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Biblioteca pública americana cancela festa voltada para adolescentes LGBTQs depois de receber ameaças

Movimento contrário à iniciativa foi liderado pela famosa militante de direita Elizabeth Johnston, conhecida como Activist Mommy

Publicado em 26/06/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

A militante anti-LGBTQ americana Elizabeth Johnston, que atende pela alcunha de “Activist Mommy” (“Mami Ativista”, em tradução bastante literal), acabou de obter uma vitória para sua causa. Por conta de uma agressiva campanha por telefone (!!!), ela conseguiu cancelar um baile inclusivo para adolescentes LGBTQs que seria promovido pela biblioteca pública de Jacksonville, na Flórida. O motivo? Preocupação dos organizadores com a segurança dos jovens.

A Mami é conhecidíssima nos Estados Unidos por destilar um imenso desprezo contra LGBTQs, feministas e muçulmanos em seu canal no YouTube. Só para se ter noção de com quem estamos lidando, basta dizer que ela acredita (e divulga) que grupos LGBTQs se infiltram nas escolas para “estuprar as mentes” das crianças. Além disso, dedica boa parte de seu tempo a protestar contra a Planned Parenthood, associação sem fins lucrativos criada em Nova York em 1916 para fornecer cuidados com a saúde reprodutiva, atualmente responsável por metade dos abortos feitos legalmente nos Estados Unidos.

Elizabeth Johnston (Foto: divulgação)

A festa, chamada “The Storybook Pride Prom”, seria para adolescentes de 14 a 18 anos e aconteceria no Dia Internacional do Orgulho LGBTQ, 28 de junho. O convite dizia “Para celebrar o Mês Nacional do Orgulho, convidamos adolescentes LGBTQ a criar seus próprios ‘finais felizes’ no Storybook Pride Prom! Venha fantasiado como seu personagem preferido dos livros de contos – casual, formal ou travestido – da maneira que fizer você se sentir maravilhosx. Seja você!”

No entanto, a senhora Johnston encarou o anúncio do baile como uma declaração de guerra. “Demonstre o seu desgosto por essa perversão estar acontecendo em uma biblioteca sustentada com taxas pagas pelos contribuintes!”, postou no Facebook, junto com fotos das drag queens que participariam da festa.

“Peço perdão aos de estômagos sensíveis pelas imagens muito explícitas. Selecionei as fotos mais suaves para vocês. Se esses pervertidos querem prejudicar crianças, é meu dever denunciar! Sei que não é bonito!”, acrescentou a ativista.

Militantes na rua (Foto: divulgação)

Se por um lado ela não conseguiu cancelar definitivamente o evento com suas críticas, por outro foi muito bem sucedida em atiçar centenas de homofóbicos a ligar para a biblioteca e demonstrar seu ódio pela festa. As ameaças ficaram tão feias e pesadas que os responsáveis pelo evento, que deveria ser muito parecido com o famoso prom (festa de formatura realizada quando os jovens se despedem definitivamente da escola), decidiram adiar e marcar em outro lugar. Nem a data nem o local foram divulgados…

“Nós sentimos que não daria para garantir a segurança dos adolescentes num evento como esse”, disse o diretor de relações com a comunidade e marketing da biblioteca Chris Boivin, em entrevista ao canal de TV local WJAX.

De acordo com o WJAX, a Biblical Concepts Ministries (associação religiosa que que ensina conceitos da Bíblia em escolas particulares, seminários em igrejas, comunidades e grupos políticos nos Estados Unidos) enviou um e-mail para um número não revelado de pessoas com o assunto “Alerta de emergência” e a seguinte mensagem: “Falei com três conservadores da Câmara Municipal na última sexta-feira à tarde. Estavam chocados e desgostosos, e garantiram que impediriam essa insanidade inapropriada. Um membro da Câmara já havia conversado com um diretor da biblioteca que admitiu ter aprovado o evento”.

Jacksonville public library (Foto: divulgação)

Segundo o WJAX, o e-mail também encorajava a telefonar para o prefeito de Jacksonville, Lenny Curry, e para a Câmara Municipal, além de divulgar o evento nas igrejas. O diretor de relações com a comunidade contou ainda que um dos jovens que planejava comparecer à festa teria sido ameaçado de morte. Ele acrescentou que havia rumores sobre grupos contra e a favor do prom se reunindo do lado de fora da biblioteca: “Comecei a imaginar o ambiente se tornando incontrolável e a gente incapaz de proteger os garotos”.

Se há um lado bom nessa história toda… Não, não há lado bom. No entanto, tamanha demonstração de ódio gerou comentários positivos de pais pró-LGBTQs, que chegaram a agradecer aos diretores da biblioteca por organizar um evento inclusivo para seus filhos.

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