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Filho do novo presidente da Argentina participou da 28ª Parada do Orgulho LGBTQ de Buenos Aires com apoio do pai

Estanislao Fernández, de 24 anos, é gay assumido, define a sexualidade como ‘fluida’ e namora há três anos a fotógrafa Natalia Leone

Publicado em 06/11/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

No último sábado, Buenos Aires realizou sua 28ª Parada do Orgulho LGBT. E adivinha quem estava lá, emprestando seu brilho à festa? Acertou quem disse Estanislao Fernández, de 24 anos, filho do recém-eleito presidente da Argentina, Alberto Fernández. O jovem, que é drag queen e cos player (artista que se veste como e interpreta personagens de animes, mangás e games. Cos player é a abreviação de costume player), estava caracterizado como sua personagem Dyhzy – nome, aliás, pelo qual é mais conhecido – sensação das noites portenhas. O presidente, que será empossado em 10 de dezembro, falou em defesa dos direitos da comunidade LGBT e saudou o próprio filho, que tem mais de 110 mil seguidores em seu Instagram. Aliás, foi via Instagram que Alberto Fernández mandou seu recado:

“Em uma sociedade que nos educou para a vergonha, ser livre é a melhor resposta. Vamos construir uma Argentina com mais direitos, onde reinem o amor e a igualdade. Vamos construir uma Argentina para todos, todas e todes. #Orgulho”

Estanislao Fernández caracterizado como Dyhzy durante a Parada do Orgulho LGBTQ de Buenos Aires (Reprodução do Instagram)

Estanislao desfilou em um dos 30 carros da parada (em espanhol, Marcha del Orgullo) e publicou no Insta: “Hoje nós mandamos uma mensagem de amor e aceitação de Buenos Aires para o mundo. O dia mais importante do ano chegou, o dia em que nos lembramos com afeição e orgulho todos os que caíram para que nós pudéssemos ser livres e felizes. É um dia para celebrar o orgulho de sermos quem somos, mas é, igualmente, um dia de reivindicações. Avançamos muito como sociedade e estamos em um caminho muito bom, mas até que a discriminação, a violência, o ódio e a impunidade contra nós deixem de existir, as reivindicações continuarão”.

O jovem ingressou no universo dos cosplayers influenciado pela paixão de uma namorada pela brincadeira de se caracterizar como personagens de mangás, animes e games. Ao mesmo tempo, travou contato com o mundo das drag queens. Homossexual assumido, ele namora há três anos com a fotógrafa Natalia Leone. A namorada é facilmente explicada: para Estanislao, que define a sexualidade como fluida, ficar com alguém não depende de gênero, mas da conexão que se tem com a pessoa.

Há poucos dias, ele respondeu a uma provocação do deputado federal pelo PSL Eduardo Bolsonaro, filho do presidente brasileiro, que publicou em seu Tweeter duas fotos lado a lado: à esquerda, a de Estanislao caracterizado como o personagem Pikachu, do desenho animado japonês “Pokémon”; à direita, a foto dele próprio de jeans e t-shirt preta segurando um fuzil. Na legenda se lia “Filho do presidente da Argentina / Filho do presidente do Brasil”. E o deputado acrescentou, a título de explicação: “Obs: isso não é um meme”. O argentino respondeu com poucas palavras em português: “Irmãos brasileiros, estamos juntos nessa luta. Os amo”.

Quando a primeira Marcha del Orgullo aconteceu, em 1992, apenas 300 pessoas compareceram. O caminho até essa edição foi longo, e os organizadores estimaram que 300 mil pessoas estiveram presentes ao evento de sábado (2), incluindo muitos estrangeiros. Em entrevista para o guia “Gay Cities”, Marcelo Costa, executivo do grupo de gestão de agências de turismo GEA Argentina, “A mente aberta e a cultura cosmopolita de Buenos Aires, junto com o pioneirismo em questões como as leis de igualdade no casamento e identidade de gênero estabeleceram a cidade como um destino top”.

A Argentina ostenta um histórico bastante liberal em termos de direitos LGBTs. A atividade sexual homossexual é considerada legal desde 1887. O casamento entre pessoas do mesmo sexo foi reconhecido em 2010 e o país é tido como um dos mais avançados do mundo no que diz respeito aos direitos dos trans. No entanto, a comunidade afirma que muito mais ainda pode ser feito. Durante a parada, vários participantes carregavam bandeiras exigindo educação mais inclusiva nas escolas, o direito ao aborto e o fim dos crimes de ódio.

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