Música & Badalo

Um papo musical com Tibério Gaspar: “O que se ouve hoje em dia é música descartável para atender interesses do mercado”

Autor de músicas como "Sá Marina", "BR-3", "Teletema, "Juliana", Sideral" e "Companheiro"; Tibério vai comemorar seu aniversário e os 49 anos de carreira no palco da Sala Baden Powell, em Copacabana, hoje, dia 13, domingo, às 19h. Junto ao músico estarão os amigos Wilson Simoninha, Tony Tornado e Tavinho Bonfá

Publicado em 13/09/2015 | Por Lucas Rezende

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(Fotos: Reprodução)

Tibério Gaspar, carioca de 72 anos, tem saudades dos festivais de música das décadas de 60 e 70 – que ele considera como “importantíssimos”. E não foi por que ali ele conquistou um arsenal de prêmios com canções como “Sá Marina”, “BR-3”, “Teletema, “Juliana”, Sideral” e “Companheiro” – muitas delas conhecidas na voz de Wilson Simonal, falecido em 2000. Aliás, também. Mas é a qualidade musical dos tempos atuais (ou a falta dela) que vem provocando nostalgia no músico. “O que se ouve hoje em dia em 70% dos veículos de difusão é uma música descartável consagrada pela mídia para atender os interesses imediatos  do mercado”, opinou em entrevista exclusiva ao Site HT, sintetizando o pensamento em uma máxima: “A criação foi substituída por clichês e a música popular foi banalizada”.

Dono da frase “Hoje em dia música é enquadrada como entretenimento. Deixou de ser Música Popular para ser Música Prá Pular”, Tibério não chega a nos afirmar que a atual safra é ruim, mas não deixa de achar que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. Ele explicou: “Deve haver espaço tanto para a arte musical que requer silêncio para uma audição apurada, como também para a música  de entretenimento na qual a gente pula, grita e dança”. Se, pelo menos nas palavras, a linha tênue entre um eixo musical e outro é claro, no campo mercadológico, não. “Essa distinção não é considerada nas leis de incentivo e nos editais de cultura. A isenção fiscal só privilegia em 100% a música clássica, a instrumental e a experimental. A música criativa e a recreativa ficam no mesmo patamar rotuladas como musica popular”, lamentou.

A propriedade para analisar o comportamento dos ouvidos, o nível das composições e as reações do mercado são reflexo dos 49 anos de carreira que Tibério acumula. Aliás, o tempo profissional, junto de seu aniversário, comemorado no último dia 11 de setembro, vai render uma grande festa musical no palco da Sala Baden Powell, em Copacabana, hoje, domingo, às 19h. Junto de Tibério, estarão os amigos Wilson Simoninha, Tony Tornado e Tavinho Bonfá. O episódio, bom citar, merece atenção. Não é comum Tibério se apresentar ao vivo. O motivo? Timidez. “Fui muito tímido na medida certa da minha autocrítica severa típica de um virginiano”, confessou.

Mas, graças a insistência do amigo Tim Maia (falecido em 1998), ele venceu o bloqueio. “Ele dizia que eu tinha uma boa voz e que tocando um ‘violão honesto’ tal como eu tocava deveria gravar minhas músicas e subir ao palco. Claro que o virginiano proibia”, nos disse, relembrando um bom causo. “Aconteceu que, certa vez, ele foi fazer um show no Circo Voador [na Lapa, Rio de Janeiro] e eu o acompanhei. Estava assistindo sentadinho em uma cadeira na coxia quando, lá pelas tantas, ele me chamou para cantar ‘Sá Marina‘ com a banda”. Não é difícil imaginar a reação de Tibério, certo? “Com o Circo lotado quase tive uma síncope. Mas, mesmo tremendo, consegui dar o recado. Aí a porta se abriu…”, lembrou, já tranquilo.

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A tal porta que Tibério conta que se abriu foi bem larga, diga-se de passagem. Um dos maiores compositores do país, ele já integrou as equipes da Secretaria de Cultura do Município do Rio de Janeiro com a deputada Jandira Feghali (PCB), na primeira gestão do prefeito Eduardo Paes (PMDB), e do Ministério da Cultura, com a ministra Ana de Hollanda. “Em ambas esferas, apesar das inteligências, das boas intenções e dos planos bem engendrados por uma assessoria eficiente tanto da deputada como da ministra, a falta de recursos era uma barreira intransponível”, admitiu o músico. As passagens geram um misto de alegria, mas que não escondem uma tristeza. “O DNA de um país é avaliado pela sua cultura. O que me deixa triste é constatar que, nos orçamentos do país, do estado e do município, as reservas destinadas a cultura  não cobrem as nossas necessidades”.

Lembramos a Tibério que Frejat, Jorge Vercillo e integrantes do grupo Procure Saber já reclamaram publicamente que a conta do repasse de direitos autorais não fecha. Ele, como compositor, assina embaixo. “Eles têm razão. Mas a conta não fecha há muito tempo. E pode crer já foi pior. O fato é que entre os que produzem cultura e os que consomem cultura, existe uma rede de atravessadores encastelada desde o tempo em que a música começou a ser olhada como um bom negócio”, alertou. Olho vivo, Tibério tem também para os adventos da tecnologia. Download gratuito e streaming musical são bons exemplos.

“Esse negócio de download de conteúdo gratuito é algo que está sendo discutido no mundo inteiro. Afinal de contas estamos assistindo esses conglomerados da internet amealhando fortunas por que não pagam direito autoral. Os provedores empurram a conta pra essas empresas e elas, por sua vez, empurram para os provedores. E todo esse imbróglio é embalado em um discurso sedutor de que todos devem ter acesso a cultura”, opinou. Para Tibério, o que não compreendido – ou então fingem – é “que quem produz cultura tem que estudar, se aprimorar, e, mais que isso, tem contas para pagar como qualquer mortal”.

Moral da história? Vida de artista, fazer o quê? “O que me parece sinistro é que, se de um lado a tecnologia digital nos livrou da escravidão imposta durante anos pelas gravadoras, replicadoras, editoras, nos lançou despidos e despreparados nas mãos das redes e dos conglomerados da internet e da telefonia móvel. Será sina?”, questionou, já procurando resposta. “Na minha modesta opinião, o músico hoje em dia tem que se transformar numa micro empresa.  Ou melhor, só sobreviverá o músico autoprodutor. Ele compõe, grava, edita, distribui e negocia seus produtos”, deu a dica. Polêmicas à parte, que podemos esperar do show na Sala Baden Powell? “Haja coração. Será um grande encontro. O fato mais maravilhoso nessa vida é a gente descobrir que somos amados por tudo que fizemos e por todos que nós amamos”.

Serviço

Tibério Gaspar Convida – Um show de aniversário

Participações: Wilson Simoninha, Tony Tornado, Tavynho Bonfá, Naire Siqueira, Márcio Montserrat, Luciano Bahia, Jorge Bodart, Jéssica Maya, Eduardo Bentes, Chamon e Carlos Veras.

Data: 13 de setembro (domingo)

Horário: 19h.

Local: Sala Baden Powell – Nossa Senhora de Copacabana, 360 – Copacabana.

Valor: R$ 40,00 (inteira)

Classificação: 12 anos

Capacidade: 496 Lugares

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