*Por Jeff Lessa
Um protesto diante do gabinete do governador republicano Gary Herbert, do estado de Utah, obteve resultado positivo: por incrível que pareça, o político decidiu escrever uma carta a seus colaboradores chamando a atenção para suas práticas homofóbicas.

Marcha por direitos LGBTQ em Utah – Jonathan Hull – Flickr Creative Commons
Tudo começou com a HB399, uma lei que determinava o fim da chamada “terapia de conversão”, processo pelo qual se tentava obter a “cura gay”. Geralmente a tal “cura” se dava através de práticas religiosas e já havia sido denunciada como “tortura improdutiva” pela comunidade médica.
Apesar de todas as evidências da inutilidade da terapia reunidas tanto pelos médicos quanto por militantes LGBTQs, a representante do Comitê Judiciário Republicano, Karianne Lisonbee, ignorou a lei e permitiu a continuidade da prática abusiva no estado.
Em uma carta para a comunidade LGBTQ, o governador afirmou que sentia remorso e pediu desculpas.
“Vocês merecem a nossa ajuda”, escreveu. “E merecem um futuro em que se sintam seguros, bem-vindos e amados em nosso estado. Tivemos um enorme mal-entendido e peço que me perdoem. Estou pronto para garantir a implantação de diretrizes que protejam nossa juventude LGBTQ”, disse. “Eu os convido a trabalhar conosco na legislação bem como todos os envolvidos para protegê-los e acabar com as práticas abusivas no estado de Utah.”
A lei permitia que a “conversão” fosse aplicada a menores, inclusive àqueles com questões envolvendo identidade de gênero.
O estado de Utah é considerado um dos mais conservadores dos Estados Unidos. Também detém uma das taxas de suicídio mais elevadas do país – números geralmente atribuídos às hostilidades entre a comunidade queer, o governo e a Igreja dos Santos dos Últimos Dias, que domina a vida pública na região.
Segundo a terapeuta sexual Kristin Hodson, apesar de toda a repressão histórica, o número de homens que têm relações sexuais com outros homens vem aumentando em Utah. “As pessoas estão cansadas de ouvir instituições como a Igreja e a Lei determinando o que elas podem ou não fazer”, acredita. “Quando você é mórmon, sua sexualidade é definida para você e as regras são estabelecidas no momento em que você nasce. Você é hétero, ou vão dizer que é só uma atração e que você pode superar isso”.
A terapeuta conta que muitos homens têm procurado seu consultório para falar de seu desejo por outros homens. “Não é porque sejam gays. É porque querem ter essa experiência”, diz. “Isso desloca a sexualidade do binário. Uma vez que as pessoas deixam de ter medo ou vergonha de seus desejos, elas passam a praticar sexo de maneiras mais seguras”.
Só nos resta esperar que pessoas como o governador e a doutora sejam ouvidas por aqui, não?

O estado de Utah é considerado um dos mais conservadores dos Estados Unidos
Artigos relacionados
Luan Brum retorna ao Brasil com 'Ben Hur' na Record e, após experiência na Argentina, nega ter sido alvo de preconceito
Prêmio do Humor chega à 9ª edição, celebra Marco Nanini e reforça espaço da comédia no cenário cultural
Marília Toledo, autora de musicais sobre Gal e Ney, critica machismo estrutural nas artes