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Em “Do Tempo em que Voyeur Precisava de Binóculos”, da escritora Luize Valente, os protagonistas circulam num universo pré-internet, offline e sem redes sociais

O livro propõe uma reflexão: como eram as relações amorosas num tempo nem tão distante assim, quando a comunicação por celulares e as chamadas de vídeo eram consideradas mera ficção científica?

Publicado em 17/09/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

Depois de se tornar conhecida por seus elegantes romances históricos, a escritora Luize Valente lança, nesta terça-feira (17), na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, seu primeiro livro de contos, “Do Tempo em que Voyeur Precisava de Binóculos”. Nas três histórias passadas nos anos 1990, os protagonistas circulam num universo pré-internet, offline, sem redes sociais. O livro propõe uma reflexão: como eram as relações amorosas num tempo nem tão distante assim, quando a comunicação por celulares e as chamadas de vídeo eram consideradas mera ficção científica?

Nos três contos, o amor entre mulheres é fundamental para o andamento das histórias. Em “De Repente o Mundo Ficou Realmente Grande”, um homem preso em casa por conta de um acidente que o impede de trabalhar por três meses passa a observar os moradores do prédio em frente para matar o tempo. Ao se apaixonar por uma vizinha que mantém uma relação com outra mulher, dá uma guinada radical em sua vida. Na segunda história, “O Dia em que Eva Acordou”, o amor de uma mulher reprimida pela cunhada a leva à libertação e à sua afirmação como pessoa e como ser sexual, que não se deixa mais dominar por terceiros. Para encerrar, em “(In) Cômodos”, um casal de mulheres percorre os cômodos da casa onde mora e usa uma infiltração no banheiro como pretexto para despejar o que jamais é dito no relacionamento.

“O amor entre essas mulheres aparece em três tempos. Na primeira trama, transforma, através da observação, o protagonista, mudando sua vida e seu modo de pensar. Na história de Eva, o amor pela cunhada é o motor interno que move a mulher em direção à libertação plena de sua sexualidade reprimida e de um casamento que a aprisiona. Já no ‘(In) Cômodos’, o amor é o protagonista e, como tal, está sujeito aos abalos de qualquer relacionamento humano”, explica a autora.

Os três contos não nasceram ontem, mas revelam uma maturidade e um domínio da escrita incomuns em uma escritora tão jovem (na época, a autora estava na faixa dos vinte e poucos anos). Luize conta que foram escritos na década de 1990 e passaram um longo tempo adormecidos. Foram digitados em um PC da IBM que Luize dividia com os dois irmãos. Em seguida, foram gravads em disquete, de onde passaram para disco compacto, seguindo para pen drive, HD externo e, finalmente, chegaram à nuvem, onde ainda repousaram por um tempinho até serem revisitados pela escritora. “Esses contos são completamente diferentes de tudo que eu desenvolvi ao longo da minha carreira”, observa Luize, jornalista formada e pós-graduada em Literatura Brasileira pela PUC-RJ.

Uma característica divertida (e necessária) do livro é o glossário que explica, logo na abertura, termos desconhecidos pelos mais jovens. Afinal, nem todo mundo é obrigado a saber o que quer dizer a gíria “prafrentex”, nascida nos anos 1960. (De acordo com o glossário, significa “Pra frente, ousado, moderno.”) Outro exemplo delicioso: “Os Waltons”. Quem com menos de 40 anos sabe que se tratava de uma série de TV produzida nos anos 1970 que mostrava “o dia a dia de uma família rural americana, formada pelos pais, sete filhos e os avós, na época da longa depressão que se seguiu à crise de 1929, nos EUA”? E um doce para a rapaziada que conseguir explicar o que era um pager… Trata-se de um “pequeno aparelho que podia ser encaixado no cinto ou no bolso da calça, onde eram recebidas mensagens curtas de texto.” Muito simples.

Luize conta que gosta de trabalhar com prazos – o que, definitivamente, não foi o caso de “Do Tempo em que Voyeur Precisava de Binóculos”. “Tenho optado por assinar contratos com data de entrega. É um hábito que vem dos deadlines das mais de duas décadas de jornalismo”, conta. “No romance histórico, porém, a pesquisa é parte fundamental do processo de criação. Quando não estou escrevendo, estou pesquisando, seja para o livro atual, seja para projetos futuros”.

Situações comuns, como o pavor diante da página em branco, a procrastinação ou o bloqueio criativo, são enfrentadas com muito suor: “Gosto muito de escrever, mas não encaro como hobby, é trabalho. Um trabalho que exerço com paixão, mas que exige disciplina e dedicação. Tem dias em que se está mais concentrado, outros menos. O exercício físico me ajuda bastante. No meu caso, a corrida. Muitas ideias e soluções me vêm à mente quando estou correndo. E também costumo estabelecer prazos”.

A escritora conta que tem mania de revisar seus textos inúmeras vezes antes de publicá-los. E que adora receber um feedback. “Faço revisões enquanto escrevo, muitas. E, quando termino, continuo fazendo, dezenas de vezes. Eu escrevo para o leitor, mostro o que escrevi para várias pessoas. É fundamental entregar o texto para outros leitores, além do editor, e ouvir comentários e críticas”, ressalta.

Nos últimos sete anos, Luize Valente publicou três romances históricos seguidos. O primeiro foi “O Segredo do Oratório”, de 2012, ficção que acompanha a busca da jovem médica Ioná pela origem de sua família. Neste percurso, ela passa pelo sertão nordestino, por São Paulo e Nova York, onde a primeira comunidade judaica foi fundada por judeus vindos do Brasil. “Uma Praça em Antuérpia”, de 2015, é ambientado nos dias de hoje e durante a Segunda Guerra Mundial e conta a história das irmãs portuguesas Olivia e Clarice. A primeira se casa com um português e vem para o Brasil. Clarice casa-se com um judeu alemão e vai morar em Antuérpia, na Bélgica. O romance mais recente é “Sonata em Auschwitz”, lançado em 2017. O livro acompanha a história de Amália, uma portuguesa com ascendência alemã que começa a levantar o véu do passado nazista de sua família a partir de uma partitura revelada por sua bisavó.

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SERVIÇO

Lançamento “Do Tempo em Que Voyeur Precisava de Binóculos”

Livraria da Travessa

Shopping Leblon: Av. Afrânio de Melo Franco 290, loja 205-A, Leblon – 3138-9600

Terça (17), às 19h

Editora Record   126 páginas   R$ 32,90

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