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Após demissão, Nando Cunha critica SBT: “O negro é tratado de forma estereotipada”

Ele estava no ar em "As aventuras de Poliana", de Íris Abravanel, mas, após o fim do contrato, seu personagem teve uma morte dramática: "Poderia ter sido mais ameno, em respeito às crianças e ao público da novela".

Publicado em 16/05/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Karina Kuperman

O folhetim “Aventuras de Poliana”, do SBT, já chegou ao capítulo 250, mas está longe de terminar. Essa semana, porém, os bastidores da trama é que tiveram um desfecho dramático. Foi ao ar uma cena em que o personagem Ciro, vivido por Nando Cunha, morre após o teto de sua casa desabar no meio de uma tempestade. Por trás da trágica morte fictícia, o que se sabe é que intérprete não teve seu contrato renovado com o SBT, e, pelo visto, saiu fechando as portas na emissora paulista.

O ator usou suas redes sociais para falar sobre o assunto: “Vocês já devem ter visto a polêmica entrevista que dei sobre a minha saída do SBT. Só tentei ser honesto. Teve a contrapartida da emissora dizendo que meu final já era dado como certo e já estava na sinopse. Mentira. Não quero criar polêmica, não sei quem respondeu pelo SBT, mas ninguém sabia dessa morte, não estava para ser escrito. Isso foi uma resolução depois que resolveram não renovar o contrato comigo”, contou ele, criticando a forma como a autora, Íris Abravanel, retratou a morte do personagem. “Poderia ter sido um final mais ameno em respeito às crianças e ao público da novela”.

Nando Cunha desaprova morte trágica de seu personagem (Foto: Reprodução/SBT)

Além disso, Nando desabafou sobre um suposto caso de racismo e assédio por parte de uma produtora de elenco. “Na prova de figurino, me deram qualquer tênis e qualquer roupa para usar, sem nem me ouvir. Ela [a produtora] colocou o dedo na minha cara dizendo que eu não tinha que questionar nada, só fazer o que ela estava mandando. Eu tenho que acatar ordens da direção, que, na verdade, são direcionamentos de cena. Sou um artista, tenho 28 de carreira”, disse, e foi além: “Teve até uma polêmica que se criou na época de uma cena de racismo na novela… se me perturbarem muito eu vazo um áudio…”, avisou, sem especificar sobre o que se tratava o tal áudio. A cena, porém, foi entre as atrizes Duda Pimenta e Elina de Souza. “A gente batalhou para que fosse mudada. Uma coordenadora negra fala para uma menina negra que racismo é coisa da nossa cabeça. As redes sociais da atriz foram tomadas, mas não é ela quem pensa assim, é a autora”.

Nando Cunha critica desfecho da trama do SBT (Foto: Reprodução/Instagram)

A emissora do dono do baú se pronunciou sobre o caso: No roteiro da autora Íris Abravanel, a morte do personagem Ciro já estava prevista. Provavelmente o ator imaginou que seu desempenho poderia reverter a história, o que não ocorreu. Foi verificado que todas as outras acusações de Nando Cunha descritas não têm nenhum fundamento, ao contrário, o ator sempre foi bem tratado por todos da equipe de teledramaturgia”, informou o comunicado oficial. Nando retrucou: “Quem sou eu para achar que vou mudar o rumo de uma história?”, disse ele, que classifica sua demissão como algo libertador e garante que não voltaria a trabalhar na emissora de Sílvio Santos, caso recebesse novo convite. Perguntado sobre a importância da trama em sua carreira, alfinetou: “Nada de muito relevante. Foi mais um trabalho dentro desse meu ofício que gosto tanto de exercer”.

Nando Cunha viveu Ciro em “As aventuras de Poliana” (Foto: Reprodução/SBT)

Essa não é a primeira vez que o ator, que, na Globo, já trabalhou em tramas como “Salve Jorge”, de 2012, e “Geração Brasil”, de 2014, questiona as escolhas da autora, Íris Abravanel. Nando chegou a dizer que o texto “conservador” foi um choque para ele. “Eu vejo um texto extremamente de direita. Eles querem passar a história de uma família conservadora tradicional brasileira e coisas dessa nova onda, e não mostram a diversidade, tem medo de falar. A novela não dialoga com os diversos tipos de relacionamentos que temos na sociedade, não tem um casal gay, as diversas formas de gênero”, criticou. “O próprio negro é tratado de forma estereotipada. É uma família de negros pobres em uma comunidade. Por que não colocaram meu personagem como dono de colégio e minha mulher como uma empresária bem-sucedida?”, disparou.

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