Se estivesse vivo, quem diria, Henfil estaria fazendo 70 anos. Faz sentido. Da turma de “O Pasquim”, o cartunista é daquela geração de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil e faz parte daquela rapaziada que sentiu na pele as agruras da ditadura, na época do “Brasil que vai para frente”. Para comemorar a icônica data, o Museu da República, no Rio, lança nesta quarta-feira, às 19h, a expo 70 anos de Henfil – “Morro, mas meu desenho fica”, com presença de gente tarimbada como o ator e diretor Paulo Betti, o escritor Sérgio Cabral, o jornalista Tárik de Souza e o artista Nelsinho Rodrigues (o Barba), que farão mesa redonda falando da memória, obra e relevância do seu trabalho. Achou tudo meio udi-grudi? Talvez, mas essa é a essência de um dos mais importantes artistas do período, do tipo que não se calava diante das mazelas, sendo fortemente perseguido pelas forças políticas da época.

Henfil: com participação ativa nas campanhas em prol da anistia e das “Diretas Já!”, legado na política e nas artes (Foto: Reprodução)
Sincero e engajado com poucos, basta lembrar o arranca-rabo que ele teve com Elis Regina em 1972, por conta de a cantora ter se apresentado (forçada, é verdade!) para o exército brasileiro. Ele não aceitava o fato e, passional como sempre, chegou a publicar no semanário uma charge enterrando a cantora, assim como perseguiu outros expoentes da cultura na época considerados por ele instrumentos do governo, como Pelé, Clarice Lispector, Marília Pêra, Wilson Simonal, Paulo Gracindo e Tarcísio Meira. Sim, sua caneta era sua metralhadora, e a coisa com Elis só acalmou quando ela, tempos depois, lançou “O Bêbado e o Equilibrista”, a música em que homenageava o irmão do chargista, Betinho, que havia sido exilado pelos militares. Anos mais tarde, ele confessou ter se arrependido do episódio.
Agora, a exposição vem bem a calhar porque, além da importância de sua figura e seu trabalho, a data é emblemática porque Henfil, morto no auge do reconhecimento, aos 44 anos de complicações com a AIDS, em 1988, faria o aniversário neste mesmo dia 5.
Além do coquetel e do bate papo com os convidados, o evento também será marcado pela apresentação de novos números da Coleção Fradim, que a ONG Henfil Educação e Sustentabilidade passou a relançar a partir do ano passado com o selo comemorativo “25 Anos sem Henfil – ‘Morro, mas meu desenho fica’”. A série, composta por 31 revistas lançadas originalmente entre 1970 e 1980 pelo cartunista, ganhou uma adicional edição zero e já conta com 12 revistas relançadas na íntegra, com previsão de disponibilização dos demais números até o final do mês comemorativo dos 70 anos. Marco histórico para a charge política, design gráfico e histórias em quadrinhos brazucas. E, seguindo o espírito democrático do autor, o evento é super aberto aos freqüentadores do Museu e quem quer que resolva dar pinta por lá. Confira!
Serviço:
“70 anos de Henfil – Morro, mas meu desenho fica”
Dia 05 de fevereiro de 2014, quarta-feira, às 19h00
Museu da República – Rua do Catete, 153 – Rio de Janeiro
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