Átila Bee, ator da Baixada, vive o que seria o primeiro gay morto por homofobia no Brasil e é indicado a prêmio


No longa “Malu”, de Pedro Freire, o ator dá vida a Tibira, indígena tupinambá executado brutalmente no Maranhão, em 1613 ou 1614, naquele que é apontado como o primeiro assassinato por homofobia registrado no Brasil. O episódio, relatado pelo frade Yves d’Évreux e resgatado pelo ativista Luiz Mott em 1993, permanece pouco explorado na história oficial. O termo “Tibira” deriva do tupi e designa pessoas com comportamento homossexual. A atuação rendeu a Bee uma indicação ao Grande Otelo 2025, que celebra os destaques do audiovisual nacional

*por Vítor Antunes

Uma pessoa amarrada à boca de um canhão como pena de morte por ser homossexual. A execução dividiu o corpo em duas partes”. O relato, de extrema brutalidade, refere-se a um episódio ocorrido no Maranhão, em 1613 ou 1614, e permanece, até hoje, como uma ferida aberta e pouco explorada da história brasileira. Trata-se possivelmente do primeiro assassinato por homofobia documentado no território que viria a se tornar o Brasil. Invisibilizado por séculos, esse capítulo sombrio foi resgatado e dramatizado no filme Malu, de Pedro Freire, que deu ao ator Átila Bee uma indicação ao Prêmio Grande Otelo 2025, concedido pela Academia Brasileira de Cinema, na categoria Melhor Ator. Bee interpreta Tibira, personagem central da obra.

Viver o Tibira é um presente. Ele é muito cheio de significados. É um artista multifacetado. Tem muito respeito pelo ofício. E vai vivendo de todas as possibilidades que seu próprio talento permite. Ele sabe que a arte é tecnologia ancestral. Não por acaso, Flávio da Silva escolhe o nome Tibira, como um nome artístico de guerra, de batalha, em homenagem ao indígena que foi a primeira vítima de homofobia que se tem registro no Brasil, em 1614. Tibira do Maranhão – Átila Bee

O episódio é descrito originalmente pelo frade francês Yves d’Évreux, na obra Viagem ao norte do Brasil feita nos anos de 1613 a 1614. Segundo o missionário, um indígena tupinambá foi condenado à morte por “pecados contra a natureza” e executado por outro indígena a mando dos colonizadores franceses, nas margens do que hoje é São Luís do Maranhão. O nome “Tibira” não aparece no relato original, mas foi atribuído posteriormente pelo antropólogo e ativista Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia, que resgatou a narrativa em 1993 e passou a defender o reconhecimento do indígena como a primeira vítima da homofobia no Brasil.

A escolha do nome “Tibira” carrega, por si só, uma história densa e simbólica. O termo – com variantes como tivira – deriva da raiz tupi “tevi”, relacionada ao ânus ou às nádegas, e era usado entre povos de línguas tupi-guarani para designar aqueles que apresentavam comportamentos sodomitas, entre homens ou entre mulheres. Ou seja, Tibira é, nas tradições indígenas, um termo que remete diretamente à homossexualidade. Sua recuperação hoje, como nome de personagem e de guerra artística, tem o peso de uma reparação histórica e cultural.

Átila Bee vive o indígena Tibira em “Malu” de Pedro Freire” (Foto: Divulgação)

BAIXADA

Cria de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, Átila Bee tem trilhado uma trajetória sólida e múltipla nas artes cênicas e audiovisuais brasileiras. Com quase duas dezenas de curtas-metragens no currículo, além do documentário Rio, Negro — exibido em festivais internacionais — e agora o aclamado longa Malu, que estreou mundialmente no Festival de Sundance, venceu o Festival do Rio 2024 e acaba de chegar às plataformas de streaming, Bee consolida seu nome entre os artistas mais inquietos e engajados de sua geração. “Essa indicação já é um grande prêmio. É a confirmação de que fiz escolhas acertadas e trabalhei com muito respeito por tantos caminhos que passei. Caminhos que não foram fáceis, mas de aprendizados valiosos. É muito importante para mim estar ali, junto de tantos colegas que admiro”, celebra o ator, ao comentar sua indicação ao Prêmio Grande Otelo 2025, concedido pela Academia Brasileira de Cinema. A indicação é significativa não apenas do ponto de vista pessoal, mas também coletivo. Bee enfatiza o peso simbólico que essa conquista tem para a região onde cresceu. “São décadas construindo muita coisa juntos, então se eu chego nesse lugar, a culpa é muito da Baixada também. As coisas estão mudando aos poucos”, analisa, reconhecendo a importância de descentralizar o olhar sobre o fazer artístico no Brasil.

Atila Bee foi indicado a um prêmio importante no aclamado filme de Pedro Freire (Foto: Divulgação)

A cerimônia do Grande Otelo acontece no próximo dia 30 de julho, na Cidade das Artes Bibi Ferreira, no Rio de Janeiro, com transmissão ao vivo pelo YouTube da Academia e pelo Canal Brasil. Ao todo, serão entregues 30 prêmios — 29 deles definidos por um júri técnico formado por profissionais associados à Academia, e um escolhido pelo público: o Grande Otelo de Melhor Filme pelo Júri Popular, cuja votação será aberta no site oficial. Neste ano, o tema da premiação é “O cinema brasileiro no mundo”, reforçando a presença internacional crescente das produções nacionais. Foram inscritos mais de dois mil profissionais, competindo com 185 longas-metragens, 90 séries, 62 curtas e oito filmes ibero-americanos.

O ator é fundador da KarmaCírculus Cia de Teatro, onde atua também como dramaturgo e diretor. Integra o coletivo Cast Baixada e tem se notabilizado por uma abordagem cênica que mescla rigor técnico, pesquisa histórica e engajamento político. Em 2021, foi indicado ao Kikito, no Festival de Cinema de Gramado, por sua atuação no filme “Joãosinho da Goméa – O Rei do Candomblé”. Com uma trajetória profundamente marcada pela investigação das raízes afro-brasileiras, Bee tem se dedicado ao resgate de figuras históricas muitas vezes negligenciadas pela narrativa oficial. Entre os personagens que já interpretou estão Zumbi dos Palmares (1655–1695), Joãozinho da Goméia (1914–1971), o Almirante Negro João Cândido (1880–1969) e o jornalista e organizador cultural José Espinguela (1890–1944), nomes centrais na história da resistência negra no Brasil.

“São décadas construindo muita coisa juntos, então se eu chego nesse lugar, a culpa é muito da Baixada também (foto: Divulgação)

A interpretação de Átila Bee resgata não apenas a figura histórica de um mártir indígena esquecido, mas também escancara a continuidade da violência contra corpos dissidentes ao longo dos séculos. Em sua atuação, Tibira ganha corpo, voz e memória – memória esta que foi sistematicamente apagada por uma historiografia que silenciou identidades indígenas e dissidentes sexuais em nome de uma suposta moral colonial. A indicação ao Grande Otelo, portanto, transcende o reconhecimento artístico: é também um gesto político e reparador.