Wanessa Camargo revela bastidores da gravação de ‘Metamorfose’ e diz como se libertou de dores acumuladas


“Tiveram momentos em que eu realmente andei na corda bamba, no perigo mesmo. Parecia que eu ia me perder de mim. Fui me cuidar, fazer terapia”. E nesse terreno de vulnerabilidade, novas camadas surgiram. Ir para o ‘casulo’, como ela própria define, tornou-se símbolo de renascimento”, desabafa Wanessa, que hoje, dia 15, estará no palco do Qualistage, registrando o espetáculo “Metamorfose'”. Nesta entrevista, Wanessa recorda o caminho até aqui, marcado por liberdade, dores, superações e fases decisivas com críticas e comparações e batalha contra inseguranças. Em conversa franca, ela diz: “Estou solteira, mas não quero virar uma cínica. Se eu tiver que me apaixonar 20 vezes e sofrer 20 vezes, vou. Gosto de viver. O que não pode é ter medo”, conta o que espera do ‘Dança dos Famosos’, avalia com distanciamento a experiência no BBB 24, e o chamado ‘cancelamento’; comenta sua relação com as redes, e o fim do ciclo com Dado Dolabella

*Por Brunna Condini

Entre os ensaios do show para a gravação do novo DVD ‘Metamorfose’, em que celebra seus 25 anos de carreira, neste sábado (dia 15) no palco do Qualistage, no Rio de Janeiro – o mesmo onde gravou seu primeiro DVD em 2003 – e a Dança dos Famosos, quadro do Domingão com Huck, da Globo, Wanessa Camargo falou com exclusividade sobre a atual fase. A cantora diz que vive um momento intenso de trabalho, e revela que está na contagem regressiva para os 43 anos sem culpas ou ‘pesos’ extras. É uma boa colheita para tanto tempo de trabalho? “Falamos muito que colhemos o que plantamos, né? Mas ouvi uma pessoa algo muito interessante: ‘se você planta alguma coisa em um solo que não está bom, pode ser a melhor semente do mundo, mas não vai conseguir colher’. Quando trabalhamos nosso interior, amor próprio, segurança, coragem, caráter, aí a gente prepara um chão bom para qualquer coisa ser plantada. Então, sim, estou em uma fase que parece que estou colhendo o que plantei. Venho colhendo, porque o meu solo está sendo adubado para isso, é algo contínuo”.

Entre reflexões e conversas sobre a nova fase profissional, renascimentos, relação com as redes, amizade, vida afetiva, maturidade, ‘cancelamento’, saúde emocional e até o capítulo já encerrado com Dado Dolabella, Wanessa revisita sua história com a coragem de quem transformou mesmo as experiências mais dolorosas em solo fértil. Em ‘Metamorfose’, ela celebra não apenas mais de duas décadas de trajetória, mas todas as versões de si mesma, que a trouxeram até aqui: “O meu nome significa  ‘borboleta’. E sempre fui isso: lagarta, casulo e a borboleta em si, muitas vezes ao mesmo tempo. Sempre me reinventei e fui muito criticada por isso, mas essa é quem sou. Canto sertanejo, eletrônico, romântico… e dane-se quem acha que isso é não ter identidade. Sou essa pluralidade e gosto de experimentar”. Ao revisitar o caminho, ela lembra também dos pontos de ruptura: as inseguranças no início da carreira, as comparações, as críticas que a feriram, episódios que a levaram a viver síndrome do pânico, bulimia e uma batalha interna pela própria autoestima.

Wanessa celebra 25 anos de carreira com o DVD ‘Metamorfose’ e revisita sua trajetória em fase de força e renascimento (Foto: Ita Mazzutti)

Wanessa celebra 25 anos de carreira com o DVD ‘Metamorfose’ e revisita sua trajetória em fase de força e renascimento (Foto: Ita Mazzutti)

A ‘Lagarta’ foi o começo, né? A empolgação, o deslumbre, o conto de fadas. E aí, logo em seguida, fui tomando umas porradas. Vaias, críticas, comparações, desmerecimento… E aquilo me impactou de uma forma muito negativa”, lembra. A pressão estética e de performance musical, somada às expectativas alheias, abriu brechas internas difíceis de administrar. “As inseguranças que já existiam se ampliaram. O não me achar suficiente, não me achar capaz… e nisso veio a síndrome do pânico, veio um monte de transtornos. Tive bulimia e um princípio de anorexia. Fui me encolhendo. Tiveram momentos em que eu realmente andei na corda bamba, no perigo mesmo, sabe? Parecia que eu ia me perder de mim. Fui me cuidar, fazer terapia”. E nesse terreno de vulnerabilidade, novas camadas surgiram. Ir para o ‘casulo’, como ela própria define, tornou-se símbolo de renascimento:

Ficar nesse ‘casulo’ aconteceu na minha vida no momento certo e foi a melhor coisa. Foi quando percebi que tinha muita dor acumulada. E eu permiti que isso entrasse em mim, mas também permiti que isso me transformasse – Wanessa Camargo

"Quando trabalhamos nosso interior, nosso amor próprio, nossa segurança, coragem, caráter, aí a gente prepara um solo bom para qualquer coisa ser plantada" (Foto: Ita Mazzutti)

“Quando trabalhamos nosso interior, nosso amor próprio, nossa segurança, coragem, caráter, aí a gente prepara um solo bom para qualquer coisa ser plantada” (Foto: Ita Mazzutti)

A reconstrução, porém, não foi solitária. Para Wanessa, o sentido de maturidade tem relação direta com as pessoas que permaneceram ao seu lado. “Em vários momentos em que eu não tinha força pra me levantar, fui levantada. Pela minha família, pelos meus amigos, pelos fãs. Isso é a maior colheita que a gente pode ter”, afirma. “É isso, quando cultivamos um solo bom, atraímos pessoas que seguram a nossa plantação quando tudo parece ruir.

O episódio mais recente desse processo foi vivido sob os holofotes do Big Brother Brasil 24, experiência que a cantora classifica como o último mergulho no fundo do poço antes de emergir definitivamente. “O BBB foi a última vez que eu caí de cara. Mas depois disso, tenho certeza da minha força. Hoje, pra me derrubar, vai ter que fazer muito. Porque sei quem eu sou”, garante, ao recordar a experiência no reality que culminou na sua eliminação após um desentendimento com o participante Davi. Sobre o chamado ‘cancelamento’, ela é direta: “Foi uma ilusão, veio muito de fora. Na minha vida real, eu nunca fui tão amada. Nunca recebi tanto abraço, tanto acolhimento. Separei o joio do trigo e vi quem realmente está comigo”. 

Wanessa Camargo quando participou do BBB24 (Imagem: Reprodução/Globo)

Wanessa Camargo quando participou do BBB24 (Imagem: Reprodução/Globo)

Sem fugir de temas sensíveis, ela também fala com serenidade sobre o nome de Dado Dolabella, de quem está separada desde o início do ano, seguir associado ao seu, especialmente após as recentes polêmicas envolvendo o ator:

O Dado foi um capítulo importante da minha vida e torço verdadeiramente por ele. Quando conhecemos as pessoas no íntimo, sabemos das dores. Essa volta (eles namoraram de 2000 a 2002; depois em 2003 e reataram em 2022) foi um ciclo que eu precisava fechar. E fechei com muita paz. Hoje sigo a minha vida e espero que ele siga a dele, encontrando o melhor caminho. Talvez, lá na frente, fique uma amizade boa – Wanessa Camargo

Dança dos Famosos

Enquanto amadurece pessoalmente, artisticamente Wanessa segue se expandindo. E definitivamente não teme sair da zona de conforto: bem antes do ‘Dança‘ e do BBB, a cantora já havia participado do talent show ‘Popstar‘, na Globo (2017-2018); do ‘Show dos Famosos’ (2021), e da ‘Batalha do Lip Sync‘, ambos também ‘no Domingão’. A participação no Dança dos Famosos reacendeu sua paixão pela disciplina do corpo, pela pesquisa de movimento e pela construção de novas narrativas. Será que dessa competição ela espera sair vencedora?

Quero muito ganhar o ‘Dança’, não só pelo troféu, mas pela experiência. Essa semana, por exemplo, estava tendo workshop com uma cigana, aprendendo movimento cigano. E acabo usando isso no meu trabalho. É um aprendizado lindo. Não estou competindo com ninguém ali, só comigo. Quero entregar o meu melhor – Wanessa Camargo

Wanessa Camargo no 'Dança dos Famosos' 2025 (Imagem: Reprodução/Globo)

Wanessa Camargo no ‘Dança dos Famosos’ 2025 (Imagem: Reprodução/Globo)

A experiência na dança também lhe deu uma nova ‘irmã’ de vida: Nicole Bahls. “Ela é um dos maiores presentes desse momento. Leal, verdadeira, carinhosa. Uma das pessoas mais incríveis do meu meio. Aqui no Rio, estou morando na casa dela! Agora ela não está lá, então fico perguntando quando volta, digo pra vir logo, pelo amor de Deus! Sinto falta, diverte-se.

Reposicionando o olhar

As comparações, com colegas, com padrões externos e até dentro da própria família, também marcaram profundamente seu caminho. Wanessa revisita esse tema com sinceridade. “A comparação, ela sempre é cruel se você também começa a se comparar”, diz. A cantora lembra que, por muito tempo, sentiu o peso de não se achar “à altura” de quem admirava. “Demorei para começar a escrever música porque achava que nunca ia conseguir escrever uma  tão linda como a do meu pai (o sucesso ‘É o amor’, feita por Zezé Di Camargo e o tio Luciano). Entende onde é cruel?”. O mesmo aconteceu quando olhava para contemporâneas de sua geração. “Me comparavam com a Sandy, e muitas vezes eu também me comparava,  com o corpo, com a beleza, com a voz. Pensava: ‘nunca vou conseguir’. E aí você deixa aquilo entrar, né?”. A virada veio quando ela conseguiu reposicionar o olhar:

"Permiti que a dor entrasse, mas também que me transformasse" (Foto: Reprodução/Instagram)

“Permiti que a dor entrasse, mas também que me transformasse” (Foto: Reprodução/Instagram)

Parei de comparar e comecei a me inspirar. Meu pai é único. A Sandy é única. E eu também sou”. Fui encontrando minha assinatura. Entendi que eu sou mais melodista do que letrista. E comecei a compor em tudo. Amo fazer – Wanessa Camargo

Amadurecimento

Outro campo de maturidade é a relação com a internet e com os julgamentos exagerados das redes sociais. “O dia em que entende que não é com você, é com todo mundo, você se liberta. Quem está feliz não incomoda ninguém. O hater projeta a própria frustração no outro para se sentir melhor, diz. A reflexão vem acompanhada de uma observação curiosa: “Li que o cérebro guarda um elogio por semanas, mas uma crítica por anos. Então você precisa treinar a mente a desapegar disso. Sobre sua vida afetiva, Wanessa ri do próprio perfil apaixonado:

Estou solteira, mas não quero virar uma cínica. Se eu tiver que me apaixonar 20 vezes e sofrer 20 vezes, vou. Gosto de viver. O que não pode é ter medo – Wanessa Camargo

Em meio a tudo isso, ‘Metamorfose’ surge como síntese e celebração. O show reúne as muitas ‘Wanessas’ que coexistem: a romântica dos anos 2000, a eletrônica que se aproximou do público LGBTQIA+, a melodista que descobriu sua própria assinatura, a mulher que revisita dores e floresce, a artista que segue buscando novidade. E, como ela mesma diz: “Simboliza que só a mudança é constante, e hoje esse entendimento me fortalece”.

"Só a mudança é constante, e hoje esse entendimento me fortalece” (Foto: Ita Mazzutti)

“Só a mudança é constante, e hoje esse entendimento me fortalece” (Foto: Ita Mazzutti)