*por Vítor Antunes
Vinda do bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, Gabriela Amerth já está construindo uma carreira internacional. Mas sua trajetória esteve longe de ser fácil — muito menos simples. “Soma-se a isso o valor do sacrifício, do esforço, do abrir mão. Sinto que meus pés estão permanentemente no chão”. Essa consciência e maturidade também vieram de uma experiência dura: Gabriela enfrentou um melanoma, um tipo de câncer de pele. “Esse tempo me fizeram entender que a vida é finita, nada nem ninguém é tão importante assim, e me ajuda a colocar nos problemas o tamanho que eles de fato têm. Tudo isso me muniu de uma cabeça boa – acho – para enfrentar um mercado que permeia muito pelo superficial e é bastante ligado à imagem”.
Após mais de 70 testes, ela fará seu primeiro papel de destaque no longa “Brownsville Bred”, que estreia no Los Angeles Latino Film Festival. Na obra, interpreta uma personagem neurodivergente com sensibilidade e estudo profundo. O filme conta a história real da diretora, Elaine Del Valle, e se apresenta como uma narrativa de amadurecimento — um coming-of-age ambientado no bairro marginalizado de Brownsville, no Brooklyn. “Parte do amadurecimento de Elaine passa pela amizade dela com a tia, Titi Elizabeth (minha personagem). Titi, que começa o filme no final de seus 20 anos e termina com 30, é neurodivergente. Seu cérebro não recebeu oxigênio suficiente no nascimento, e, portanto, ela não se desenvolveu cognitivamente como uma pessoa neurotípica. Tive cautela, e não quis usar de impedimentos físicos ou de fala. A primeira coisa que pensei foi não trabalhar com referências visuais, foquei em estudar sobre o assunto, vivências reais, e na humanidade de Titi”.
Enquanto não conseguia viver de arte, Gabriela acumulou diversos trabalhos: foi vendedora no Rock in Rio de 2015, trabalhou no catering das Olimpíadas de 2016, foi garçonete no Outback e até cantou nas ruas do Rio para arrecadar fundos visando imigrar. Morando nos Estados Unidos desde 2016 — mudança viabilizada também graças a uma vaquinha online para estudar artes cênicas —, passou por empregos como passeadora de cães, vendedora de bijuterias, host e garçonete em restaurantes, babá, gerente de estúdio e produtora. No entanto, aos poucos, seu nome começou a circular também no audiovisual: participou da série “Música”, da plataforma Prime Video, e foi figurante na premiada série “Succession”, da HBO. “Isso também me fez conhecer uma gama muito vasta de pessoas, aumentou meu repertório de maneira muito significativa, e minha compreensão de diferentes realidades e perspectivas. Acho que todos somos pessoas, ninguém é melhor do que ninguém, cada um tem seus desafios e dores, e acredito que essa é uma mentalidade boa de se ter nessa indústria”, reflete.

Gabriela Amerth passou por um câncer e trabalhou como babá nos EUA (Foto: Gira Lister)
Apesar do crescimento da carreira no exterior, Gabriela não esconde o desejo de retornar às telas brasileiras. “No Brasil, fiz muito teatro. Nos EUA, tenho feito bastante audiovisual. Acredito que não tenho um comparativo direto, mas imagino que a diferença seja de recursos. Para além do formato em que se trabalha, acredito que a diferença cultural seja a maior. Tenho muita vontade de fazer novela. Acho que a intensidade das gravações vai ser um desafio, mas quero viver essa experiência. Também seria uma delícia trabalhar com atores que admiro muito: Adriana Esteves, Wagner Moura, Fernanda Torres, Camila Pitanga, Lázaro Ramos, Selton Mello.
Ela não esconde suas ambições: “Quero ter uma carreira e o privilégio de viver 100% de atuação. Ainda sonho grande. Tenho sonhos quase que megalomaníacos, e acho importante tê-los porque a imaginação é meu maior gás para o movimento, é o que me trouxe aqui independente dos momentos mais difíceis de solidão”. Durante muito tempo, ela desejou ter sido descoberta ainda criança, acreditando que teria facilitado seu caminho, especialmente financeiramente. Mas hoje vê as coisas com outros olhos.
Hoje em dia agradeço pelas experiências que tive e por ser a pessoa que me tornei antes de outros olhos se voltarem para mim – Gabriela Amerth

Gabriela Amerth passou por desafios até fazer trabalhos nos Estados Unidos (Foto: Gira Lister)
Gabriela caminha com os pés fincados na realidade e o olhar voltado para horizontes largos — fruto de quem conheceu a dor e a beleza do recomeço. A cada queda, soube cultivar força; a cada silêncio, construiu voz. Hoje, não espera ser descoberta — ela própria se revela, com alma inteira, a quem souber enxergar.
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