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Crítica Teatral: “O Acompanhamento”, elogiado texto da dramaturgia argentina ganha ótima montagem no Brasil

"Drama estruturado em um visual coeso e coerente cujas marcas deixam o espectador seguro do que está vendo e assim mais aberto para a história e para se emocionar com ela"

Publicado em 06/05/2015 | Por Junior de Paula

* Por Rodrigo Monteiro

“O acompanhamento”, um dos textos mais famosos do teatro argentino contemporâneo, recebe montagem bem dirigida por Daniel Archangelo, com Wilmar Amaral e Roberto Frota em ótimos trabalhos no elenco. Na montagem original, o texto escrito em 1981 por Carlos Gorostiza representava a liberdade. A Argentina da ocasião estava sob o governo de Roberto Viola, o segundo presidente da sua ditadura militar, e essa dramaturgia dava conta de disfarçar, no ambiente familiar, o estímulo à reflexão crítica ao sistema de opressão. Mais de trinta anos depois, e no Brasil, a obra adquire significados diferentes, mas não menos modestos. Com muitos méritos, esse espetáculo tocante está em cartaz no Teatro Eva Herz, na Cinelândia, no Rio de Janeiro. Vale a pena ser visto!

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Wilmar Amaral e Roberto Frota: as estrelas de “O Acompanhamento”

Na história, o metalúrgico Tuco (Wilmar Amaral) abandona o emprego pouco antes de se aposentar para se dedicar à vida de sucesso que sonhou. No passado, o desejo de se tornar cantor foi enterrado depois de uma má apresentação no clube local. Na ocasião, Tuco havia tido, segundo ele, um acompanhamento aquém de suas necessidades, exigindo dele o alcance de notas que não lhe eram possíveis. O gesto de rebeldia de agora, na velhice, considerado loucura por seus familiares, foi motivado por Mingo, um amigo que lhe prometera auxílio nesse retorno. A peça começa com Tuco à espera de músicos que possam lhe oferecer um acompanhamento adequado às suas possibilidades, mas é Sebastian (Roberto Frota), um outro companheiro de juventude, quem aparece. Disposto a removê-lo de seus intentos e a fazê-lo voltar ao convívio familiar, Sebastian muda de opinião ao encontrar, em Tuco, a beleza de quem acredita que os sonhos são possíveis de se realizar. Nessa montagem de “O acompanhamento”, há a substituição das referências a Carlos Gardel (1890-1935) e ao tango argentino pela inclusão do repertório do cantor brasileiro Silvio Caldas (1908-1998), concentrando, nos movimentos da narrativa e nos diálogos, as responsabilidades pelo mérito da dramaturgia. Venceu plenamente todos os desafios. “O acompanhamento” é uma peça emocionante!

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Wilmar Amaral (Tuco) e Roberto Frota (Sebastian) dão vida aos personagens com emoção. Ao interpretar o protagonista disposto a manter viva a dúvida sobre a sanidade de Tuco durante boa parte da encenação, Amaral possibilita ao público fazer a catarse, criticar-se, refletir sobre como reagiria diante daquela situação: se ao lado da família, se ao seu lado. Por outro turno, ao permitir à plateia identificar as dúvidas de consciência de seu Sebastian, Roberto Frota faz, das pausas, os convites para a reflexão sobre a humanidade. Em ambos os casos, o tom atinge a audiência dentro do melhor que esse gênero prevê, o que, além de um mérito dos trabalhos de interpretação, é, sem dúvida, um valor da direção de Daniel Archangelo. O ritmo se mantém firme, ascendente e direcionado para o ápice em uma encenação que apresenta bem as quebras e as ênfases em quadros bem articulados na narrativa em cena única.

Os bons trabalhos do elenco encontram eco na viabilização do cenário de Carlos Augusto Campos e no figurino de Ricardo Rocha. “O acompanhamento” é um drama estruturado em um visual coeso e coerente cujas marcas deixam o espectador seguro do que está vendo e assim mais aberto para a história e para se emocionar com ela.

Ficha técnica:

Autor: Carlos Gorostiza
Tradução e Adaptação: Daniel Archangelo e Wilmar Amaral.
Direção: Daniel Archangelo
Elenco: Wilmar Amaral e Roberto Frota
Cenografia: Carlos Augusto Campos
Figurino: Ricardo Rocha
Iluminação: Daniel Archangelo
Contrarregra: João Batista
Assistente de Direção: Marianna Mugnaini
Assistente de Cenografia: Yuri Azevedo
Cabine: Daniele de Deus e Gustavo Martins
Realização: Wilmar Amaral Produções Culturais Ltda
Assessoria de Imprensa: Waléria De Carvalho
Formação de Platéia: Aline Peres
Art Designer: André Lacaz Amaral
Fotos: Luiz Luz

Serviço:

Onde: Teatro Eva Herz – R. Sen. Dantas, 45 – Centro – Rio de Janeiro/RJ
Quando: De 9 de abril a 30 de maio de 2015 – Quintas, sextas e sábados ás 19h30
Duração: 60 minutos
Quanto: R$40,00 inteira e R$20,00 meia

* Rodrigo Monteiro é dono do blog “Crítica Teatral” (clique aqui pra ler) , licenciado em Letras – Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, bacharel em Comunicação Social – Habilitação Realização Audiovisual, com Especialização em Roteiro e em Direção de Arte pela mesma universidade, e Mestre em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor no Curso de Bacharelado em Design da Faculdade SENAI/Cetiqt. Jurado do Prêmio de Teatro da APTR (Associação de Produtores Teatrais do Rio de Janeiro) desde 2012.

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