*por Rodrigo Otávio
Todas as atenções se voltam para o que ficou conhecido como “o caso Hytalo”. Desde a semana passada, quando o influenciador Felipe Bressamin Pereira — o Felca — publicou um vídeo em seu canal no YouTube, a discussão ganhou contornos mais profundos e inquietantes. Na gravação, ele denunciava como os conteúdos produzidos por Hytalo Santos se apoiavam em dinâmicas de adultização infantil que, por sua vez, eram convertidas em audiência, engajamento e, sobretudo, dinheiro.
O fenômeno faz muitos voltarem no tempo. Trata-se de uma engrenagem que envolve emissoras de televisão, anunciantes, empresas de entretenimento e até conjuntos musicais que, ao longo de décadas, lucraram com a exploração da imagem infantil em contextos de exposição vexatória ou de conotação sexual. A cultura de massa brasileira nunca hesitou em explorar a linha tênue entre infância, erotismo e consumo. Em cada década, o formato se transforma — dos programas de auditório à internet, dos brinquedos licenciados às coreografias no TikTok —, mas o princípio permanece inalterado: a sexualização de corpos, inclusive infantis, como espetáculo e negócio.
Nos anos 1980 e 1990, era comum ver crianças reproduzindo coreografias inspiradas em ícones da cultura pop e da música popular brasileira, muitas vezes carregadas de erotização. Dançarinas do grupo “É o Tchan!“, símbolos sexuais declarados de uma geração, emprestavam roupas, gestual e estilo para um público infantil que as tinha como referência. Em 1996, Carla Perez chegou a lançar uma linha de roupas voltada a crianças e adolescentes inspirada em sua própria imagem, consolidando uma indústria que misturava inocência e erotismo como produto de mercado.
Naquele mesmo ano, um dos lançamentos mais emblemáticos foi o brinquedo “Bambotchan” — um bambolê associado às coreografias das dançarinas do grupo. Ao som de letras que sugeriam a performance corporal de meninas — “menina que quebra é beleza pura / mexe a traseirinha minha pitchulinha” —, crianças eram incentivadas a reproduzir gestos sexualizados em um jogo de imitação. O brinquedo custava cerca de R$ 13, em um momento em que o salário mínimo girava em torno de R$ 112. Álbuns de figurinhas, chicletes, programas de televisão e campanhas publicitárias repetiam a mesma lógica: transformar a sexualidade adulta em mercadoria dirigida ao consumo infantil.

Carla Perez e o lançamento do Bambotchan (Foto: Reprodução)
Não existe banda mais erotizada que “É o Tchan”. Em seu disco “É o Tchan no Havaí“, havia 11 músicas que tinham uma referência ao traseiro feminino. As mulheres eram tratadas pelos codinomes “ordinária” e “safada”. Eram. No novo álbum, “É o Tchan na Selva“, contei, por alto, apenas quatro referências ao popô feminino (…) “É o Tchan” é um negócio lucrativo. Sacou que cativava a criançada. Infantilizou mais ainda suas letras. Seus álbuns são temáticos. O cenário do show parece um parque de diversões. Neste último, tem elefante e coqueiros de mentirinha. Criança sabe muito bem onde é o bumbum, popô, pipi etc. E “É o Tchan” aponta para uma direção: que arrebitar, rebolar, subir e descer é bonito e dá dinheiro. Os defensores do estilo Tchan dizem que quem malicia são os adultos – Marcelo Rubens Paiva, para a Folha, em 1999
Imitação da TV leva as crianças ao sexo
A manchete publicada pela Folha de S.Paulo em 1998 já antecipava um debate que, de lá para cá, só se tornou mais urgente: a hipersexualização da infância como espetáculo, entretenimento e negócio. A reportagem denunciava como, ao final da década de 1990, programas de televisão, músicas populares e até gincanas infantis incorporavam sem pudor uma linguagem sexualizada dirigida ao público infantil.
Não se tratava apenas do fenômeno É o Tchan!, cujas coreografias e letras de duplo sentido eram reproduzidas por crianças em festas de escola, programas de auditório e até em brinquedos licenciados. A lógica da “miniaturização” da cultura pop adulta se consolidava também em quadros de televisão. Um exemplo emblemático foi o concurso do Programa Raul Gil que, no limiar dos anos 2000, lançou o grupo Mulekada: três crianças, reproduzindo o trio de dançarinos do Tchan. O menino assumia o papel do “Jacaré”, enquanto duas meninas — uma loira e uma morena — imitavam as bailarinas Carla Perez e Scheila Carvalho. Vestiam roupas curtas, cantavam letras sugestivas e rebolavam para a câmera em performances que misturavam ingenuidade infantil e erotização explícita.
O sucesso foi imediato, e o lucro também. A Record, o apresentador Raul Gil e os produtores faturaram com a venda de CDs, VHS, DVDs, ingressos para shows e uma linha de produtos associados. O chamado “Jacarezinho”, ainda criança, chegou a cantar versos como “mexe, lourinha”, enquanto as meninas rebolavam de costas para a plateia televisiva. Era entretenimento vendido como inocente, mas que carregava toda a ambiguidade da exploração comercial da infância.

Eliana e as crianças do Mulekada (Foto: Reprodução)
No mesmo período, outro fenômeno televisivo acentuava essa fronteira borrada entre erotismo e consumo. O programa H, comandado por Luciano Huck na Bandeirantes, projetou duas personagens que se tornaram ícones da cultura pop dos anos 1990: Tiazinha (Suzana Alves) e Feiticeira (Joana Prado). A primeira encarnava de forma direta o fetiche sexual: máscara de BDSM, chicote em mãos, cera quente derramada sobre rapazes da plateia. A personagem não apenas excitava adolescentes em plena puberdade, como também se tornava referência para meninas que desejavam se vestir “como ela”. Daí derivaram roupas, álbuns de figurinhas, cadernos escolares, bijuterias e até brinquedos — entre eles, a própria máscara de couro e o chicote em versão infantil.
A Feiticeira, por sua vez, consolidava outra faceta do mesmo processo. Vestida de odalisca, com roupas mínimas e coreografias insinuantes, ela se tornava objeto de desejo de um público masculino e, ao mesmo tempo, produto de mercado. Bonecas, acessórios e revistas estampavam sua imagem, e a lógica era a mesma: transformar a sexualização televisiva em receita publicitária.
TAMBÉM HAVIA FETICHIZAÇÃO DE ADULTOS ATRAVÉS DA INFANTILIZAÇÃO
Não era incomum, sobretudo nos anos 1990, que adultos fossem infantilizados para alimentar o desejo masculino — uma prática que, sob os olhares atuais, seria profundamente problematizada. O caso de Simony é um exemplo emblemático: a cantora, conhecida desde a infância como integrante da Turma do Balão Mágico, posou nua logo após completar 18 anos. Mara Maravilha seguiu caminho semelhante, estampando ensaios sensuais ao mesmo tempo em que ainda comandava uma atração infantil no SBT.
Luciana Vendramini chegou a posar nua vestida de Paquita, reforçando uma lógica que misturava erotismo e referências ao universo infantil. Lídia Brondi, na teledramaturgia, foi apresentada como “ninfeta”, um estigma que atravessou gerações e, anos depois, se repetiria no fenômeno Mel Lisboa em Presença de Anita — mas vendida publicamente como a representação máxima da jovem sedutora. A interseção entre erotização e infância não era apenas um recurso de marketing: ela foi cristalizada em ensaios fotográficos, campanhas publicitárias e programas de TV, e ainda hoje sobrevive na forma de fetichização em sites de conteúdo adulto, que continuam a explorar a estética da “garota inocente”.

Kamylinha, da Turma do Hytalo. Ela foi emancipada para poder colocar silicone (Foto: Reprodução/g1 PB)
O que o caso Hytalo descortina é a atualização digital de uma engrenagem que já operava nas décadas de 1980, 1990 e 2000. O algoritmo das redes sociais, ao priorizar engajamento e viralização, apenas potencializa a exposição da infância em conteúdos hipersexualizados. A questão que se coloca é se esse episódio, tão ruidoso, será capaz de gerar debates duradouros ou se será mais um tema passageiro, limitado a legislações oportunistas e a indignações que têm prazo de validade — até que surja um escândalo maior e mais impactante.
Discute-se pouco sobre os danos à saúde mental e emocional das jovens que estiveram ao seu lado. Um exemplo é Kamilinha, adolescente de 17 anos que dançava em seus vídeos e hoje já se tornou alvo de buscas no Google que expõem o mesmo ciclo de voyeurismo: “Kamilinha está grávida?”, “Kamilinha mora onde?”, “Kamilinha dançando”. Emancipada legalmente aos 16 anos, a jovem colocou próteses de silicone ainda na adolescência, numa decisão que carrega consigo não apenas escolhas pessoais, mas pressões de um mercado que insiste em moldar corpos femininos desde cedo como objetos de desejo.

Xuxa na época do Clube da Criança, em 1984 (Foto: Reprodução/Cristina Granato/Manchete)
O problema é histórico. O que antes se consumia pela televisão aberta ou por meio de álbuns de figurinhas e brinquedos licenciados agora se multiplica em plataformas digitais, reforçado por algoritmos que premiam justamente o que mais choca e prende a atenção. Que a prisão de Hytalo sirva para mais do que manchetes. Que seja ponto de partida para um debate mais profundo, menos inflamado e mais resolutivo. Que, desta vez, o Brasil não espere mais quatro décadas para que o corpo de crianças e adolescentes seja finalmente respeitado como merece: fora da lógica da mercadoria e da exploração.
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