Brilhando no time de novas autoras, Renata Mizrahi, observadora perspicaz do cotidiano, — vencedora do Prêmio Shell em 2015, com a peça “Galápagos” — ficou impressionada com um quiprocó que tomou conta da Praça Nossa Sra. da Paz, em Ipanema, pouco antes da pandemia. Frequentadora do local com o filho pequeno, Gael, ela viu uma babá ser acusada, sem provas, de envenenar parte do gramado, com o suposto intuito de matar cachorros. O incidente, que colocou em primeiro plano não só a rixa entre mães de cães e de crianças, mas a questão da coexistência e os contrastes sociais da Zona Sul, inspirou Renata a dar forma ao texto “Coringa”. A obra dialoga com o universo do cotidiano que as atrizes Bianca Sacks e Bruna Macaciel, da Cia DUE, estavam justamente buscando para seu novo trabalho. “Há cinco anos estamos conversando com a Renata sobre a ideia de montar uma peça com esse enfoque”, contam Bianca e Bruna, idealizadoras do espetáculo que fica em cartaz até 12 de fevereiro, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema.

Contrastes sociais da Zona Sul dão o tom de “Coringa”, espetáculo inédito de Renata Mizrahi (Foto: Dalton Valério)
Na peça, as atrizes dão vida às personagens Lia (Bianca Sacks) e Mara (Bruna Macaciel), duas estranhas que se encontram em um apartamento em Ipanema para discutir quem deu veneno de rato a Coringa, o cachorro de Mara que quase morreu. Enquanto Mara tem certeza de que foi a babá do filho de Lia a culpada, e deseja uma punição, Lia, por sua vez, culpa Mara por permitir que seu cachorro invada a área das crianças em vez de ficar restrito ao Carandiru, nome do espaço destinado aos cães. Este embate que beira o nonsense, propõe uma crítica, com humor ácido, à nossa distópica realidade, feita de tantos paradoxos — afinal, em um ambiente urbano, na Zona Sul carioca, a riqueza convive de perto com a pobreza, naturalizando absurdos. Assim, fica em evidência na peça a “branquitude” e suas mazelas. “Falamos da bolha. Essa encenação é para criticarmos essas situações. Nossa proposta é gerar um debate sobre o privilégio da elite branca e como isso, constantemente, leva à cegueira e a um enorme abismo social. A quem pertence a verdade? Todo mundo tem a sua e ninguém quer abrir mão dela. Gosto de observar o macro pelo micro, colocando densidade em situações aparentemente banais, mas propulsoras de reflexões”, diz a autora e diretora.

Contrastes sociais da Zona Sul dão o tom de “Coringa”, espetáculo inédito de Renata Mizrahi (Foto: Dalton Valério)
Para dar forma ao espetáculo, Renata optou por uma concepção minimalista, que vai na direção do teatro surrealista, dando luz à própria situação absurda que o texto apresenta. “A encenação tem o objetivo de revelar a hipocrisia das personagens, sem medo de explorar mudanças bruscas de jogo de cena a cada degrau da peça”, explica.
A cenografia e figurinos são de Guilherme Reis (vencedor na categoria Melhor Direção de Arte do Prêmio FICC 2019 de cinema) e a trilha sonora e o design de som levam a assinatura de Felipe Dias. O desenho de luz é dos iluminadores Rommel Equer e Maurício Fuziyama.
O espetáculo “Coringa” foi contemplado pelo edital Retomada Cultural 2 da Secretaria de Estado e Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro. O texto recebeu ainda uma menção honrosa no Concurso Nacional de Dramaturgia Carlos Carvalho 2022, Porto Alegre, RS. Depois da temporada carioca, o espetáculo fará um circuito pela Região Serrana para mais quatro apresentações, totalizando 20 sessões.
Artigos relacionados
Luan Brum retorna ao Brasil com 'Ben Hur' na Record e, após experiência na Argentina, nega ter sido alvo de preconceito
Prêmio do Humor chega à 9ª edição, celebra Marco Nanini e reforça espaço da comédia no cenário cultural
Marília Toledo, autora de musicais sobre Gal e Ney, critica machismo estrutural nas artes