer: ao lado de um homem de sucesso, muitas vezes há uma mulher que está sustentando tudo aquilo”.
Aos poucos, acho que estamos conseguindo colocar as mulheres como protagonistas da ação. Não apenas como acompanhantes, mas como provocadoras, motoras da narrativa. Sempre vi as mulheres dessa forma — embora isso dependa muito da época. E a peça se propõe justamente a isso: trazer protagonismo para uma mulher que foi invisibilizada pelo tempo – Hana Kolodny
Foi em meio à dor silenciosa que atravessava os dias da mãe doente, que Hana Kolodny descobriu sua vocação para o palco. Sem saber que plantava as sementes de uma carreira artística, a atriz passou a inventar pequenas cenas, bordões e teatrinhos como uma forma de distrair a mãe, que enfrentava um câncer agressivo. A leveza cômica que trazia alívio àquela rotina difícil se transformaria, anos mais tarde, em ofício e identidade. “O humor sempre esteve comigo. Eu sempre tive no bolso, nas mangas. Cresci com minha mãe – já falecida –, que sofreu por muitos anos com câncer. A única coisa que fazia ela esquecer um pouco da dor eram as historinhas que eu inventava, ainda criança. Isso animava ela. Eu juntava a família, encenava, então começou por aí. Foi uma forma de resistência mesmo. Por mais clichê que pareça, a comédia é um ato de resistência, de resiliência – e, no meu caso, realmente foi. Depois, na adolescência, meu pai finalmente me permitiu fazer teatro. É inegável que eu sempre trazia um toque de humor. Com 15 anos, fui para a palhaçaria. Mais tarde, acabei me descobrindo também no drama, que eu amo. Todo bom comediante é ótimo no drama, porque, como acabei de contar, minha comédia surgiu de um drama”.

Hana Kolodny: “Todo bom comediante é ótimo no drama, porque, como acabei de contar, minha comédia surgiu de um drama” (foto: Priscila Nicheli)
Quando eu cursava veterinária, às vezes não confiavam em mim para certas tarefas, achando que eu não teria força ou capacidade. Mas a mulher sempre encontra um jeito. Não se trata de trocar papéis, mas de adaptação. Podemos não ter a mesma força física que os homens, mas somos muito mais resilientes – Hana Kolodny
NUNCA FOI TESTE
Trabalhar ao lado de um dos nomes mais respeitados do teatro e da televisão brasileira, Carlos Vereza, foi para Hana Kolodny um misto de desafio, encantamento e consagração. Dividindo o palco com o ator na peça Lotte Zweig – A Mulher Silenciada, ela conta que o processo de seleção e ensaio foi, ao mesmo tempo, intenso e revelador. A pressão de estar à altura do legado de Vereza era grande, mas foi justamente dele que veio o voto de confiança que transformou seu medo em força cênica. “Eu estava morrendo de medo. Estava na frente dele e li o texto da melhor forma que pude. Mas, como a gente leva tantos ‘nãos’, eu já estava pensando: ‘Ah, com um texto difícil desses, é óbvio que não vou conseguir’. Quando terminei, ele disse: ‘Você vai fazer lindamente’. E eu perguntei: ‘Como assim eu consegui?’. Ele respondeu: ‘Não, não, isso nunca foi um teste. É você’. Só caiu a ficha depois que estreamos. Até o momento da estreia — essa que será nossa quarta temporada oficial, sem contar a pequena turnê que fizemos fora do Rio de Janeiro — eu ainda não havia assimilado o peso dessa responsabilidade. Durante os três meses de preparação, ainda não tinha me dado conta”.
Sobre trabalhar com Vereza ela diz: “É uma responsabilidade enorme, porque se trata do nome dele. A biografia dele é imaculada, ele é um artista consagrado. Eu me perguntava: como carregar esse nome nas costas? E ele sempre muito tranquilo, sempre dizendo: ‘Eu não sou maluco, estou te colocando aqui porque você consegue, você mereceu esse espaço’. E é difícil, às vezes, acreditar que se merece, mesmo depois de 15 anos de trajetória, metade da minha vida, me preparando para esse momento. Estamos com a peça em cartaz por um mês, em junho, na Casa de Cultura Laura Alvim. Estou aberta a novos convites de trabalho. Estava envolvida em outro projeto teatral, inclusive com o Vereza, uma peça mais comercial, mais leve — uma comédia dramática com muita música”.
Normalmente, ouvimos sempre os homens, mas há mulheres com histórias lindas e fundamentais. É muito bom quando essas histórias vêm à tona – Hana Kolodny

Carlos Vereza e Hana Kolodny em cena (Foto: Divulgação)
HUMOR E GENEROSIDADE
Antes de estrear nacionalmente ao lado de Carlos Vereza na peça Lotte Zweig – A Mulher Silenciada, Hana Kolodny viveu uma jornada de autodescoberta entre o drama e a comédia, que incluiu palcos, bastidores e também salas de aula. Após uma fase voltada para produções dramáticas e de ação no Sul do país, ela reencontrou seu brilho cômico graças ao estímulo de um preparador de elenco. Ao mesmo tempo, cultivava o senso de coletividade por meio de ações voluntárias. “Fui fazer aula com um preparador de elenco chamado Thiago Greco, e ele me disse: ‘Mostra esse fio desencapado de uma vez’. Então, me libertei de novo. Eu estava muito voltada para o drama, fiz muitos trabalhos dramáticos e de ação no Sul, e havia deixado a comédia de lado. Mas ele me puxou de volta: ‘Vem cá, é isso. Essa é a tua área de brilho’. Eu estava tentando ser outra coisa, mas percebi que era isso mesmo. Foi aí que montei um solo de stand-up chamado Inadequada”.
Ela relembra sua experiência como voluntária em escolas de regiões carentes de Porto Alegre, eu fazia muito voluntariado, sem ligação com o teatro. Atuava em escolas, ajudando na integração das crianças. De certa forma, isso tem relação com o teatro, pois eu integrava as crianças, fazia brincadeiras, tentava ajudá-las a aprender. Vi muitas situações difíceis por lá. ‘Esse voluntariado eu fazia em Porto Alegre, no Gerônimo de Ornelas, no bairro da Glória, e no Colégio Rio Branco, no bairro Santa Cecília. Eu dava aulas e ajudava as professoras, que não conseguiam dar conta sozinhas. Fazia parte de um grupo chamado Tribos, um grupo de voluntariado. Eram aulas de reforço em escolas mais afastadas, da periferia. Muitas das crianças eram filhos de pessoas dependentes químicas, então também apresentavam condições especiais. Houve muitos momentos marcantes. As crianças tinham dificuldade para se concentrar, era difícil ter um momento só com uma delas. Mas lembro de uma menina muito quieta, que não queria falar com ninguém. Fui me aproximando aos poucos, ficando com ela, conversando, e consegui integrá-la ao grupo. Em outra visita, ela já estava participando. Foram várias vezes em que percebi que ela não conseguia se integrar. Então, fiz esse movimento de aproximação, porque ela era alvo de bullying. Tentei resolver aquela situação, e ela se integrou. Espero que tenha continuado depois. No recreio, havia crianças que agiam com violência contra as outras”, relembra.

Hana Kolodny dava aulas em Porto Alegre (Foto: Priscila Nicheli)
Em cena, Hana Kolodny empresta sua voz, sua carne e sua história a outras tantas vozes caladas pelo tempo. Como Lotte, ela também soube caminhar na sombra até entender que havia luz própria em seu ofício. Da infância resiliente à palhaçaria, dos clubes de stand-up às escolas da periferia, das lágrimas do drama ao riso da resistência, ela traçou uma jornada feita de coragem e cuidado. Ao lado de Carlos Vereza, dá forma a uma memória que insiste em não ser esquecida — e, ao fazer isso, honra todas as mulheres que sustentaram legados sem jamais assiná-los. No palco, Hana costura presente e passado com o mesmo gesto que, um dia, acolheu uma criança silenciada no recreio da escola: um gesto que escuta, inclui e transforma. Porque toda história que se cala guarda em si o potencial de se tornar voz. E, com Hana, o silêncio vira cena.
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