Daniela Stirbulov não é do tipo que recua diante de um palco cheio. Aos 38 anos, com 18 de carreira e uma trajetória que atravessa a atuação, a assistência e a direção, ela parece ter encontrado o ponto exato entre o rigor técnico e o risco criativo – dois elementos que, em teatro, andam sempre em tensão. Se a variedade de projetos revela versatilidade, ela também denuncia uma ausência: a de mulheres na direção de grandes produções. Daniela sabe disso – e prefere tratar o tema sem lamento, mas com clareza. “Cada vez mais mulheres ocupam cargos de liderança, e isso tem contribuído para transformar o imaginário coletivo, incentivando outras a acreditarem que também podem estar ali. Outro dia ouvi uma frase: ‘mulheres precisam trabalhar o dobro para conquistarem lugares de destaque’. É um fato. Eu trabalho muito e espero estar contribuindo com alguma mudança, além da minha realização pessoal. Não me prendo à dificuldade; sigo fazendo, criando, confiando, me afirmando. O desafio é que a presença das mulheres na direção se naturalize – que deixe de ser exceção e passe a ser parte essencial do panorama teatral contemporâneo.”
A fala é direta, mas nasce de experiência prática. Daniela já ocupou quase todos os lugares possíveis dentro de um teatro: atriz, assistente, diretora, professora. Em todos, observou uma assimetria persistente entre homens e mulheres, especialmente nos bastidores – o território onde as decisões são tomadas. O avanço é lento, embora palpável. A mudança, segundo ela, se faz na repetição dos gestos: uma mulher dirigindo outra, produzindo outra, contratando outra. “Muitas mulheres diretoras – incríveis – já abriram portas para mim. Mas basta olhar a proporção de indicações femininas em prêmios de direção para perceber que ainda temos muito a mudar. Alguns homens demoram a abrir mão de suas certezas e se deixar conduzir por uma mulher.”

Daniela Stirbulov: “Muitas mulheres diretoras – incríveis – já abriram portas para mim” (Foto: Ronaldo Gutierrez)
É dela a direção do clássico O Mercador de Veneza, de Shakespeare, protagonizado por Dan Stulbach e em cartaz no Tucarena, em São Paulo, até 14 de dezembro. A montagem, ambientada nos anos 1990, parte de um texto de mais de quatro séculos para discutir temas que continuam pulsando – dinheiro, poder, preconceito – e insere Shakespeare num tempo próximo o bastante para provocar desconforto.
A rotina de Daniela é de quem não sabe (ou não quer) trabalhar em um único registro. Quando não está imersa na densidade poética do Bardo inglês, ela circula entre musicais e espetáculos biográficos. Foi assistente de direção e diretora assistente do musical “Jersey Boys”, que encerrou temporada em setembro, e atua como diretora residente e codiretora de “Ney Matogrosso – Homem com H”, ainda em cartaz na capital. São produções com naturezas distintas, que exigem dela uma elasticidade quase atlética: o canto e a dança de um lado, a dramaturgia e o silêncio de outro. “As três produções têm equipes de altíssima competência, o que torna o processo leve e fluido. Mas são universos muito diferentes. O musical tem a música como eixo, o que exige um olhar técnico apurado, tanto para o trabalho vocal quanto corporal, além da complexidade dos departamentos. Já em “O Mercador de Veneza'” o eixo é o texto e a poesia. Decidimos ambientar a peça nos anos 90, já que Shakespeare sempre traz o desafio de ‘criar um universo’”.

“A carreira é instável, e o teatro, no Brasil, exige uma dose grande de fé – ou teimosia (Foto: Kassius Trindade)
O teatro, para Daniela, é menos um refúgio e mais uma forma de resistência. Ela não usa a palavra em tom heroico, mas quase administrativo, como quem descreve uma função: resistir é continuar produzindo, mesmo quando o país parece olhar para outro lado. “Ser artista é lidar com incertezas todos os dias”, diz, sem dramatização. “A carreira é instável, e o teatro, no Brasil, exige uma dose grande de fé – ou teimosia”.
O saldo, no entanto, não é de desencanto. Há entusiasmo no modo como ela fala do trabalho, da equipe, do público que ainda se dispõe a sair de casa para ver uma peça. Entre ensaios e estreias, Daniela constrói uma espécie de laboratório contínuo sobre o fazer teatral – e sobre o lugar das mulheres nesse ofício que, por tradição, foi comandado por vozes masculinas. A sua, cada vez mais firme, soa como uma espécie de contraponto: sem alarde, mas com precisão.
No palco e fora dele, ela ensaia o futuro que gostaria de ver: um teatro em que a presença feminina não precise mais ser notada – porque já se tornou, simplesmente, inevitável.
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