Aretha Sadick: atriz trans, vive três personagens cis. Sobre questões de gênero atualmente diz: “O momento é tenso”


A atriz brilha no cinema, teatro e TV, consolidando-se como um nome essencial na dramaturgia brasileira e, na mesma semana em que ela deu esse depoimento, o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, determinou o desestímulo a debates sobre questões de gênero. No longa “Vítimas do Dia”, interpreta Cinara, uma jovem presa em um supermercado durante um tiroteio. Em “Reencarne”, série do Globoplay, vive Camila, uma enfermeira envolvida em crimes sobrenaturais. A produção será exibida no Festival de Berlim, onde Aretha também participa da minissérie “Máscaras de Oxigênio (Não) Cairão Automaticamente”. Segue na segunda temporada de “Cidade de Deus”, no Max, e estreia o espetáculo “Avenida Paulista” em 2025. Sua trajetória reafirma a importância da diversidade nas artes e seu talento inegável

A atriz trans e negra Aretha Sadick integra o elenco do longa-metragem “Vítimas do Dia“, um retrato intenso da violência cotidiana no Rio de Janeiro. O filme marca o início de uma série de projetos para a atriz ao longo do ano. Aretha interpreta Cinara, uma jovem que trabalha como caixa de supermercado para custear seus estudos em Psicologia. Durante um tiroteio, ela e outras pessoas, entre funcionários e clientes, ficam presas no estabelecimento. No meio do caos, Cinara se torna essencial para manter Elder (Amaury Lorenzo) vivo. Sua esposa, ao saber do ocorrido, entra em trabalho de parto, desencadeando uma corrida contra o tempo: enquanto o bebê luta para nascer, o pai tenta sobreviver. “Quando recebi o convite do Hermínio Ribeiro, diretor de elenco, uma das impressões mais interessantes foi a possibilidade de dar vida a dramas reais de prestadores de serviço que atravessam diariamente o nosso cotidiano, como uma caixa de supermercado. O filme é um flerte entre o cinema e o teatro, pelo nível de dramaticidade exigida diante da situação proposta pelo roteiro e por conter poucos atores. Foi ótimo poder vivenciar dramas cotidianos cara a cara com a câmera”.

Para ela é importante a presença de atrizes e atores trans num momento turbulento do mundo: “É importante fomentar atrizes trans nas artes e em todas áreas de trabalho. O momento atual é tenso”, disse ela. Na mesma semana em que ela deu esse depoimento, o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, determinou o desestímulo a debates sobre questões de gênero. Dos três próximos trabalhos de Aretha, em apenas um ela vive uma personagem na qual a questão do gênero é abordada. Ou seja, há um processo de naturalização de que atrizes trans interpretem mulheres cis. Igualmente na última semana, a atriz Maria Clara Spinelli decidiu recolher-se da carreira em face de não haver a ela ofertas de personagens, ou ainda daqueles que não debatam a questão da transexualidade.

Aretha Sadick considera que o atual momento do mundo, em face do debate sobre as questões de gênero, é tensa (Foto: Divulgação)

Aretha Sadick considera que o atual momento do mundo, em face do debate sobre as questões de gênero, é tensa (Foto: Divulgação)

Em 2025, a atriz expandirá sua presença no Globoplay com a série de terror e suspense sobrenatural “Reencarne“. A trama acompanha um policial civil que, após passar anos preso acusado de assassinar um colega, decide tirar a própria vida ao sair da cadeia. Contudo, ele encontra Sandra (Julia Dalavia), que afirma ser a reencarnação do homem assassinado e que ambos precisam cumprir uma última missão juntos. Aretha interpreta Camila, uma enfermeira que se vê envolta nos crimes do assassino devido à sua mãe, interpretada por Grace Passô. Em meio a um dilema ético, Camila enfrenta uma jornada de transformação pessoal e moral, confrontando seus conceitos de justiça.

O elenco também conta com Taís Araújo, que interpreta uma investigadora capaz de incorporar espíritos. “Foi uma ótima convivência com Taís. Passamos quatro meses entre sets de filmagem e bastidores, e ela me acolheu muito bem durante todo o processo, sendo essa a minha primeira série com uma personagem de tanta relevância. Foi fascinante observar seu profissionalismo, sua técnica apurada e seu jeito descontraído de conduzir as coisas”, conta Aretha.

Aretha Sadick em “Vítimas do Dia” (Foto: Divulgação)

Reencarne” será exibida no Festival Internacional de Cinema de Berlim, um dos mais prestigiados do mundo, em fevereiro. No mesmo festival, também será apresentada a minissérie “Máscaras de Oxigênio (Não) Cairão Automaticamente“, produzida pelo streaming Max, na qual Aretha faz uma participação especial. “Estou muito animada! É uma honra ter dois trabalhos neste festival e saber que minha história está sendo eternizada no audiovisual é grandioso!”, celebra a atriz.

A atriz também segue na segunda temporada da série “Cidade de Deus“, do Max, que estreia ainda este ano. Sua personagem, Koral, uma travesti, se dedica integralmente à sua carreira de bailarina em uma renomada escola de dança. “A Koral está presente desde o início da história. Na primeira fase, ela e suas amigas (interpretadas por Luellem de Castro e Carol Dallfarra) sonhavam em se tornar estrelas do funk carioca, mas tiveram suas vidas impactadas pelos conflitos da cidade e seus dramas pessoais. Nesta segunda temporada, Koral assume maior autonomia sobre sua trajetória, focando nos estudos e em sua carreira de bailarina. É uma história de sonhos e superação, como tantas de jovens da periferia carioca que buscam vencer através da arte”, afirma Aretha.

Atualmente, ela ensaia o espetáculo inédito “Avenida Paulista, da Consolação ao Paraíso”, um retrato dinâmico das inquietações e histórias que atravessam a icônica avenida paulistana, dirigido por Felipe Hirsch, estreia no Teatro do SESI-SP em 15 de fevereiro de 2025, com sessões gratuitas de quinta a sábado, às 20h, e aos domingos, às 19h, ficando em cartaz até 29 de junho. Com um elenco de 18 atores, cada um interpreta média de 15 personagens, representando a diversidade social que permeia essa icônica avenida. Aretha dá vida à Musa de São Paulo, inspirada nos textos de Mário de Andrade, e a um Black Dandy. “É meu segundo musical; o primeiro foi “Macunaíma”, em 2019, dirigido por Iara Rennó, onde interpretei o protagonista. Foi uma experiência enriquecedora, no qual tive a oportunidade de cantar duas músicas e absorver aprendizados valiosos”, relembra Aretha.

Aretha Sadick segue desenhando sua trajetória com a precisão de quem compreende a arte como espelho e resistência. Entre o cinema, o teatro e a televisão, sua presença ecoa como um manifesto de visibilidade e talento, entrelaçando histórias que atravessam tempos e fronteiras. Seja na tensão de um tiroteio fictício ou na poesia pulsante da Avenida Paulista, sua atuação vai além das telas e dos palcos: é uma afirmação de existência, um sopro de transformação. No mundo que ainda hesita em abraçar a diversidade, Aretha caminha firme, abrindo portas, reescrevendo narrativas e provando que seu nome, como sua arte, está longe de ser passageiro.