Última noite de desfiles: Vila Isabel se candidata ao título e Virgínia traz transtornos à Grande Rio


A Marquês de Sapucaí amanheceu com cenário indefinido após uma noite equilibrada entre Paraíso do Tuiuti, Vila Isabel, Grande Rio e Salgueiro.
A Tuiuti abriu os desfiles com enredo sobre o candomblé afro-cubano de Ifá, luxo visual e estreia de Vinicius Antunes como mestre-sala, afastando risco de queda.
A Vila Isabel homenageou Heitor dos Prazeres com conjunto alegórico ousado e samba bem conduzido, consolidando-se como forte candidata ao título ao lado de Viradouro e Beija-Flor.
A Grande Rio apostou no Manguebeat e em Chico Science, mas enfrentou polêmica com a influenciadora Virgínia Fonseca, que pode render perda de pontos.
O Salgueiro reverenciou Rosa Magalhães em desfile elegante, destacou a volta de Igor Sorriso — já premiado com Estandarte de Ouro —, mas teve como senão o violino excessivo no carro de som

*por Rodrigo Otávio

A Marquês de Sapucaí amanheceu a quarta feira com a sensação rara de que nada estava decidido — e de que tudo poderia mudar. Numa noite marcada pelo equilíbrio, Vila Isabel bagunçou o coreto onde, até então, reinavam com mais conforto Beija-Flor e Viradouro. Desfilaram Paraíso do Tuiuti, Vila Isabel, Grande Rio e Salgueiro — quatro propostas distintas, quatro estratégias de poder.

A Tuiuti abriu os trabalhos com um desfile de rigor conceitual. O carnavalesco Jack Vasconcelos, amparado pela obra e consultoria de Luiz Antônio Simas, mergulhou no candomblé afro-cubano de Ifá com um enredo bem costurado e visualmente opulento. A escola veio muito bem vestida; o abre-alas, composto por um conjunto luxuoso de tripés acoplados a chassis, impôs impacto imediato. Houve também um capítulo simbólico na dança: era o primeiro ano de Vinicius Antunes como mestre-sala fora da antiga parceria com Jéssica Ferreira, com quem brilhou na Unidos de Padre Miguel. Ele seguiu para a Tuiuti; ela, para a Unidos da Ponte. Agora, Vinicius forma dupla com Rebeca Tito. Ambos vestiam fantasia assinada pelo ateliê Aquarela Carioca — um trabalho delicado e preciso. Pelo que apresentou, a Tuiuti não flerta com o descenso.

Vinícius e Rebeca, no Tuiuti (Foto: Riotur)

Se a Tuiuti foi coesa, a Vila foi estratégica. Sob o comando de Gabriel Haddad e Leonardo Bora, a escola prestou uma homenagem sofisticada a Heitor dos Prazeres em “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”. O samba — melódico, tido por alguns como potencialmente cansativo — correu solto na avenida, muito por mérito do intérprete Tinga e da condução segura de Mestre Macaco Branco. A bateria desfilou de boina e casaca, evocando a série de autorretratos em que Heitor se pintou como pintor; todas as peças foram confeccionadas em algodão cru e pintadas à mão, como um croqui aquarelado em movimento. O abre-alas era imponente; o conjunto alegórico, ousado. A Vila sai da noite como candidata real ao título, ombro a ombro com Viradouro e Beija-Flor.

Vila Isabel homenageou heitor dos Prazeres (Foto: RioTur)

A Grande Rio trouxe para a avenida o Manguebeat e Chico Science, em um desfile de boas ideias, embora irregular. Antes mesmo da sirene, porém, a escola já enfrentava ruídos. A presença da influenciadora Virgínia Fonseca como rainha da bateria gerou tensão nos bastidores. Segundo vídeo publicado pelo repórter Luiz Bacci, o presidente da agremiação teria repreendido a equipe da convidada com a frase: “Eu tô no carnaval há 36 anos e vocês chegaram agora”. Virgínia cruzou os últimos módulos de julgamento com a fantasia desmontada e teria avançado por alas que não lhe cabiam — dois movimentos que podem custar décimos, já que o figurino divergia do apresentado na defesa oficial. Visualmente, as soluções de Antônio Gonzaga produziram certo déjà vu, guardando semelhanças com os carnavais de Gabriel Haddad e Leonardo Bora, de quem foi assistente.

Grande Rio: déjà-vu (Foto: RioTur)

Fechando a noite, o Salgueiro homenageou Rosa Magalhães num desfile bonito, bem narrado, mas surpreendentemente leve para uma escola que costuma investir em robustez estética e volumétrica. A impressão era de um Salgueiro mais próximo da delicadeza que marcou, por anos, a São Clemente no Grupo Especial. Brilharam a comissão de frente e o tripé que fazia referência às escolas em que Rosa foi campeã — Império Serrano, Imperatriz Leopoldinense e Vila Isabel — além da ala “Açúcar na Mesa da Nobreza”, evocando o histórico “Cana Caiana, Cana Roxa, Cana-Fita, Pernambuco…”, da Imperatriz. Outro destaque é a volta de Igor Sorriso como intérprete, o que já lhe valeu um Estandarte de Ouro. Um ponto negativo, o incômodo violino do carro de som.

Agora é aguardar pela abertura das notas para descobrirmos a campeã de 2026. A sorte está lançada!

Tripé do Salgueiro: Homanegam Às escolas em que Rosa Magalhães foi campeã (Foto: RioTur)