Música & Badalo

Zé Manoel lança segundo disco e afirma: “Se dependermos das rádios ou TVs, viveremos em um mundo onde só existe o sertanejo”

“Canção e Silêncio” saiu do forno graças ao projeto Natura Musical, que patrocina novos talentos e artistas consagrados. Zé Manoel conversou com HT antes do lançamento, dia 17 de junho , no Rio de Janeiro

Publicado em 15/06/2015 | Por Lucas Rezende

(Foto: Miguel Solano)

(Foto: Miguel Solano)

Difícil, muito difícil, você nunca ter ouvido falar ou escutado alguma música de Karina Buhr, Marcelo Jeneci, Céu ou Tulipa Ruiz. Eles são hoje fortes expoentes da música que despontaram não há muito tempo na cena, mas que já fazem um grande barulho com som e estilo únicos e, volta e meia, aparecem aqui por HT. Por que lembramos deles? São bons nomes para exemplificar o papel que a Natura e seu projeto Natura Musical vem desempenhando na indústria fonográfica brasileira, patrocinando novos talentos e artistas consagrados em momentos emblemáticos da carreira. Para tanto, utilizam de editais públicos, da Lei do ICMS, de seleção direta e festivais.

A proposta, tão importante para alçar bons talentos – vide os nomes já consolidados -, chamou nossa atenção devido ao mais recente artista que  recebeu um empurrão do Natura Musical: Zé Manoel. O músico foi selecionado pelo edital nacional 2013, e acabou de gravar seu segundo disco, o “Canção e Silêncio”, que está prestes a  ser lançado no dia 17 de junho, às 21h, no Solar de Botafogo, no Rio de Janeiro.

E nós, é claro, tratamos de conhecer mais o rapaz, que reconhece que, em meio a tantas adversidades da indústria fonográfica, esse projeto cai como uma luva. “Isso me faz pensar na importância de um projeto como esse em um momento de grande efervescência e diversidade nas produções. Estamos atravessando uma crise em todos os segmentos da sociedade e com a música não está sendo diferente. A Natura surge como uma luz, num momento de incertezas e de reconfiguração do mercado da música”, analisa Zé Manoel.

E quando ele fala de efervescência nas produções, não é da boca para fora. Seu segundo trabalho conta um time de alta patente: a produção é de Kassin e Miranda, e reúne os parceiros Tutty Moreno, o maestro e arranjador Letieres Leite e participações de Pupillo (da Nação Zumbi), Fábio Negroni (da Caixa Preta), do guitarrista e compositor pernambucano Juliano Holanda e da cantora Isadora Melo.

Se ele gostou do resultado? Tanto, que faz até metáfora.”Se tocar é uma viagem, como se diz, eles são parceiros de viagens incríveis e também generosos. A música possibilita esse tipo de acontecimento na vida da gente. Tocar com Kassin e Tutty Moreno, com Pupillo, com Juliano Holanda, enfim, com cada um dos músicos que fizeram parte dessa viagem, foi um dos grandes presentes desse projeto”, comenta.

Zé Manoel ainda conta que “Canção e Silêncio” é um trabalho verídico, inspirado em uma história real, inicialmente contada em “Sereno Mar”,  que serve de roteiro para todas as outras faixas do disco. “É uma história de um pescador da cidade de Olinda, que ao se deparar com a morte e desaparecimento no mar, do seu filho, também pescador, depois de tentativas frustradas de resgate pelos bombeiros, resolve armar a sua rede e com toda sua experiência e sabedoria de homem do mar, consegue pescá-lo. Um enredo que parece saído das canções praieiras do mestre Dorival Caymmi e das pinturas de Carybé. É um disco de canções marítimas, em referência e reverência ao universo de Caymmi, mas também de canções ribeirinhas e urbanas”, explica.

(Foto: Marcelo Soares)

(Foto: Marcelo Soares)

Papo vai, papo vem, Zé Manoel também falou das influências que recebe por estar à margem do rio São Francisco, da necessidade de se dosar o ritmo do streaming de música e não deixa barato quando o assunto é direito autoral: “infelizmente viveremos em um mundo paralelo onde só existe o sertanejo universitário”, afirma. Conheça mais de Zé Manoel, uma grata surpresa que o sertão de Pernambuco nos deu.

HT: Como surgiu o interesse pela música? 

ZM: Foi surgindo naturalmente. Inicialmente através do meu pai, que tocava violão em casa, nos seus momentos mais descontraídos e com a minha mãe que sempre escutou muita música em casa. Ao mesmo tempo, a minha irmã, Roberta, começou a ter aulas com uma professora de violão que dava aulas na nossa casa. Só de observar as aulas, eu e meus irmãos acabamos aprendendo também. Mas, com o passar do tempo, fui cada vez me interessando mais e mergulhando num mar sem volta, onde a música imperava. O violão acabou sendo substituído pelo teclado, que saiu de cena quando conheci o piano e a minha professora Lúcia Costa. Decidi que essa seria a minha profissão por volta dos 17 anos, mesmo com a resistência dos meus pais. Logo depois já estava começando a fazer os meus primeiros trabalhos como profissional da música.

HT: Você vem de Petrolina, Pernambuco. Como inclui a bagagem regional e cultural na sua música? 

ZM: Ela vem de forma muito espontânea, pois estou impregnado das paisagens, dos sentimentos, sonoridades e das memórias afetivas desse lugar à margem do rio São Francisco. Não faço o mínimo esforço pra visitar esse lugar quando componho, ele surge naturalmente e está muito presente nos meus trabalhos. Recife, a cidade que me acolheu também passa a estar muito presente, inclusive nesse disco é cenário de várias canções. Além dos músicos que convidei para trazer um pouco do som da cidade, Juliano Holanda, Isadora Melo, Johann Brehmer e o arranjador Mateus Alves.

HT: Como é fazer e trabalhar com música em tempos de download gratuito? 

ZM: A gente passa por um período de reconhecimento no mercado da música, no Brasil especialmente, que é onde circulo. Essa mudança de formato da indústria da música ainda está sendo assimilada, tanto pelos artistas quanto pelas empresas e produtoras, acredito. Vejo o download gratuito como uma solução (opcional) temporária para o momento em que vivemos, mas não compartilho desse papo de que não se deve cobrar pela música, que no futuro a gratuidade vai imperar. Por que tem que sobrar exatamente para o músico-artista o papel de viver pela paixão desapegada de grana e qualquer retorno financeiro, sendo que produtores, estúdio, músicos participantes, todos ganham pelos seus trabalhos? Além de que existe um custo, investimento para todos os profissionais envolvidos nesse processo. Acredito que a arte deve ser, sim, acessível a todos, isso é primordial, mas precisamos achar um equilíbrio para que os que os artistas não acabem sendo penalizados por simplesmente fazerem o que fazem. Já que não se ganha mais com a venda de discos e a circulação dos shows também não são fáceis, sem o investimento de empresas privadas ou públicas.

(Crédito Pedro Ivo Carvalho)

(Crédito Pedro Ivo Carvalho)

HT: Como você encara a questão de direitos autorais e pirataria?

ZM: Acho importante a regulamentação e cumprimento de leis que protejam o autor e sua obra. Não é uma proteção contra quem consome, mas pelo fato de estarmos inseridos num mercado, precisamos estar assegurados de que não seremos lesados por outros segmentos desse mercado. Sobre a pirataria, difícil ter uma opinião firme, sinceramente oscilo muito. Um dos motivos é acreditar que a música deve estar ao acesso de todos. Se dependermos das rádios ou TVs, infelizmente viveremos em um mundo paralelo onde só existe o sertanejo universitário.

HT: Quais são suas influências musicais? O que costuma ouvir no dia a dia?

ZM: Sou influenciado por tudo o que ouvi até hoje, seja no estudo de piano clássico e popular, o universo maravilhoso de Caymmi, onde me reconheço… As músicas que ouvia na rádio, Fernando Mendes, Luiz Gonzaga, Marinês e sua Gente, Trio Nordestino…. Acho que pelo fato de ter sonhado muito tempo em ser um compositor erudito, às vezes tento adentrar esse universo, mas minha bagagem é extremamente popular. Tenho escutado muito a produção atual e acho que vivemos um momento incrível na música brasileira. Mas ainda me emociono ouvindo Marinês, Luiz Gonzaga, Dick Farney, Caymmi e Ernesto Nazareth.

Serviço

ZÉ MANOEL

Show “Canção e Silêncio”

Direção: João Falcão

Participação especial: Isadora Melo

Data: dia 17 de junho (quarta-feira)

Local: Solar de Botafogo (R. General Polidoro, 180 – Botafogo – 2543 5411)

Horário: 21h

Ingressos: R$ 50,00, R$ 40,00 (lista amiga em musicanosolar@gmail.com) e R$ 25,00 (meia entrada)

Vendas: www.ingresso.com e na bilheteria do teatro

Capacidade: 180 lugares

Classificação etária: 14 anos

 

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